Ministro da Economia de Milei evita emitir dívida externa e aposta no mercado local

Luis Caputo aposta em ajuste fiscal, crédito local e organismos multilaterais para preservar reservas e reduzir custos da dívida argentina. Analistas veem riscos na estratégia, mas governo afirma que a austeridade reduziu a necessidade de financiamento

Analistas estimam que o mercado global de títulos está disposto a emprestar pelo menos US$ 5 bilhões à Argentina (Foto: Anita Pouchard Serra/Bloomberg)
Por Manuela Tobias - David Feliba
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Bloomberg — Há uma década, em sua primeira passagem por um dos principais cargos da equipe econômica da Argentina, Luis Caputo recorreu repetidamente ao mercado internacional de títulos, emitindo mais de US$ 40 bilhões no total e ganhando dos críticos o apelido de “tomador serial de dívida”.

Em quase três anos de seu segundo mandato, porém, Caputo, agora principal responsável pela área econômica do presidente Javier Milei, ainda não vendeu um único título no exterior.

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Parte dessa mudança é resultado dos profundos cortes de gastos que Caputo ajudou Milei a implementar, como sua equipe no Ministério da Economia faz questão de destacar. Sem os déficits crônicos do passado, as necessidades de financiamento da Argentina diminuíram.

Ainda assim, se a forte emissão de dívida de uma década atrás foi considerada imprudente e abriu caminho para o terceiro calote do país neste século, a abstinência atual também traz riscos.


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Analistas estimam que o mercado global de títulos está disposto a emprestar pelo menos US$ 5 bilhões à Argentina — recursos de que o país precisa com urgência para recompor as reservas em moeda forte e garantir importações essenciais quando surgir a próxima crise.

O impasse está na taxa de juros. Caputo afirma que o governo Milei promoveu reformas tão profundas — ao reduzir a burocracia da economia e controlar uma inflação de três dígitos — que a Argentina merece pagar muito menos do que os cerca de 9% exigidos atualmente pelo mercado. Por isso, prefere montar alternativas de financiamento com investidores locais e buscar apoio de organismos multilaterais.

A estratégia, para surpresa de muitos analistas em Buenos Aires e em Wall Street, tem funcionado até agora.

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O governo conseguiu honrar os pagamentos da dívida externa sem drenar dólares do país nem provocar uma forte desvalorização do peso. Mas, segundo eles, trata-se de uma aposta arriscada que pode dar errado se um revés econômico doméstico ou uma liquidação global no mercado de títulos fechar o acesso da Argentina ao financiamento justamente quando Milei começar a preparar uma disputada campanha pela reeleição no próximo ano.

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“A preocupação é a combinação de risco político e falta de liquidez para cumprir todos os pagamentos da dívida”, afirmou Ernesto Revilla, economista-chefe para a América Latina do Citigroup. “Ao mesmo tempo, eles demonstraram que o programa de estabilização está avançando bem, apesar das críticas recebidas ao longo do caminho, inclusive de nós, analistas de Wall Street.”

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Rendimentos dos títulos soberanos da Argentina despencam sob Milei

O gabinete de Caputo afirma que comparar as decisões de hoje com as do passado ignora um ponto essencial. No governo Milei, ele comanda toda a política econômica, enquanto, no governo do então presidente Mauricio Macri, era responsável apenas por obter financiamento para o governo.

Segundo sua equipe, Caputo sempre defendeu a austeridade fiscal como solução para os problemas econômicos da Argentina, mas só agora, como ministro da Economia de Milei, tem condições de colocar essa visão em prática.

“A situação atual é muito diferente da experiência anterior”, afirmou o ministério em nota enviada à Bloomberg News. “Agora ele é responsável por formular a política econômica e conta também com o presidente como principal aliado na implementação do programa.”

No governo Macri, a Argentina registrava déficits superiores a 6% do Produto Interno Bruto ano após ano, o que obrigava Caputo a recorrer repetidamente a Wall Street. Em uma operação com várias séries de títulos no início de 2016, levantou US$ 17 bilhões em um único dia, recorde para um país emergente na época.

