Milei prometeu se afastar da China, mas acabou impulsionando vendas da BYD na Argentina

Reformas econômicas favoreceram montadoras chinesas e carros elétricos, apesar de apoio do governo americano em eleição ter cobrado que Buenos Aires reduzisse comércio com Pequim

A China ultrapassou o Brasil, vizinho da Argentina, e passou a ser a principal origem das importações do país no governo Milei neste ano (Foto: Toru Hanai/Bloomberg)
Por Jonathan Gilbert
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Bloomberg — O avanço das vendas de veículos elétricos chineses na Argentina se encaixa perfeitamente na estratégia do presidente Javier Milei de reduzir a inflação, embora contrarie o esforço de autoridades dos EUA para afastar Buenos Aires de Pequim.

A BYD entrou para o grupo das top 10 montadoras deste ano na segunda maior economia da América do Sul, depois de chegar ao país em setembro do ano passado. Concessionárias da BYD, com forte iluminação e visual chamativo, surgem em todo o território argentino como parte de uma onda de novas lojas que exibem marcas como BAIC, MG e Chery.

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Esse cenário seria difícil de imaginar no ano passado, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, ofereceu a Milei um apoio de US$ 20 bilhões para ajudar seu partido a vencer as eleições legislativas de meio de mandato. Na época, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou em entrevista à TV que Milei estava “comprometido em tirar a China da Argentina”, embora não tenha citado especificamente o setor automotivo.


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Na prática, porém, os carros chineses estão entrando com força graças às medidas de Milei para abrir a economia argentina, historicamente protecionista, e sua presença evidencia o fortalecimento das relações comerciais entre os dois países. Na quarta-feira (29), o chanceler argentino acrescentou que o líder libertário pretende viajar a Pequim em algum momento.

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O governo criou uma cota anual de importação, livre de tarifas, para 50 mil veículos elétricos — o equivalente a cerca de 10% do mercado de carros novos. O detalhe é que, como parte da nova política, Milei estabeleceu um teto baixo para o preço dos veículos aptos a se enquadrar na cota, o que, na prática, favorece as montadoras chinesas.

“Quando se trata do comércio com a China, os EUA não traçaram uma linha vermelha”, afirmou Patricio Giusto, professor universitário e diretor do Observatório Sino-Argentino. “Assim, conforme Milei avançou com sua visão de abertura da economia, um dos grupos que estavam em posição de aproveitar essa oportunidade eram os fabricantes chineses de veículos elétricos.”

Neste ano, a BYD sozinha já vendeu mais de 8,2 mil veículos na Argentina, superando Jeep, Honda e Nissan, embora ainda esteja bem atrás de marcas consolidadas como Toyota e Volkswagen, segundo a associação de concessionárias do país, a ACARA. Somadas as demais marcas chinesas, esse volume de vendas mais que dobra.

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A Tesla, comandada por Elon Musk, aliado de Milei, ainda não possui concessionária própria na Argentina, embora tenha contratado um gerente para o país a fim de iniciar suas operações.

A China ultrapassou o Brasil, vizinho da Argentina, e passou a ser a principal origem das importações do país no governo Milei neste ano. Em 2025, as importações provenientes da China atingiram o maior nível em pelo menos cinco anos, segundo dados do governo argentino.

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A BYD já é uma protagonista em diversos mercados da América Latina, produzindo veículos no Brasil e marcando presença nas ruas de cidades que vão da Cidade do México a São Paulo. A Argentina agora acompanha essa tendência regional à medida que Milei abre a economia para uma concorrência maior de empresas estrangeiras.

A estratégia também tem dado resultado. O custo relativo para comprar um carro caiu 26% desde que Milei assumiu a Presidência, e os preços dos veículos chegaram a recuar na região de Buenos Aires em junho — um feito raro para um país que, até pouco tempo atrás, enfrentava inflação próxima de 200% ao ano.

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Embora adversários políticos atribuam a Milei o enfraquecimento da indústria automobilística argentina — voltada principalmente à produção de caminhões —, o governo afirma que a chegada de sedãs e SUVs chineses representa mais a solução do que o problema.

Iker Rosales, vendedor de uma concessionária da BYD no bairro nobre de Puerto Madero, em Buenos Aires, disse que entre 10 e 15 potenciais clientes visitam a loja todos os dias.

Segundo ele, a maioria chega desconfiada e passa as mãos sobre a carroceria para avaliar a qualidade de construção dos veículos. “Depois fazem o test drive e dá para ver os olhos brilhando”, afirmou.

O próprio Rosales foi demitido pela montadora francesa Peugeot antes de começar a trabalhar na BYD, em janeiro.

“Acho que esses modelos chineses vieram para ficar”, afirmou. “Eles vão destronar as marcas tradicionais.”

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