Bloomberg — No mundo dos bancos centrais, dificilmente alguém consideraria essencial analisar as margens de lucro do refino de petróleo bruto para definir as taxas de juros. Mas os mercados de energia voltaram a emitir sinais de caos.
Enquanto os contratos futuros do petróleo Brent dispararam para acima de US$ 100 nesta semana, os alertas sobre os preços dos combustíveis que aquecem as residências, movimentam a indústria e mantêm os caminhões em circulação no mundo todo ficaram ainda mais intensos. Esses preços mostram uma pressão maior do que a registrada pelo petróleo e ameaçam provocar um impacto mais amplo na economia.
Durante boa parte da guerra entre Irã e Israel, os bancos centrais conseguiram ignorar o impacto do conflito sobre o abastecimento de energia porque os piores cenários não se concretizaram. Mas, enquanto o petróleo volta a subir, os preços do diesel e do gás natural avançam ainda mais rapidamente, em parte porque o conflito dá poucos sinais de solução. Os dois lados indicam que podem estar se preparando para uma guerra prolongada.
O Banco Central Europeu destacou a alta dos preços do petróleo e do gás como um dos possíveis riscos que podem elevar suas projeções de inflação nos próximos meses.
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Na quinta-feira (10), depois de anunciar uma alta amplamente esperada no custo dos empréstimos, a presidente do BCE, Christine Lagarde, disse que, seis meses atrás, se alguém falasse sobre margens de refino, “não saberíamos exatamente do que se tratava”. “Agora, seja qual for o nome usado, diferencial de refino ou margem de refino, quando se trata de combustíveis líquidos, todos sabemos do que estamos falando.”
No início da semana, o chefe do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, deu aos parlamentares britânicos uma aula de economia do mercado de petróleo durante uma sessão no Parlamento.
Ele observou que os diferenciais de refino — os prêmios obtidos pelas refinarias quando transformam petróleo bruto em produtos consumíveis, como gasolina e diesel — estão ampliando as pressões sobre os preços. Agora, os mercados esperam duas altas de juros até fevereiro para ajudar a conter a inflação.
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Os contratos futuros de diesel estão acima de US$ 200 por barril em algumas partes do mundo e, com os impostos, alguns consumidores pagam mais de US$ 300. Os preços do gás natural na Europa atingiram o maior nível desde o fim de 2022, ano da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, enquanto os estoques permanecem baixos antes da chegada do frio. Os preços do diesel nos Estados Unidos também estão em nível recorde.

A situação ainda está muito distante dos cenários de desastre previstos quando o conflito entre Irã e Israel começou, no fim de fevereiro. Um dos principais fatores por trás da alta das últimas semanas foi a China, e ainda não se sabe se as refinarias do país asiático continuarão nesse ritmo diante dos custos.
Mas a trajetória mais ampla é clara. Operadores e produtores dizem que o mundo precisará de petróleo durante o inverno e que a capacidade de refino continua limitada, o que manterá os custos dos combustíveis sob pressão.
Os ataques da Ucrânia contra refinarias russas levaram as exportações de diesel do país ao menor nível já registrado, enquanto as instalações de processamento no Oriente Médio ainda se recuperam dos ataques ocorridos no início da guerra entre Irã e Israel.
Ainda existe uma diferença entre os fluxos atuais e os registrados antes da guerra pelo Estreito de Ormuz, que, antes do conflito, respondia por cerca de um quinto do transporte mundial de petróleo e gás natural liquefeito.
Muitas das alternativas criadas pelo mercado de energia foram interrompidas. A liberação de reservas estratégicas está desacelerando, enquanto a China aumentou as compras de petróleo e os estoques vêm diminuindo de forma constante.
Militantes houthis do Iêmen também têm atacado repetidamente a Arábia Saudita, um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás. Depois de vários ataques na quinta-feira, o reino fechou o oleoduto East-West, uma importante alternativa ao Estreito de Ormuz para suas exportações.

