Bancos centrais de Brasil e México adotam abordagens opostas ao decidir baixar juros

As autoridades monetárias das duas principais economias da América Latina baixaram juros de forma semelhante, mas adotaram estratégias diferentes diante da escalada internacional dos preços

Copom iniciou a flexibilização monetária em março, calibrando os juros, enquanto Banxico surpreendeu o mercado sem um consenso (Foto: Bloomberg)
28 de Março, 2026 | 01:32 PM

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Bloomberg Línea — Em pouco mais de uma semana, os bancos centrais do Brasil e do México tomaram decisões de política monetária que, embora tenham coincidido na magnitude da medida—25 pontos-base cada um—, refletem filosofias opostas diante do mesmo cenário global.

Em 18 de março, o Comitê de Política Monetária do Brasil (Copom) reduziu a taxa Selic para 14,75%. Em 26 de março, o Banco do México (Banxico) fez o mesmo, levando sua taxa de referência para 6,75%. O mesmo movimento, a mesma magnitude, mas lógicas diferentes.

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Brasil - corte que não promete continuidade

O Banco Central cumpriu o que havia sinalizado em janeiro: iniciar a flexibilização monetária em março “caso o cenário esperado se confirmasse”.

O problema, segundo a Delphos Investment, é que esse cenário se deteriorou substancialmente ao longo do caminho: o petróleo passou de US$ 72 para uma média de US$ 103 em três semanas, a inflação esperada para 2026 saltou para 4,10% —próximo do teto da banda de 4,5%— e o abismo de preços dos combustíveis na Petrobras atingiu níveis insustentáveis.

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A decisão foi unânime entre os sete diretores que compõem o comitê — que ainda tem duas vagas em aberto desde dezembro —, mas o mais relevante não foi o corte em si, e sim o sinal que o acompanhou.

O Copom reconheceu em seu comunicado que o ambiente externo se tornou mais incerto devido aos conflitos geopolíticos no Estreito de Ormuz, com efeitos sobre as condições financeiras globais e os preços das matérias-primas, e que esse cenário exige cautela por parte dos países emergentes.

Além disso, elevou a projeção de inflação no horizonte de monitoramento até o terceiro trimestre de 2027 para 3,3%, acima da meta de 3,0% e dos 3,2% projetados em janeiro.

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Alberto Ramos, do Goldman Sachs, explicou a lógica por trás da medida: o corte ocorreu apenas porque já havia sido sinalizado, e começar com 25 pontos-base permite acelerar para 50 caso a guerra se acalme, sem o custo para a reputação de ter começado com força e ter que frear.

A palavra escolhida pelo Copom para definir a decisão foi “calibragem”, um termo deliberadamente restrito que evita comprometer um ciclo.

A Delphos alerta que, se em abril, com o horizonte deslocado para o quarto trimestre de 2027, a projeção de inflação continuar acima da meta, pode não haver um segundo corte.

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A interpretação do mercado é mista: 14,75% continua sendo extraordinariamente restritivo — o nível mais alto em 20 anos antes dessa medida — e a economia mostra sinais de moderação. Um indicador amplo de preços como o IGP-10, que capta com maior rapidez a dinâmica no atacado, registrou uma queda de 0,24% em março (acumulado de 12 meses em -2,53%), o que sugere que os preços já internalizaram a restrição, embora os preços ao consumidor ainda não tenham cedido o suficiente e o mercado de trabalho continue resiliente.

Enquanto isso, a Delphos mencionou que a curva de depósitos interbancários de longo prazo já precifica uma Selic terminal em torno de 12,25% para o final do ano, o que implica um corte adicional de cerca de 250 pontos-base.

Mas essa trajetória, aponta a consultoria, depende inteiramente de que a situação no Estreito de Ormuz não se agrave e de que a Petrobras não seja forçada a ajustar seus preços de combustíveis.

México - estímulo contra a corrente

O Banco Central do México, o Banxico, surpreendeu o mercado com um corte de 25 pontos-base, para 6,75%, em uma decisão tomada por 3 votos a 2: a presidente Victoria Rodríguez e os vice-presidentes Cuadra e Mejía deram prioridade à fraqueza da atividade econômica, enquanto Heath e Borja votaram pela manutenção da taxa em 7%.

O consenso do mercado não esperava essa medida, o que, segundo a Delphos, confere à decisão um elemento de surpresa que poderá condicionar o posicionamento nas próximas semanas.

O comunicado condicionou os próximos passos à “evolução das condições macroeconômicas e financeiras”, sem se comprometer com outra medida.

O México enfrenta o mesmo dilema de estagflação que o Brasil, mas optou pela resposta oposta: enquanto o Copom foi cauteloso com 25 pontos-base e usou a palavra “calibragem” para evitar comprometer-se com um ciclo, o Banxico reduziu diretamente contra uma inflação que vem subindo —de 3,92% para 4,63% em um mês na primeira quinzena de março— e uma inflação subjacente em 4,52% que não cede.

O argumento implícito, segundo a empresa, é que a queda da atividade —0,9% mensal e -0,3% em relação ao ano anterior em janeiro, contra um consenso de +1,6%— é tão severa que o risco de recessão supera o de inflação.

No entanto, a Delphos considera que, com os preços em alta e os riscos decorrentes do conflito geopolítico ainda presentes, há motivos de peso para acreditar que teria sido mais prudente aguardar condições mais favoráveis antes de conceder estímulos adicionais.

A reação do mercado foi imediata: o peso se desvalorizou e a taxa de câmbio subiu para 17,90 por dólar, com um aumento de 0,9%, embora o movimento tenha sido contido pelo diferencial de taxas que, mesmo em 6,75%, continua amplo em relação ao Fed.