Bloomberg Línea — Muito antes da final a ser disputada entre Argentina e Espanha no próximo domingo (19), a Copa do Mundo de 2026 já tinha se tornado a de maior público da história.
Ao fim da fase de grupos, o torneio atingiu 4.644.549 espectadores em 72 jogos, acima do recorde de 3.587.538 de 1994, que durava 32 anos.
O resultado mostra que estava errada a avaliação de críticos de que a competição deste ano atrairia um público restrito em razão de ingressos caros e do sistema de preços dinâmicos adotado pela Fifa, que permite reajustes em tempo real com base na oferta e na demanda.
A ocupação média nesta edição foi de 99,7%, de acordo com a organização. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse que esta já é a Copa “mais bem-sucedida” da história da entidade.
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O cartola da entidade organizadora do evento está ancorado nos números superlativos deste Mundial. O balanço de público cresceu para 6 milhões e 590 mil pagantes em 101 jogos e média de 65.204 por partida, segundo os números divulgados pela Fifa depois da primeira semifinal entre Espanha e França — marca que levou o público somado de todas as Copas a ultrapassar 50 milhões de torcedores.
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Com os jogos com “casa cheia”, a expectativa é de que o público total da Copa dos Estados Unidos, México e Canadá chegue a algo próximo de 6,8 milhões: praticamente o dobro dos 3,4 milhões do Catar, em 2022, e quase 90% acima de 1994, que teve 52 partidas - em 2026, são 104.
Os estádios encheram a preços inéditos num Mundial de futebol, e a resposta para tamanho sucesso, principalmente financeiro, está no sistema de preço dinâmico.
Como o preço dinâmico funciona
Na Copa, o valor cobrado na bilheteria oficial do torneio partiu de US$ 60 (mas que representa menos de 10% do total de entradas vendidas) e chegou a US$ 7.875 numa cadeira das primeiras filas do estádio da grande final - nos sites de revenda, o mesmo ingresso já passava dos 12 mil dólares.
Mas a Fifa não opera preço puramente algorítmico: usa preço variável, controlando quando cada lote é liberado e a que valor — o que lhe permite sustentar preços altos mesmo às vésperas do jogo.
À Bloomberg Línea, a entidade afirmou que a “abordagem de preços variáveis está alinhada às tendências do setor, em que o preço é adaptado para otimizar vendas e público, garantindo o valor justo de mercado”.
Em entrevista recente, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse que o preço médio de 500 dólares para os ingressos segue a tendência de preços dos playoffs das grandes ligas americanas.
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O reverso apareceu cedo. A partida entre Coreia do Sul e Chéquia, em Guadalajara, teve 44.985 pagantes num estádio de 45.664. A ocupação era de 98,5% no papel, mas havia blocos visivelmente vazios na transmissão (os patrocinadores também recebem uma quantia não-divulgada de ingressos).
No Catar, o torcedor local pagava até US$ 11 nos tíquetes mais em conta; em Los Angeles, o piso real passou de US$ 300. A Fifa rebate e disse à Bloomberg Línea estar “comprometida em garantir acesso justo” e ter oferecido 130 mil ingressos a US$ 60, distribuídos pelas federações a “torcedores fiéis”. São cerca de 1.250 ingressos por jogo, uma fração de um público rumo a 6,8 milhões.
No México, a presidente do país, Claudia Sheinbaum, transformou o preço em bandeira: montou o “Mundial Social”, com telões gratuitos que levaram 500 mil pessoas às ruas da Cidade do México na estreia, e doou seu ingresso da abertura a uma jovem jogadora amadora indígena e foi assistir à partida no meio do povo.
Um levantamento feito pelo canal americano ESPN a 15 dias do início da Copa apontou que a curva do preço dinâmico passou a apontar para baixo no marketplace da Fifa conforme o início do torneio se aproximava. Em Miami, de US$ 1.284 para US$ 960; em Los Angeles, de US$ 1.041 para US$ 447; em São Francisco, de US$ 478 para US$ 195.
As reduções refletiram o yield management da Fifa, uma vez que, passado o pontapé inicial, cada cadeira valeria zero.
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Mas a organização teve de se adequar à legislação diferente de cada país. Nos Estados Unidos e no Canadá, a revenda a preço de mercado é livre, e a própria Fifa fica com 15% de comissão nas duas pontas. No México, a lei proíbe revender acima do valor de face dos ingressos.
Questionada por que admite uma coisa de um lado da fronteira e a veta do outro, a Fifa não respondeu à assimetria. Disse apenas seguir “as práticas usuais” do setor.
Procurada pela Bloomberg Línea, a organização não confirmou nem atualizou a projeção de faturamento de US$ 3 bilhões com a venda de ingressos, não abriu a receita já arrecadada nem o total de ingressos vendidos, e não disse se a final está esgotada nem quais as faixas oficiais de valor de face.
Para onde vai o lucro
A defesa da Fifa se ancora no estatuto. “Ao contrário das empresas por trás dos mercados de revenda com fins lucrativos, a Fifa é uma organização sem fins lucrativos”, disse à Bloomberg Línea; a receita seria reinvestida “nas 211 associações afiliadas, todos os dias do ano”.
A frase mira os cambistas, mas convive com um detalhe: a entidade opera seu próprio marketplace de revenda e fica com 15% de cada transação — lucra com o mecanismo do qual se descola.
A entidade destinou US$ 2,25 bilhões às federações, cerca de US$ 8 milhões cada, por meio do programa Fifa Forward 3.0, e o ciclo 2027-2030, aprovado em Vancouver, prevê receita recorde de US$ 14 bilhões e um Forward 4.0 de US$ 2,7 bilhões — 20% acima.
Caixa recorde — na projeção
A receita, toda projetada no orçamento revisado do ciclo 2023-2026, é robusta. Bilheteria e hospitalidade devem alcançar cerca de US$ 3 bilhões, salto de 216% ante os US$ 950 milhões do Catar.
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Somados os direitos de TV (US$ 3,9 bilhões orçados; cerca de US$ 4,3 bilhões já contratados, segundo consultorias especializadas) e o patrocínio (mais de US$ 2,8 bilhões), o torneio deve render US$ 8,9 bilhões — o grosso da meta de US$ 13 bilhões do ciclo, 72% acima dos US$ 7,57 bilhões de 2019-2022.
A ponta premium desse motor já é concreta: a Fifa disse ter vendido 607.350 pacotes de hospitalidade vendidos até as oitavas, 40% deles a clientes corporativos, e mais de 16 mil convidados previstos só na final, no dia 19 de julho, em Nova York.
A área VIP dos estádios, com direito a open bar onde se consumiram mais de 10 milhões de litros de bebidas alcoólicas e não alcoólicas, foi ocupada majoritariamente por americanos, mexicanos e canadenses (o Brasil ficou em quarto lugar neste ranking).
Para além dos recordes, a Copa de 2026 será lembrada menos como um patrimônio cultural compartilhado e para ocupar os grandes cases de sucesso nas escolas de negócios.
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