Embaixador brasileiro voltará à Argentina após crise diplomática por discurso de Milei

Diplomata com experiência na região, Julio Bitelli foi chamado para consultas em Brasília após as críticas do presidente argentino a Lula na convenção do Partido Liberal em São Paulo. Ainda não há data definida para seu retorno

Julio Glinternick Bitelli en el 2016, cuando era el embajador de Brasil en Colombia. Foto: Pedro França/Agência Senado

Leia esta notícia em

Espanhol
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — Julio Glinternick Bitelli, embaixador do Brasil na Argentina desde 2023, retornará a Buenos Aires em data ainda a ser definida após ter sido chamado para consultas em Brasília pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, em decorrência das declarações do presidente argentino, Javier Milei, durante a convenção do Partido Liberal (PL) em São Paulo.

O retorno do diplomata foi confirmado pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil ao jornal La Nación, embora sem especificar uma data para seu retorno.

PUBLICIDADE

O incidente, ocorrido em 25 de julho de 2026, resultou na crise diplomática mais grave entre os dois países desde o retorno da democracia nas duas nações sul-americanas na década de 1980.

Durante o evento em que foi lançada a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, Milei chamou Lula de “presidiário”, classificou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca” e criticou o sistema judiciário brasileiro por não permitir que ele visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

PUBLICIDADE

Na madrugada de 26 de julho, o Itamaraty convocou Bitelli para consultas. No mesmo dia, o embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, foi convocado para que lhe fosse comunicada a decisão do governo brasileiro.

Não é a primeira vez que Bitelli é convocado para consultas por Brasília. Em julho de 2024, ele já havia sido convocado pelo Itamaraty para consultas internas e para atualizar informações sobre as relações bilaterais com o governo de Milei. Sem o confronto público desta ocasião, aquele episódio não gerou polêmica em 2026.

Bitelli chegou a Brasília no dia 27 de julho e se reuniu por cerca de 40 minutos com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para uma primeira avaliação da crise. Naquele mesmo dia, ele acompanhou o presidente Lula em atividades oficiais, conforme a agenda do ministro das Relações Exteriores.

PUBLICIDADE

Foco regional

Bitelli assumiu o cargo de embaixador em Buenos Aires em 2023, após a aprovação de sua nomeação pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado brasileiro. Até o momento de sua transferência para Buenos Aires, ele estava na embaixada em Rabat, em Marrocos.

Leia também: Governo Lula convoca embaixador na Argentina após ataques de Milei

Os documentos do Senado destacaram, na época, sua experiência anterior na região, incluindo uma passagem por Bogotá, e o associaram ao relançamento da agenda estratégica bilateral, após a visita do então recém-eleito Lula a Buenos Aires, em janeiro de 2023, e antes da vitória de Milei em dezembro daquele ano.

PUBLICIDADE

Desde sua chegada à Argentina, Bitelli assinou acordos e notas bilaterais e recebeu delegações oficiais brasileiras, entre elas uma missão sobre as hidrovias dos rios Paraguai e Lagoa Mirim, em agosto de 2024, e o secretário-executivo do Ministério da Cultura, em setembro de 2025.

Em julho de 2025, ele integrou a delegação oficial de Lula durante a visita a Buenos Aires para a 66ª Cúpula dos Presidentes dos Estados-Partes do Mercosul, conforme aprovado pelo Decreto de 31 de outubro de 2025.

Estudantes brasileiros

Em fevereiro de 2024, Bitelli teve que se pronunciar publicamente para esclarecer que o governo de Milei não discriminava os brasileiros, após relatos de recusas de entrada a estudantes que utilizavam o status de turista para cursar universidades públicas argentinas gratuitamente.

“Nossa preocupação era saber se havia algo arbitrário, se havia algo discriminatório contra os brasileiros e se havia algo que fosse contra as regras do Mercosul, e, na verdade, nada disso existe”, declarou ele na época à Folha de S. Paulo.

O embaixador esclareceu que se tratava de uma aplicação mais rigorosa das regras já existentes, como a exigência de uma passagem de volta, sem alterações na política migratória. Dados da Direção Nacional de Migração da Argentina mostraram que apenas 23 brasileiros foram recusados entre janeiro e fevereiro de 2024, o que equivale a 0,002% do total de entradas.

O porta-voz presidencial Adrián Ravier afirmou que 40% dos estudantes das faculdades de medicina na Argentina são estrangeiros.