O mercado de petróleo está sinalizando uma convulsão. O custo do aluguel de um superpetroleiro por um dia pode superar US$ 1 milhão, enquanto empresas pagam prêmios elevados para garantir o abastecimento imediato. Contratos de derivativos que normalmente oscilam alguns centavos por vez estão atingindo níveis recordes e avançando vários dólares em uma única sessão.
“Teremos um inverno muito difícil no norte da Europa”, disse Shaikh Khaled Al-Sabah, diretor-gerente de marketing internacional da Kuwait Petroleum, em uma conferência nesta semana. “Isso é apenas o começo.”
O gás continua, em grande parte, retido no Golfo. Operadores europeus estão preocupados com a quantidade que conseguirão garantir durante o inverno, já que os estoques estão no menor nível para esta época do ano.

Governos e empresas deixaram de comprar durante o verão, mas grandes bancos e consultorias afirmaram que a quantidade de gás que a região precisa adquirir pode fazer os preços voltarem a superar € 100 por megawatt-hora, cerca de 25% acima dos níveis atuais. Preços elevados do gás acabam afetando a produção industrial.
“Este é um período difícil”, disse Evangelos Mytilineos, presidente-executivo da empresa grega Metlen, a maior produtora integrada de bauxita, alumina e alumínio primário da União Europeia. “Os preços da eletricidade estão atingindo níveis que impedem empresas sem preparação adequada de produzir alumínio.”
Escalada dos preços
Nos mercados de petróleo bruto, o principal índice de referência mundial para barris negociados no mercado físico atingiu US$ 120 pela primeira vez desde junho. É um sinal de que as refinarias estão pagando mais para processar quaisquer barris que consigam obter, enquanto o lucro com a produção de combustíveis, especialmente diesel, permanece historicamente elevado.
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De fato, os alertas sobre o diesel, em particular, estão se tornando cada vez mais intensos. Os ataques ucranianos contra refinarias russas reduziram a quase nada o fluxo de exportações de diesel de uma das maiores fontes mundiais do combustível.
“Todos sabemos que o diesel é usado por uma categoria de agentes econômicos”, disse Lagarde nesta semana, durante uma entrevista coletiva em que indicou que talvez fosse necessário elevar ainda mais os juros para conter os riscos inflacionários. “E agora sabemos que ele é mais um gargalo.”
Em uma conferência sobre petróleo realizada em Cingapura nesta semana, operadores apontaram repetidamente que os mercados globais de combustíveis enfrentam problemas significativos. Em alguns países europeus, como a Itália, cortes de impostos já estão em vigor para proteger os consumidores, mas essa pressão persistirá se os preços do diesel continuarem subindo.
Na sexta-feira, a Agência Internacional de Energia afirmou que 2026 terá a maior queda na demanda por petróleo desde a pandemia, à medida que os preços elevados do diesel, em particular, reduzem o consumo.
A agência disse que, até agora, os estoques foram fundamentais para manter os preços sob controle. Mas essas reservas estão diminuindo, e o sistema mundial de refino opera no limite. Sem avanços em uma das guerras — entre Irã e Israel ou entre Rússia e Ucrânia —, os mercados de petróleo podem ficar ainda mais apertados, alertou.
Isso traz o risco de um inverno potencialmente doloroso e de os políticos precisarem agir para aliviar o custo de vida, enquanto os bancos centrais elevam os juros. Fora do setor de energia, ataques a portos do Mar Negro ajudaram a levar os preços dos alimentos ao maior nível em quase quatro anos.
A Hungria anunciou na sexta-feira, por exemplo, que ajudará os proprietários de veículos a pagar pelos combustíveis.
“Há muitas preocupações de que os preços continuem subindo”, disse Anne-Sophie Corbeau, pesquisadora do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia. “É provável que os governos sejam pressionados a intervir e proteger os consumidores, mas, naturalmente, isso dependerá da situação fiscal de cada país.”
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