El Niño ameaça agravar crise dos produtores de arroz no Rio Grande do Sul

Após uma sequência de eventos climáticos extremos, agricultores do principal estado produtor de arroz do Brasil enfrentam o risco de novas perdas com a chegada do El Niño e a redução das margens

Lavoura de arroz danificada após as enchentes históricas que atingiram Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul, em 2024. (Foto: Bloomberg)
Por Meg Lopes

Bloomberg — O El Niño que se aproxima ameaça agravar a crise financeira dos produtores de arroz no sul do Brasil, onde anos de condições climáticas extremas já fizeram os custos dispararem e forçaram a principal região produtora do país a reduzir drasticamente seus planos de plantio para o futuro.

O Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção nacional de arroz do Brasil, está concluindo sua colheita, com a produção total prevista para cair 10%, para quase 7,8 milhões de toneladas métricas, de acordo com os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

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Otávio Sousa, no extremo sul do estado, encerrou o ciclo atual sem perspectivas de melhora no curto prazo.

“Estou tentando, mas não há nada que possamos fazer que valha a pena”, disse o agricultor e agrônomo de 60 anos. “Este ano, com certeza vamos registrar prejuízo com o preço pelo qual estamos vendendo hoje.”

(Fonte: Instituto Rio Grandense do Arroz)

O surgimento do fenômeno climático El Niño ocorre num momento em que os agricultores brasileiros já vêm sofrendo este ano, depois que a guerra no Irã fez os preços dos fertilizantes e dos combustíveis dispararem.

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Isso se soma a uma série de outros problemas que têm pressionado os produtores — incluindo outros eventos climáticos severos.


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Evandro Oliveira, analista da Safras & Mercado, afirmou que a pandemia, um histórico de secas e, em seguida, uma sequência de chuvas intensas contribuíram para desequilibrar as finanças dos produtores. Para ele, a relação entre “custo, preço e produtividade” ficou desequilibrada, com perdas de rendimento, despesas mais elevadas e preços de venda estagnados.

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“O El Niño é o pior cenário possível para o arroz”, disse Oliveira. “Mas agora resta saber qual será a intensidade do fenômeno. Se for um El Niño forte, as perspectivas para o arroz serão bastante complexas.”

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Se os padrões climáticos do passado se repetirem, disse ele, a produção nacional poderá ficar abaixo dos níveis de consumo.

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O El Niño, confirmado por cientistas no início deste mês, altera os padrões climáticos globais, e o atual pode estar entre os mais fortes já registrados. Um relatório de junho do Itaú BBA indicou que chuvas acima da média podem atrasar o plantio de arroz, que começa em setembro, enquanto a falta de sol devido ao tempo nublado também pode reduzir os rendimentos.

O clima tem sido uma ameaça particular para os agricultores do Rio Grande do Sul.

A região sofreu uma seca em 2022, inundações em 2023, chuvas devastadoras entre abril e maio de 2024 e uma nova onda de chuvas intensas em maio de 2025, que atingiu regiões tradicionais de cultivo de arroz, incluindo Santa Vitória do Palmar e Alegrete.

“Perdemos muito” em 2024, lembrou Sousa, incluindo cerca de metade do arroz plantado durante aquele episódio mais agudo de chuvas intensas.

(Fonte: MUP RS)

Qualquer nova safra em desenvolvimento sob a influência do El Niño volta a elevar o alerta, sendo que a principal preocupação para o arroz é o risco de enchentes, segundo Ludmila Camparotto, agrometeorologista da Rural Clima.

“No ano passado, tivemos inundações no Rio Grande do Sul, que causaram prejuízos principalmente à infraestrutura civil, mas, é claro, também à agricultura”, disse ela.

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Em Alegrete — um município com cerca de 72 mil habitantes e um reduto cultural da identidade “gaúcha” — as chuvas de maio de 2025 forçaram os moradores a abandonar suas casas.

Os agricultores locais que perderam safras em anos anteriores foram atingidos novamente e ainda não se recuperaram totalmente, com o impacto da guerra no Irã adicionando ainda mais pressões.

O agricultor de Alegrete, Lucas Di Napoli, disse que os custos se tornaram “desconectados da realidade” para os produtores, que precisam fazer malabarismos com as despesas enquanto os preços dos grãos caem. “A conta simplesmente não bate”, acrescentou ele.

Mesmo sem outro choque climático, o setor entra no próximo ciclo enfraquecido. Sousa já havia reduzido sua área plantada de arroz em cerca de 15% em 2023, mas afirmou que uma redução de 20% teria sido o ideal. Apesar do aumento na produção na safra atual, é provável que ele reduza ainda mais sua área plantada.

“Há muita preocupação com o futuro, porque já tivemos prejuízo com a enchente”, disse Sousa.

A pressão já está remodelando o mercado de arrendamento de terras rurais no Rio Grande do Sul. Alessandro Acosta, sócio fundador da Safras & Cifras, disse que os produtores começaram a rescindir contratos ou a renegociar valores mais baixos quando os arrendamentos chegam ao prazo de renovação.

“Este é o momento de ficar apenas com os excelentes, porque os bons são ruins; é assim que a situação está grave”, lembra Acosta, citando o que um cliente lhe disse.

À medida que a próxima safra se aproxima, os produtores permanecem presos entre mercados voláteis e um céu imprevisível.

“Ainda há muitas variáveis a serem consideradas. É por isso que os agricultores se sentem em uma situação difícil”, disse Oliveira.

--Com a colaboração de Giovanna Serafim e Dayanne Sousa.

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