IA cria oportunidade para destravar produtividade nas PMEs brasileiras, segundo CEOs

Para Diego Barreto, do iFood, a tecnologia muda o gargalo histórico do empreendedor brasileiro, disse durante painel do The AI Economy Brazil, evento da Bloomberg Línea com a Sólides. Mônica Hauck, da Sólides, e Marcelo Lombardo, da Omie, citam o desafio da distribuição

IA cria oportunidade para destravar produtividade nas PMEs brasileiras, segundo CEOs

Bloomberg Línea — A discussão sobre inteligência artificial nas pequenas e médias empresas brasileiras tem um ponto de partida incômodo: o Brasil ocupa a 92ª posição no ranking mundial de produtividade por hora trabalhada, e piorou em relação ao ano anterior.

O dado, citado por Diego Barreto, CEO do iFood, em painel do The AI Economy Brazil, evento da Bloomberg Línea com a Sólides, empresa brasileira de tecnologia para gestão de RH, ajuda a explicar por que o segmento das PMEs concentra hoje as maiores expectativas de ganho com a tecnologia.

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“A Argentina tem 50% mais de produtividade que a gente. EUA, quatro vezes e meia”, comparou o líder da maior plataforma de delivery de comida do Brasil.


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Para os executivos reunidos no evento, o tamanho do gap é também o tamanho da oportunidade, sobretudo porque sete em cada dez brasileiros que trabalham estão em pequenas empresas, justamente o segmento com menor maturidade de gestão e maior atrito para adotar tecnologia.

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Os primeiros casos de uso apresentados pelos executivos endereçam exatamente esse atrito. No iFood, o exemplo mais maduro é o suporte a pequenos comerciantes fora do horário comercial, justamente quando o dono fecha o caixa e tem tempo de pedir ajuda.

“O dono do restaurante só conseguia buscar ajuda depois das 22h, quando fechava o caixa. Eu não tinha um time de 200 pessoas para atender ele àquela hora”, exemplificou Barreto.

Agentes de IA agora cobrem essa janela 24 horas, sem substituir pessoas, mas ocupando um espaço em que não havia ninguém.

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Internamente, a lógica é a mesma: parte da consultoria tradicional foi trocada por agentes que disparam mensagens no Slack, entrevistam funcionários e consolidam o diagnóstico.

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“Há um ano, mexer no processo de uma empresa exigia sentar com as pessoas. Hoje, mandando uma mensagem no Slack para 30, 40 pessoas, você enumera literalmente todos os processos”, citou o CEO do iFood.

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O que sustenta esse tipo de aplicação, segundo ele, não é o modelo em si, mas o histórico que a empresa acumulou:

“Qualquer um pode fazer um SaaS [software como serviço]. O grande ativo está nos dados proprietários, e isso é construído ao longo do tempo”.

Vácuo, não substituição

A leitura de Barreto encontra eco no diagnóstico de Mônica Hauck, CEO e cofundadora da Sólides, que prefere deslocar o debate da substituição para o preenchimento de ausências.

O mercado endereçável da empresa é de cerca de 7 milhões de pequenos negócios, e a maioria sequer tem um profissional de RH.

“Existe um mundo de empresas brasileiras que estão operando diariamente e não tem uma gestão. A gente fica vazio de gestão. É nesse espaço vazio, de preencher uma ausência, que a inteligência artificial entra gerando impacto”, disse a executiva.

Hauck sustentou a tese em dois números: ações trabalhistas movimentaram mais de R$ 50 bilhões no Brasil no ano anterior, enquanto a base da Sólides registrou redução média de 43% na rotatividade, com payback de 15 meses.

Ainda assim, fez uma ressalva sobre o ritmo de adoção, pouco presente no discurso corrente sobre IA. “Há tecnologias prontas que são bem avançadas, mas se você coloca na mão agora vai dar problema. O cliente vai rejeitar. As pessoas não estão prontas para consumir”.

WhatsApp como porta de entrada

Se o problema é distribuição, Marcelo Lombardo, CEO da Omie, plataforma brasileira de software de gestão para pequenas empresas, ofereceu o exemplo mais concreto de como a IA generativa altera o jogo.

Cerca de 7.000 novas pequenas empresas são abertas por mês no Brasil, e 90% delas trabalham, segundo ele, com caderno e caneta.

“A nossa nova competição hoje é o Excel”, resumiu.

Ao integrar funcionalidades da plataforma ao WhatsApp via IA, a Omie diz ter passado de um mercado endereçável de 1,5 milhão para 7 milhões de empresas, uma expansão que, na leitura do executivo, tem mais a ver com remoção de barreiras do que com inovação de produto.

“Isso tirou uma jornada de aprendizado de tecnologias muito grande da frente do usuário”.

Para Alessandro Garcia, cofundador e co-CEO da Sólides, a discussão sobre IA nas empresas brasileiras deveria sair do terreno da adoção e entrar no da execução.

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Com tecnologia cada vez mais acessível e modelos similares disponíveis a todos, o que diferencia uma empresa da outra, disse, é a capacidade de transformar isso em resultado operacional.

“A gente tem potencial de ser dez vezes mais eficiente do que é hoje”.

O raciocínio vale também para as pessoas, segundo ele: o ganho de produtividade individual passa a ser parte do contrato de trabalho.

Barreto mencionou o ângulo do capital. Mudar a realidade de um negócio no Brasil sempre exigiu dinheiro, disse o executivo.

Montar uma rede de varejo, abrir um banco ou sustentar uma operação até ela tracionar dependia de capital que poucos tinham, observou. Com a IA, a barreira passa a ser outra, pois o custo de fazer cai a ponto de o gargalo deixar de ser financeiro.

“A chance que a gente tem aqui é de distribuir a ferramenta na mão de milhões de brasileiros e dizer: faz, vai”, afirmou o CEO do iFood.

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