Opinión - Bloomberg

Às vésperas do IPO, SpaceX amplia vantagem competitiva na corrida espacial

Empresa de foguetes de Elon Musk está bem posicionada para crescer ainda mais no setor espacial, com novas tecnologias e margens de lucro significativas enquanto valuation caminha para US$ 2 trilhões antes de oferta pública inicial

El lanzamiento de la OPV de SpaceX se centra en la capacidad de Elon Musk para “vender el sueño
Tempo de leitura: 7 minutos

Bloomberg Opinion — A SpaceX, de Elon Musk, não é estranha à estratosfera, e o mesmo vale para sua próxima oferta pública inicial (IPO).

O interesse dos investidores no IPO, prevista para os próximos meses, vem subindo rumo a um valuation recorde de US$ 2 trilhões, à medida que surgem mais detalhes sobre oportunidades de receita, como o serviço de transmissão direta para celulares e centros de dados no espaço.

A oferta parece uma aposta na ficção científica para gerar vendas suficientes a partir do espaço para sustentar um preço tão astronômico. Afinal, essa é uma empresa que lançou seu primeiro foguete em órbita há menos de 20 anos.

A promessa de um grande mercado espacial comercial foi viabilizada por custos de lançamento drasticamente mais baixos, e a SpaceX está no centro dessa revolução. O que os investidores vão comprar é crescimento rápido, grandes margens de lucro e, mais importante, uma vantagem competitiva que só tende a aumentar.

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Ao contrário dos outros empreendimentos de Musk, a SpaceX não enfrenta muita concorrência — ainda. A Tesla (TSLA), montadora de veículos elétricos que tornou Musk bilionário, enfrenta dificuldades, já que montadoras chinesas vêm lançando carros que igualam ou superam a Tesla em recursos e são muito mais baratos.


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Na verdade, um dos maiores riscos seria uma iniciativa de Musk para que a SpaceX adquirisse a montadora em declínio. Outro risco é a SpaceX esgotar seus recursos apoiando a xAI, a empresa de inteligência artificial (IA) de Musk que a SpaceX adquiriu em fevereiro, e perder seu ímpeto e seu foco nas oportunidades do espaço.

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O revolucionário foguete Falcon 9 da SpaceX, que pousa um propulsor usado em um navio-drone para reutilização, abriu caminho para a indústria espacial comercial ao reduzir drasticamente o custo dos lançamentos, que se tornaram rotineiros.

Na verdade, a SpaceX lançou foguetes Falcon 9 transportando satélites na Flórida e na Califórnia no mesmo dia na semana passada e está a caminho de estabelecer outro recorde de lançamentos em 2026.

A vantagem competitiva da SpaceX só vai crescer quando a terceira versão da Starship da empresa entrar em operação. O enorme foguete tem capacidade de carga útil muito maior do que o Falcon 9 e é totalmente reutilizável, com tanto o propulsor quanto o veículo de carga projetados para serem recuperados em um navio-drone ou na plataforma de lançamento com os agora famosos “pauzinhos mecânicos”.

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Outro fator que impulsiona a sorte da SpaceX é um tropeço da Blue Origin, de Jeff Bezos, indiscutivelmente a concorrente mais próxima da SpaceX. A empresa, fundada dois anos antes da SpaceX, mas que está muito atrás e ainda em fase inicial, lançou com sucesso seu foguete New Glenn pela terceira vez em 19 de abril e conseguiu recuperar o propulsor em um navio-drone.

A missão, porém, não conseguiu colocar um satélite construído pela AST SpaceMobile na órbita correta, o que significa que o satélite cairá na Terra e se consumirá na atmosfera. Isso representou um golpe para a reputação da Blue Origin como parceira de lançamento confiável.

Isso também representou um sério revés para a AST SpaceMobile, que busca competir no mercado de transmissão direta para dispositivos utilizando um número menor de satélites, porém de maior porte, em órbita terrestre baixa. As ações da AST SpaceMobile despencaram 5% no dia seguinte ao lançamento.

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Quanto às empresas espaciais tradicionais, a Boeing e a Lockheed Martin investiram em foguetes descartáveis que são confiáveis, mas têm capacidade limitada de conquistar clientes de lançamento devido aos custos muito mais elevados. Mesmo que as empresas mudem para a tecnologia reutilizável, talvez seja tarde demais para entrar na corrida.

Uma longa lista de startups busca foguetes reutilizáveis, incluindo a Rocket Lab, a Stoke Space Technologies e a Relativity Space. Mas a ciência por trás dos foguetes é difícil, e essas startups estão atrasadas em relação ao cronograma ou enfrentando dificuldades financeiras. Também houve fracassos precoces, incluindo a Virgin Orbit, de Richard Branson, ou a Astra Space, que abriu o capital e depois foi fechada após as ações despencarem em sequência de várias falhas de lançamento.

