Do Brasil ao México: como o FMI vê os impactos da guerra no Irã para a América Latina

Fundo divide a região entre beneficiados pela alta do petróleo e economias mais frágeis, expostas à inflação e ao corte de financiamento externo; a duração do conflito será determinante para o tamanho do impacto

Traffic in Bogota, Colombia, on Friday, Dec. 20, 2024. Colombia’s central bank unexpectedly slowed its monetary easing campaign as fiscal concerns are weakening the nation’s currency and adding to inflation risks.

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Bloomberg Línea — A guerra no Oriente Médio está aprofundando as diferenças entre os principais países da América Latina e do Caribe.

Enquanto as nações produtoras de petróleo se beneficiem dos preços elevados da energia — ainda que enfrentem desafios —, outras economias registram retração na atividade e se mostram mais vulneráveis ao conflito.

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O Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta que países produtores como Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Trinidad e Tobago e Venezuela estão se beneficiando dos preços mais altos da energia.

“O choque nas commodities está fortalecendo seus balanços de pagamentos, apoiando o crescimento e ajudando as finanças públicas”, afirma o FMI no relatório The Middle East War Will Have an Uneven Impact on the Western Hemisphere.


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O documento explica que, embora alguns desses países também enfrentem condições financeiras mais restritivas, no conjunto muitos deles devem registrar ganhos econômicos líquidos.

Ainda assim, o FMI alerta que “mesmo nesses países produtores de petróleo, não se deve perder de vista que os mais vulneráveis serão os mais afetados pelo aumento dos preços de energia e alimentos”.

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Para além dos possíveis ganhadores, “para outros já se desenvolve uma história muito diferente”, diz o FMI no relatório. “O conflito tem impactos econômicos claramente negativos tanto para a atividade econômica quanto para a população.”

As economias do Caribe dependentes do turismo devem ser as mais prejudicadas. Sua dívida é elevada e suas importações líquidas de energia são significativas, representando em média cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB).

A América Central também é vulnerável aos altos preços de energia e, em vários casos, enfrenta limitações fiscais que restringem a capacidade de resposta. O FMI pondera, no entanto, que os avanços em energias renováveis em alguns países oferecem algum alívio.

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Países com déficits em conta corrente e alta dependência de financiamento externo — incluindo alguns exportadores de energia — também enfrentam dificuldades, com custos de financiamento mais elevados e menor acesso aos mercados em um ambiente de menor apetite global por risco. “A guerra reduz o apetite dos investidores por risco”, ressalta o FMI no relatório.

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Segundo o FMI, os efeitos desse cenário variarão entre os países da região e dependerão em grande medida da duração do conflito e das perturbações associadas.

No sábado (18), o Irã transmitiu mensagem a navios na região do Estreito de Ormuz de que a passagem marítima estava novamente fechada, um dia após o país anunciar a reabertura total do estreito — mantendo o cenário incerto.

Choque inflacionário

Enquanto o impacto sobre a atividade econômica deve variar amplamente entre os países, o efeito sobre a inflação será mais uniforme, avalia o FMI.

“A inflação será mais alta para todos. A região enfrentará custos muito mais elevados de combustível, transporte, alimentos e outros insumos”, diz o FMI no documento.

Entre os países analisados na região, a inflação projetada para 2026 é mais alta na Venezuela (220%), na Bolívia (26,1%) e na Argentina (25%).

No Brasil, a estimativa é de 4,3%; no Chile, 3,6%; no Paraguai, 3,5%; no Equador, 3%; e no Peru, 2,5%. Na Colômbia, a projeção é de 6,3%, e no Uruguai, de 4,5%.

Na América Central, a inflação chegaria a 4,8% em Honduras, 3,9% na Guatemala, 2,5% em El Salvador e 1% na Costa Rica. No Caribe, a República Dominicana registraria 4,5%. Para a América Latina e o Caribe como um todo, o FMI projeta inflação de 6,6% em 2026 e 4,2% em 2027.

O fundo alerta que o aumento da inflação vai gerar dificuldades especialmente para as famílias de menor renda, que são as que menos condições têm de absorver a alta no custo dos bens essenciais.

Nesse sentido, o FMI avalia que o conflito representa um desafio renovado e altamente imprevisível em um momento em que a região ainda trabalhava para se recuperar dos efeitos da covid-19.

Países mais bem preparados

O FMI indica que países com marcos macroeconômicos e institucionais sólidos estarão em melhor posição para absorver o choque — especialmente aqueles com inflação ancorada, disciplina fiscal e dívida baixa.

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O espaço fiscal disponível deve ser usado com cautela, enquanto os países mais limitados podem ser obrigados a apertar suas políticas fiscal e monetária.

Os exportadores de energia com fundamentos frágeis deveriam poupar os ganhos extraordinários, sugere o relatório. Aos bancos centrais, que já contiveram a inflação pós-pandemia, cabe agora garantir novamente a estabilidade de preços.

No campo fiscal, o FMI considera essencial preservar os avanços na eliminação de subsídios generalizados e resistir a pressões políticas para controlar preços administrativamente. Os gastos devem ser direcionados a famílias vulneráveis, agricultores e pequenas empresas.

Diante do elevado nível de endividamento, “a região tem pouca margem para continuar ampliando os déficits fiscais”, afirma o fundo.

A prioridade, segundo o relatório, deve ser reduzir gastos menos essenciais ou aumentar a arrecadação junto a empresas e famílias com maior capacidade de pagamento.

Consequências além da guerra

A consultora Oxford Economics prevê que o conflito no Oriente Médio reduzirá o crescimento global, elevará a inflação e manterá perturbações no setor energético, com efeitos que devem se prolongar mesmo após o cessar-fogo.

A projeção de crescimento do PIB mundial da consultora foi reduzida em 0,4 ponto percentual desde o início de março, para 2,4% em 2026.

“O frágil cessar-fogo aparentemente reduz o risco de um cenário pior, mas mesmo que a trégua se mantenha, levará tempo para que a produção de energia e o tráfico marítimo retornem aos níveis normais”, afirmou Ben May, diretor de Pesquisa Macroeconômica Global da Oxford Economics.

Em nível global, o FMI cortou sua projeção de crescimento para 3,1% neste ano, ante os 3,3% previstos em janeiro, em razão do impacto da guerra no Oriente Médio e da crise do petróleo.

“As perspectivas globais se obscureceram abruptamente após o início da guerra no Oriente Médio”, diz o fundo. “Antes da guerra, estávamos preparados para melhorar nossa previsão de crescimento global”, acrescentou a instituição.

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