O gabinete de Caputo afirmou que ele “alertou as autoridades em diversas ocasiões de que, para países como a Argentina, o financiamento é limitado e que não seria possível continuar financiando aquele déficit”.

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O apelido de “tomador serial de dívida”, ou endeudador serial em espanhol, refletia a indignação crescente com as políticas fracassadas de Macri.

Na época, o próprio Milei criticava duramente Caputo. Em um vídeo que viralizou, atacou sua tentativa malsucedida de sustentar o peso durante a breve passagem pela presidência do banco central. “Caputo queimou US$ 15 bilhões em reservas de forma irresponsável e ineficiente”, afirmou Milei.

 Finanças da Argentina estavam mais frágeis durante seu último período de acesso ao mercado

Embora conte agora com contas fiscais mais sólidas, Caputo dispõe de menos dólares: cerca de US$ 10 bilhões em reservas internacionais líquidas, segundo estimativas do setor privado, após meses de compras quase diárias pelo banco central.

A recomposição das reservas tornou-se uma das principais exigências do Fundo Monetário Internacional, que apoia a Argentina com um programa de US$ 20 bilhões. Com uma proteção menor em dólares, Caputo também tem retirado de forma gradual os controles cambiais que desestimulam os investimentos necessários para impulsionar o crescimento econômico.

“No governo Macri houve gradualismo fiscal e abertura imediata da conta de capital”, observou Revilla. “Agora temos terapia de choque na área fiscal e gradualismo na conta de capital. Os resultados mostram que esse programa, até o momento, tem sido muito mais bem-sucedido.”

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Determinado a evitar os rendimentos exigidos por Wall Street, Caputo recorreu às economias em dólares acumuladas pelos argentinos, que, desconfiados da inflação descontrolada e das sucessivas desvalorizações do peso, guardaram recursos em moeda americana ao longo dos anos. Fez isso por meio da venda de títulos denominados em dólar no mercado local e também obteve US$ 3,2 bilhões em empréstimos bancários garantidos pelo Banco Mundial e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. As duas alternativas acabaram sendo mais baratas do que uma emissão tradicional em Wall Street.

A safra recorde e o forte crescimento da produção na formação de xisto de Vaca Muerta também vêm gerando um fluxo constante de dólares de exportação, dando sustentação à estratégia de refinanciamento de Caputo.

A grande questão agora é saber se a espera valerá a pena — permitindo que Caputo volte aos mercados internacionais a uma taxa que considere aceitável — ou se a Argentina perderá essa janela de oportunidade e começará a enfrentar escassez de recursos.

O tempo pode não jogar a favor de Caputo. Milei começará em breve a preparar a campanha para a reeleição em 2027, quando a Argentina terá de pagar mais de US$ 25 bilhões em dívida em moeda estrangeira.

Historicamente, eleições costumam assustar investidores no país. Ainda no ano passado, Caputo foi obrigado a obter uma linha de apoio de US$ 20 bilhões do Tesouro dos EUA para interromper uma corrida contra o peso antes das eleições legislativas de meio de mandato, quando muitos investidores temiam que Milei perdesse capacidade de aprovar suas reformas pró-mercado.

 Pagamentos programados do Tesouro em dólares americanos

As dúvidas sobre a capacidade de as reformas sobreviverem ao processo eleitoral — ou mesmo sobre a possibilidade de Washington voltar a socorrer a Argentina — começam a pesar sobre as perspectivas para o próximo ano, aumentando a pressão para garantir o máximo possível de financiamento.

“Daqui a cinco anos, podemos olhar para trás e concluir que foi uma decisão muito inteligente não seguir o caminho aparentemente mais fácil” de recorrer ao mercado agora, afirmou Andrew Stanners, gestor sênior de dívida de mercados emergentes da Pictet Asset Management. Mas, acrescentou, “a razão pela qual os investidores internacionais em títulos insistem tanto é que enxergam este como provavelmente o melhor momento disponível, além de representar mais uma fonte de liquidez de que a Argentina poderá precisar”.

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