A vantagem de lançamento, que aumentará quando a Starship estiver realizando voos regulares, é apenas a base da vantagem competitiva da SpaceX. Isso permitiu que a unidade Starlink da SpaceX, que fornece serviço de internet via satélite, montasse uma rede inigualável de mais de 10 mil satélites em órbita baixa da Terra e conquistasse clientes.

A Starlink encerrou o ano passado com 9,2 milhões de assinantes, e seu segmento de consumo gerou a maior parcela da receita, cerca de 56%, de acordo com a Quilty Space, uma empresa de consultoria do setor.

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Os clientes dos setores marítimo, empresarial e de aviação contribuíram, cada um, com cerca de 10% dos negócios da Starlink. O setor governamental, por meio do Starshield, foi responsável por 16% da receita, informou a Quilty Space.

A SpaceX obtém lucro em cada etapa de seus negócios porque é totalmente integrada, fabricando seus próprios foguetes, satélites, gateways terrestres e kits para clientes para a recepção do sinal de internet de banda larga. Espera-se que as vendas da SpaceX subam para US$ 20 bilhões em 2026, e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) está estimado em US$ 14,2 bilhões, uma margem de Ebitda extraordinariamente alta de 71%.

A SpaceX agora busca dominar uma tecnologia emergente que fornece serviço de telefonia via satélite em praticamente qualquer lugar da Terra.

Por enquanto, a SpaceX está firmando parcerias com operadoras de redes móveis para incluir a cobertura remota nos planos de serviço existentes. Fica claro que Musk quer oferecer um serviço de telefonia móvel independente após pagar US$ 20 bilhões por espectro sem fio em dois acordos no ano passado com a EchoStar, a empresa de TV via satélite em dificuldades.

A Amazon (AMZN), gigante de e-commerce e da computação em nuvem de Bezos que busca construir sua própria rede de satélites em órbita terrestre baixa, seguiu o exemplo da SpaceX com seu próprio acordo de espectro, anunciando na semana passada que pagaria US$ 11,6 bilhões pela Globalstar. A Amazon, assim como outros concorrentes, enfrenta custos de lançamento estruturalmente mais elevados do que a Starlink, o que a coloca em desvantagem desde o início.

Depois de decifrar o segredo de como lucrar no espaço com internet móvel de alta velocidade e buscar o mercado de conexão direta com dispositivos, a SpaceX oferece aos investidores um potencial de ganho adicional e potencialmente enorme com a aposta de Musk em tecnologias de ponta, como data centers no espaço. A empresa possui todas as ferramentas — lançamentos de baixo custo e capacidade de produção interna — para dominar esse negócio, se o conceito funcionar. Isso atraiu até mesmo investidores tradicionalmente cautelosos, como a Fidelity.

Leia mais: Turismo espacial perde fôlego diante de custos elevados e demanda ainda limitada

A matemática dos data centers no espaço pode funcionar com os custos de lançamento mais baixos da Starship, disse Karin Fronczke, chefe de investimentos globais em private equity da Fidelity, durante uma entrevista à Bloomberg TV em março.

A Fidelity investiu pela primeira vez na SpaceX em 2015, quando o Falcon 9 tinha apenas 13 lançamentos em seu histórico e não possuía nenhum satélite Starlink em órbita, disse Fronczke. No ano passado, a SpaceX realizou 165 lançamentos comerciais, o que representou mais da metade das viagens espaciais em todo o mundo.

“Há ambições de avançar ainda mais no setor de operadoras de telefonia móvel”, disse Fronczke sobre os motivos da alta valorização da SpaceX. “A cereja do bolo seria o futuro dos data centers orbitais.”

Há pouco risco regulatório nos EUA em relação ao domínio da SpaceX no setor espacial comercial, pois o país precisa de um líder para se manter à frente da China, que realizou 91 lançamentos orbitais no ano passado, de acordo com o Jonathan’s Space Report.

Os maiores riscos residem na SpaceX dedicar grande parte de seu caixa à xAI — a empresa assinou um acordo no início desta semana que lhe dá o direito de comprar a startup de IA Cursor por US$ 60 bilhões ou pagar US$ 10 bilhões por sua colaboração — ou em uma iniciativa para adquirir a Tesla.

Caso contrário, a vantagem competitiva substancial da SpaceX só tenderá a se tornar mais profunda e ampla.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Thomas Black é colunista da Bloomberg Opinion e cobre logística e manufatura. Já escreveu sobre as fábricas e transportadoras dos Estados Unidos e sobre a indústria, a economia e o governo do México.

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