Indicado por Trump para o Fed, Kevin Warsh diz que não será ‘fantoche’ do presidente

Em depoimento a comissão no Senado, o economista indicado para a presidência do Fed disse que terá atuação independente; Trump pressiona por cortes de juros

Kevin Warsh
Por Catarina Saraiva - Maria Eloisa Capurro - Jana Randow

Bloomberg — Kevin Warsh prometeu repetidamente agir de forma independente caso seja confirmado como próximo presidente do Federal Reserve, rejeitando preocupações de democratas de que ele seria um “fantoche” do presidente Donald Trump, que continua exigindo juros mais baixos.

Em depoimento à Comissão Bancária do Senado nesta terça-feira (21), Warsh pediu uma série de mudanças na forma como o banco central dos Estados Unidos toma decisões, incluindo um novo arcabouço para lidar com a inflação persistente e uma nova maneira de se comunicar com o público. Mas forneceu poucos detalhes e evitou responder perguntas sobre a trajetória dos juros no curto prazo.

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Ele também insistiu que o presidente nunca lhe pediu compromisso com qualquer decisão específica sobre taxas.

“O presidente me indicou para o cargo, e serei um agente independente se confirmado como presidente do Federal Reserve”, disse Warsh, em resposta a perguntas de democratas sobre como lidaria com a pressão de Trump.

O economista foi indicado ao cargo em janeiro deste ano e deve assumir em maio, se confirmado pelo Congresso.

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Em seus comentários iniciais, a principal democrata do comitê, a senadora Elizabeth Warren, afirmou que Warsh seria um “fantoche” de Trump no Fed.

A capacidade de Warsh de apaziguar a Casa Branca enquanto mantém credibilidade sobre inflação com investidores era vista como um teste-chave para ele antes da audiência. Na manhã de terça-feira, Trump disse que ficaria decepcionado se Warsh não cortasse os juros assim que assumisse o cargo.

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Em resposta a uma pergunta do senador John Kennedy, da Louisiana, sobre se ele seria um “fantoche” para o presidente, ele disse: “absolutamente não”.

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O presidente indicado do Fed também disse que o presidente Donald Trump não pediu a ele que se comprometesse a tomar certas decisões sobre as taxas de juros. O presidente nunca me pediu para me comprometer com qualquer decisão específica sobre a taxa de juros, ponto final”, disse Warsh. “E eu jamais concordaria em fazer isso se ele tivesse pedido.”

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No início do depoimento, Warsh culpou o Fed por permitir que a inflação disparasse após a pandemia de covid-19 e disse que a rápida alta de preços ainda é um problema para os americanos. Em resposta, afirmou que o banco central precisa de um novo arcabouço para lidar com pressões inflacionárias persistentes, sem oferecer mais detalhes.

“Embora seja verdade que a inflação é menos problemática — no sentido de que a variação dos preços é menos intensa do que há alguns anos — os americanos trabalhadores sem dúvida ainda a sentem”, disse Warsh. “Isso significa uma mudança de regime na condução da política. Significa um novo e diferente arcabouço para a inflação.”

Warsh não disse o que isso significaria para os juros. Pressionado pelo democrata Chris Van Hollen sobre se concordava com o apelo de Trump para reduzir os juros para cerca de 1% neste ano, ele se esquivou.

“Diferentemente de muitos colegas, passados e presentes, não acredito em forward guidance”, disse. “Não acredito que deva antecipar qual pode ser uma decisão futura.”

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Questionado por Warren se Trump perdeu a eleição presidencial de 2020, Warsh evitou responder diretamente, afirmando que o Congresso certificou Joe Biden como presidente após a votação.

Warsh também enfatizou que venderia quaisquer ativos não divulgados antes de assumir o cargo.

Warsh e sua esposa, Jane Lauder, declararam ativos de pelo menos US$ 192 milhões em documentos financeiros apresentados como parte da indicação. Mas seu patrimônio total provavelmente é muito maior, tornando-o um dos dirigentes mais ricos da história do Fed.

O caminho de Warsh para a confirmação permanece altamente incerto. O senador Thom Tillis, que tem um voto republicano-chave no comitê, prometeu não aprovar nenhuma nomeação para o Fed até que uma investigação do Departamento de Justiça sobre o banco central e o presidente Jerome Powell seja encerrada. A investigação envolve uma reforma de prédio e o depoimento de Powell ao Congresso sobre o projeto.

Tillis afirmou que a apuração tem motivação política, e sua promessa de travar a confirmação de Warsh levantou a possibilidade de que ele não seja empossado antes do término do mandato de Powell como presidente, em 15 de maio.

Segundo um funcionário da Casa Branca ouvido pela Bloomberg News, Trump não pretende recuar da investigação.

Em entrevista na terça-feira, Tillis disse a repórteres que recebeu positivamente uma proposta do presidente do comitê, o senador Tim Scott, para que o Congresso abra uma investigação sobre a reforma do Fed, permitindo que o Departamento de Justiça encerre sua apuração.

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