Opinión - Bloomberg

Problema de narrativa? O que a Tesla pode aprender com o lançamento do iPhone

Enquanto a Apple enfatiza seus produtos em grandes eventos, com destaque para o novo aparelho dobrável, a montadora de Elon Musk lançou discretamente o Cybercab

A Tesla Inc. Cybercab driverless car displayed during a preview at the company's delivery center in Hong Kong, China, on Monday, Sept. 7, 2026. The Cybercab, which has been in testing in multiple US cities in recent months, is seen as a key piece of Tesla's plan to evolve beyond a maker of electric vehicles into a pioneer of artificial intelligence products. Photographer: Billy H.C. Kwok/Bloomberg
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — A Apple (AAPL) acabou de lançar seu tão aguardado iPhone dobrável. A empresa deu grande destaque ao lançamento, transmitindo ao vivo um evento em sua sede, apresentado pelo novíssimo diretor executivo, John Ternus.

Faz sentido. O que está em jogo para a Apple é muito, afinal, essa é a maior mudança já feita no design de um aparelho que transformou a Apple em uma das empresas mais valiosas do mundo e que ainda é responsável por cerca de metade de suas vendas.

Compare essa correlação entre a importância de um produto e a forma como ele é apresentado com o lançamento do tão aguardado Cybercab pela Tesla (TSLA). Trata-se do táxi-robô de dois lugares da montadora, com portas em forma de asa de gaivota, sem volante nem pedais.

A Tesla acaba de começar a oferecer corridas pagas nessas maravilhas douradas em parte de Austin, com um evento que não contou com transmissão ao vivo nem mesmo com a presença do famoso CEO, Elon Musk.

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O que é curioso quando se considera que resolver o desafio da autonomia é uma questão de vida ou morte para a Tesla. O próprio Musk afirmou sem rodeios que quem não acredita que a Tesla consiga fazer isso não deveria ter ações da empresa.

O fato de a Tesla, mesmo assim, ter realizado um evento do Cybercab que passou despercebido é algo que, mesmo nestes tempos de ceticismo, os investidores devem tomar nota. As ações da Tesla são impulsionadas por sua narrativa sem limites, e uma atualização incomumente discreta é mais um sinal de que a própria narrativa está falhando.

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As empresas gostam de exibir um novo produto — seja ele real ou conceitual — tanto para divulgar o produto em si quanto para sinalizar que são elas que definem o futuro. A Tesla é mais hábil nisso do que a maioria, e seus eventos costumam ter uma atmosfera circense, com Musk atuando como mestre de cerimônias.

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O Cybercab foi visto pela primeira vez dessa forma em um evento chamativo sobre autonomia, realizado no set de um estúdio de cinema em 2024. O Cybertruck da Tesla foi apresentado de forma semelhante no palco, com direito a um vídeo dele resistindo a tiros e a uma quebra de janela ao vivo e improvisada.

Há quase uma década, o próprio Musk dirigiu um caminhão Tesla Semi até o palco e, mais tarde, causou espanto quando um roadster de última geração desceu inesperadamente de um reboque.

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O fato de o lançamento comercial do Cybercab ter sido, em termos relativos, anunciado com toda a pompa de uma atualização de software para computador é, portanto, incomum. Minha experiência mostra que, quando as empresas têm uma boa história, elas tendem não apenas a contá-la, mas a gritá-la aos quatro ventos.

A série de afirmações grandiosas e prazos não cumpridos de Musk em relação aos veículos autônomos é bem conhecida; em um exemplo recente, ele afirmou em 2025 que os táxis-robôs da Tesla “provavelmente” cobririam metade dos Estados Unidos até o final daquele ano. Isso não aconteceu e Musk nem mesmo compareceu à estreia nas ruas de seu modelo carro-chefe de táxi-robô.

Já ficou evidente que a visão inicial da Tesla sobre frotas de veículos com autonomia generalizada circulando pelas estradas foi reduzida a um conjunto de operações em pequena escala e projetos-piloto em alguns poucos locais.

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Como que para enfatizar a discrepância entre retórica e realidade, a resposta da Administração Nacional de Segurança Rodoviária dos EUA (NHTSA) ao incidente com o Cybercab — que resultou na abertura de uma investigação sobre o processo de autocertificação da Tesla para o veículo — proporcionou um desfecho absurdo.

O contraste com a Waymo, líder no setor de táxis-robôs, é impressionante. No entanto, a tolerância dos investidores e analistas diante de reveses estratégicos tão evidentes também é.

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Considere que o relatório do Morgan Stanley sobre o incidente do Cybercab destacou logo de início a ausência de uma transmissão ao vivo ou de divulgação por parte da empresa sobre quantos veículos foram realmente colocados em operação; o relatório chegou a ser intitulado “O lançamento indescritível”. No entanto, o relatório detectou sinais de que “a Tesla está se preparando para expandir a implantação”.

A meta de preço de US$ 400 — dos quais 30%, ou US$ 474 bilhões implícitos, estão relacionados aos táxis-robôs — permanece. Da mesma forma, o Goldman Sachs Group (GS) concluiu que “o Cybercab posicionará bem a Tesla para operar com uma estrutura de custos atraente”, mas fez isso citando estimativas desses custos em vez dos valores reais, já que a Tesla não divulgou nenhum.

Em contrapartida, qualquer pessoa interessada em comprar o iPhone Duo da Apple sabe que poderá fazer a pré-encomenda no mês que vem, com preços a partir de US$ 1.999. A falta de detalhes por parte da Tesla é o detalhe importante aqui.

Musk tem sido comparado ao lendário cofundador da Apple, Steve Jobs, sobretudo em termos de seu talento para reunir uma legião de seguidores em torno de algum produto novo e futurista. A diferença, no entanto, reside na capacidade de Jobs e de seus sucessores de lançar produtos futuristas e, fundamentalmente, altamente lucrativos.

A capitalização de mercado de US$ 4,7 trilhões da Apple se baseia em um múltiplo de lucros de 37 vezes — robusto, mas nada comparado ao múltiplo de 210 vezes sobre o qual se sustenta a capitalização de US$ 1,4 trilhão da Tesla. Ambas as empresas inspiram, mas uma delas proporciona uma experiência muito mais semelhante a uma religião do que a outra.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Liam Denning é colunista da Bloomberg Opinion e cobre energia. Ex-banqueiro, ele editou a coluna “Heard on the Street” do Wall Street Journal e escreveu a coluna “Lex” do Financial Times.

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