Bloomberg — O bitcoin passou anos tentando se livrar da reputação de ser um ativo de investidores de varejo especulativos. Sua mais recente onda vendedora está expondo o lado negativo: Wall Street trouxe escala e legitimidade, mas os compradores de varejo que antes ajudavam a absorver quedas acentuadas praticamente desapareceram.
A criptomoeda caiu na quarta-feira (24) para o menor nível em mais de duas semanas, aproximando-se da mínima de 20 meses, de pouco menos de US$ 60.000, atingida no início de junho. Isso representa uma queda de cerca de 50% em relação à máxima histórica alcançada em outubro.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Essa queda difere das anteriores ondas de vendas de criptomoedas porque o fluxo de novos investidores de varejo praticamente se esgotou, justamente quando a demanda institucional começa a perder força, de acordo com o Deutsche Bank.
Em vez de se voltarem para o dinheiro em espécie, muitos investidores têm redirecionado seus recursos para investimentos relacionados à inteligência artificial, desviando capital dos ativos digitais.
Leia também: Crise além do bitcoin: fundador da Cardano prevê onda de falências no setor cripto
“O comprador marginal não é mais um investidor de varejo, mas sim um gestor de alocação de ETFs ou uma tesouraria corporativa — e, cada vez mais, esse mesmo investidor está comparando o bitcoin com a IA”, afirmou Marion Laboure, analista de pesquisa do banco.
“Quando esses participantes se retiram ou redirecionam seus recursos para outros setores, a queda é mais rápida e mais mecânica do que nos ciclos anteriores impulsionados pelo varejo.”

Essa rotatividade ocorre no momento em que o Federal Reserve adota uma postura mais restritiva, com alguns economistas prevendo agora dois aumentos adicionais nas taxas de juros ainda este ano. A mudança ameaça reverter o impulso de liquidez que tem sustentado os ativos de risco nos últimos anos.
Os investidores retiraram mais de US$ 6 bilhões de fundos negociados em bolsa (ETFs) que acompanham o bitcoin, observou Laboure, a maior sequência de perdas desde 2024.
A demanda por ETFs tornou-se um fator-chave para a evolução do preço do bitcoin, acrescentou ela, o que significa que as saídas agora amplificam as quedas da mesma forma que as entradas anteriormente impulsionavam as altas.
Essa mudança também está alterando a forma como o mercado reage às más notícias. A venda de 32 bitcoins pela Strategy, divulgada no início deste mês — sua primeira alienação desde 2022 —, reacendeu as preocupações de que detentores corporativos altamente alavancados pudessem eventualmente se tornar vendedores, em vez de compradores. Embora a transação tenha sido insignificante em relação às participações da empresa, ela teve um peso simbólico.
Leia também: Paradoxo cripto: por que a queda de US$ 235 bi do bitcoin é sinal de setor mais maduro
E mesmo que a empresa tenha retomado as compras desde então, o Deutsche Bank afirmou que o episódio ressaltou a crescente sensibilidade do mercado às ações institucionais.
“Atualmente, o bitcoin é negociado abaixo do custo médio da Strategy, de US$ 75.699, e o mercado começou a precificar a possibilidade de vendas forçadas por parte de detentores corporativos alavancados”, disse ela. “Esperamos que essa questão persista.”
O banco também argumenta que o capital que sai do mercado de criptomoedas está, cada vez mais, encontrando um novo destino, em vez de ficar à margem. Espera-se que os maiores hyperscalers dos EUA gastem mais de US$ 700 bilhões em infraestrutura de IA este ano.
Se essa rotação se mostrar estrutural, e não temporária, o impacto negativo sobre a demanda por criptomoedas poderá durar mais do que as recessões anteriores.
“As criptomoedas e as ações de crescimento compartilham o mesmo comprador marginal — investidores que buscam ganhos em ativos de alta volatilidade —; portanto, quando a confiança cai, o risco é reduzido em toda a carteira simultaneamente”, afirmou ela.
Leia também: Kalshi e Polymarket enfrentam novo rival de mercados de previsão em exchange cripto
O resultado é um mercado de bitcoin impulsionado menos pelo entusiasmo dos investidores de varejo do que pelas alocações de portfólio.
Wall Street ajudou a tornar as criptomoedas populares, mas, com a participação dos investidores de varejo estagnada, os preços são cada vez mais moldados pelos fluxos de fundos institucionais, pelas expectativas macroeconômicas e pela concorrência da IA pelo capital dos investidores, deixando o mercado potencialmente mais exposto quando esses investidores decidem sair do mercado.
Como catalisador de alta, Steve Kurz, codiretor global de ativos digitais da Galaxy, aguarda desenvolvimentos positivos vindos da Casa Branca.
Os observadores do mercado têm voltado suas atenções para a chamada Lei da Clareza (Clarity Act), que estabeleceria a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC) como o principal órgão regulador de grande parte do setor de criptomoedas, enquanto a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) manteria autoridade sobre os títulos digitais.
“A situação em Washington, D.C., está muito tática no momento e, embora todos gostem de atribuir probabilidades a legislações como a Lei da Clareza, a realidade é que há a intenção de aprová-la e existe um calendário legislativo”, disse Kurz. “Essas duas realidades estão em conflito, e é provável que o ambiente continue altamente tático enquanto isso.”
-- Com a colaboração de Muyao Shen.
Veja mais em bloomberg.com
Leia também
ETFs de bitcoin dos EUA perdem US$ 2,8 bilhões na mais longa sequência de retiradas
©2026 Bloomberg L.P.








