Bloomberg Línea — Em seu pedido de recuperação judicial, o Grupo Toky (TOKY3) apresenta um histórico de dificuldades para justificar a medida e tentar evitar o colapso de suas operações.
O pedido foi protocolado nesta terça-feira (12) pela varejista de móveis e decoração, dona das redes Tok&Stok e Mobly, na Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo, e atribui à causa o valor de R$ 1,116 bilhão.
O documento tem caráter de um pedido de socorro imediato. O grupo solicita à Justiça uma série de medidas urgentes para destravar recursos e proteger contratos enquanto reorganiza suas dívidas.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
O ponto mais sensível envolve a SRM Bank Instituição de Pagamento, que, segundo o grupo, promoveu o bloqueio de R$ 77 milhões em recebíveis de cartão de crédito, ou seja, o dinheiro que entra a cada compra parcelada feita nas lojas e no e-commerce, e que funciona como o principal combustível do caixa diário das varejistas.
Leia mais: Grupo Toky, dono de Tok&Stok e Mobly, pede recuperação judicial após pressão de juros
Segundo a empresa, a trava foi feita por meio de registros de garantia em duas empresas que organizam o mercado de recebíveis no Brasil, a Nuclea (CIP) e a CERC.
A partir daí, as ordens de retenção foram enviadas às chamadas adquirentes, as companhias que processam pagamentos com cartão, como Cielo, GetNet, Mercado Pago, Adyen e Pagar.me.
O Grupo Toky afirma que nunca assinou contrato dando esses recebíveis em garantia à SRM e que o valor retido é desproporcional: o débito vencido seria de cerca de R$ 1,3 milhão, ante R$ 77 milhões bloqueados.
Procurada pela reportagem, a SRM Bank não respondeu aos pedidos de comentários até a publicação.
Pedido de liberação de recebíveis
Para Daniel Báril, advogado especialista em reestruturação empresarial, sem envolvimento com o caso, é nesse ponto que se decide o destino imediato da operação.
“A Lei 11.101, de 2005, foi concebida justamente para permitir que empresas em crise reorganizem suas finanças em um ambiente protegido, evitando a desestruturação provocada por execuções individuais e medidas isoladas”, afirma o sócio coordenador da área de Insolvência e Reestruturação do Silveiro Advogados, à Bloomberg Línea.
“No caso do Grupo Toky, o ponto mais sensível parece estar relacionado ao pedido de liberação dos recebíveis bloqueados pela SRM Bank, o que indica uma pressão imediata de caixa. A resposta do juízo a esse pedido tende a ser determinante para a preservação da liquidez e da continuidade operacional do grupo”, explicou.
O grupo também pede que a Justiça impeça o chamado vencimento antecipado de contratos, situação em que um credor, ao saber do pedido de recuperação, declara que toda a dívida ficou imediatamente exigível, inclusive as parcelas futuras. Esse efeito-dominó costuma derrubar empresas logo nos primeiros dias do processo.
Por isso, o documento lista dezenas de fornecedores cuja continuidade considera vital: a Vamos, locadora dos caminhões que abastecem as lojas; Google, Amazon e Oracle, que sustentam os sistemas e dados; a VTEX, plataforma do e-commerce da Tok&Stok; Totvs e Sênior, para gestão de estoque; adquirentes como Adyen; e concessionárias de água e energia em todo o país, da Sabesp à Enel.
Interromper esses serviços por causa de dívidas antigas, argumenta o grupo, esvaziaria justamente o que a recuperação judicial pretende preservar, que é a continuidade da empresa, dos empregos e do atendimento aos clientes.
De acordo com o advogado especializado, os próximos passos incluem o deferimento do pedido, a nomeação do administrador judicial, os credores são chamados a se apresentar, a companhia tem 60 dias para entregar um plano de pagamento e esse plano é votado em assembleia.
Leia mais: Grupo Toky retoma plano de expansão e mira Rio e Brasília para lojas da Mobly, diz CEO
“Após eventual homologação do plano, inicia-se o período de supervisão judicial do cumprimento das obrigações assumidas”, completa o advogado. Na prática, a fase de supervisão costuma durar dois anos.
Há ainda outro pedido relevante. Caso o juiz determine uma inspeção prévia para verificar as condições da empresa antes de aceitar o processo, o grupo pede que sejam antecipados desde já os efeitos do chamado stay period, uma blindagem de 180 dias durante a qual ações de cobrança e execuções ficam suspensas. Na prática, é a trégua que dá fôlego para o grupo negociar com os credores.
A própria estrutura societária do grupo ajuda a explicar parte do impasse. O Grupo Toky não tem acionista controlador definido: 40,197% das ações estão pulverizadas em bolsa e os outros nove acionistas detêm, cada um, menos de 20%.
Ações do Grupo Toky (TOKY3)
Disputa de poder
A leitura sobre o que levou o grupo até aqui não é unânime. Para Max Mustrangi, CEO da consultoria Excellance e especialista em reestruturação de empresas, parte do problema costuma estar em decisões internas.
Na visão dele, a gestão do grupo se ocupou mais de disputas societárias do que da reversão dos resultados financeiros e da geração de caixa para honrar acordos de pagamento, enquanto a dívida ultrapassava R$ 1 bilhão.
“Foi um grave erro de prioridades invertidas e disputa de poder”, resume o especialista à Bloomberg Línea.
Procurado pela reportagem, o Grupo Toky não respondeu imediatamente ao pedido de comentário sobre os pontos levantados.
Mustrangi avalia que o pedido de recuperação abre uma janela de riscos que vai além do balanço.
“Com a entrada de fato em recuperação judicial, a possibilidade de futura mudança de controle, o famoso ‘sob nova administração’, forte destruição de valor e dano relevante à marca é elevadíssima”, diz.
Ele acrescenta que há uma ameaça adicional vinda do próprio mercado: “O grupo também deveria se preocupar urgentemente com o risco de descontinuidade do negócio dentro do atual cenário econômico, em que seu público consumidor encontra-se altamente endividado e inadimplente”.
Leia também
No Grupo SBF, da Centauro, vendas de produtos da Seleção antes da Copa superam 2022









