Bloomberg — A Hyperliquid, exchange descentralizada de criptomoedas que emergiu como um dos ambientes de negociação mais movimentados em ativos digitais, propõe adicionar mercados de previsão à sua plataforma — um desafio direto a Kalshi e Polymarket, diante de um setor em rápida expansão e que atrai novos concorrentes.
A proposta, conhecida como HIP-4 e atualmente em testes públicos, permitiria que traders apostassem em resultados do mundo real em uma plataforma que vem chamando a atenção de Wall Street pela velocidade e ambição na expansão de seus produtos.
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A Hyperliquid é tradicionalmente focada em futuros perpétuos — contratos sem vencimento que envolvem altos níveis de alavancagem e, portanto, risco elevado. Para mercados de previsão, o desenho dos contratos seria mais simples.
Um mercado sobre se a inflação dos EUA em julho poderia superar 3,5%, por exemplo, geraria dois tokens — um para cada resultado.
Os traders compram ou vendem qualquer um dos lados, e o token vencedor é liquidado a um valor fixo quando o resultado é conhecido.
Diferentemente dos produtos perpétuos da Hyperliquid, os contratos propostos não incluiriam alavancagem, reduzindo o risco de liquidações forçadas que ocorrem frequentemente nos mercados de criptomoedas.
O que torna a Hyperliquid uma ameaça crível, pelo menos em teoria, não é a estrutura do contrato, mas sim a plataforma.
O que começou como um nicho para derivativos de criptomoedas evoluiu rapidamente para um dos mercados mais ambiciosos do DeFi — adicionando contratos vinculados a petróleo, ouro, prata e ações dos EUA, atraindo bilhões em volume de negociação e criando e lançando novos produtos a uma velocidade que as plataformas tradicionais não conseguem acompanhar. Em março, a Hyperliquid movimentou um volume total de US$ 219 bilhões, segundo o site de dados Hydromancer.
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“Traders sofisticados poderão tirar proveito de margem de portfólio e encontrar formas de gerar alpha a partir desses dois tipos distintos de mercado”, disse Sunny Shi, investidor do fundo cripto Syncracy Capital.
“De uma maneira que você não vê em plataformas como Polymarket ou Kalshi, onde hoje a maior parte é basicamente aposta. É como uma aposta de um lado só.”
Alguns detalhes importantes ainda permanecem em aberto, incluindo como a Hyperliquid decidiria quais eventos se qualificam para contratos, qual processo de governança aprovaria novos mercados ou quando o HIP-4 avançaria dos testes para um lançamento completo.
Um representante da Hyperliquid se recusou a comentar.
A crescente popularidade da plataforma ficou evidente durante a crise no Irã, quando contratos atrelados ao petróleo registraram mais de US$ 1 bilhão em volume em um único dia, oferecendo uma das primeiras leituras de como traders estavam precificando o risco geopolítico enquanto os mercados tradicionais de commodities estavam fechados.
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Um contrato vinculado a ações que acompanha o Nasdaq 100 já atraiu mais de US$ 60 milhões em posições em aberto. A plataforma conta com apoio de empresas como Paradigm e Pantera Capital, e um fundo listado na Nasdaq, com US$ 888 milhões, agora detém seu token nativo.
Polymarket e Kalshi já oferecem contratos de resultado binário, e os mercados de previsão estão cada vez mais acessíveis por meio de corretoras tradicionais, incluindo Robinhood, Interactive Brokers e Coinbase.
O que a Hyperliquid propõe é distinto em pelo menos dois aspectos.
Primeiro, os mercados de previsão seriam nativos de uma plataforma na qual traders já atuam em cripto, commodities e contratos vinculados a ações — garantindo distribuição imediata, em vez de precisar construir uma base de usuários do zero.
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Segundo, os contratos estariam integrados ao mesmo sistema de negociação desses outros produtos, o que significa que um único usuário poderia gerenciar apostas em eventos, posições em bitcoin e exposição ao petróleo dentro de uma única conta.
A concorrência avança em ambas as direções. Enquanto a Hyperliquid entra nos mercados de previsão, Polymarket e Kalshi vêm explorando futuros perpétuos e outros derivativos — produtos que os aproximariam do tipo de negociação multiativos que a Hyperliquid já oferece.
Um porta-voz da Polymarket não respondeu aos pedidos de comentário. Um representante da Kalshi não comentou sobre o cenário competitivo.
A sobreposição entre as bases de usuários já é visível. Análise da Fleck mostra que cerca de 3,3% dos usuários da Polymarket também são ativos na Hyperliquid, mas esses traders em comum respondem por aproximadamente 12% do volume total da Polymarket — sugerindo que os especuladores mais ativos já transitam entre os dois ambientes.
O momento da entrada da Hyperliquid chama atenção. A indústria de mercados de previsão passou os últimos dois anos tentando avançar em direção à legitimidade regulatória — com a Kalshi obtendo aprovação da CFTC, a Polymarket retornando aos EUA, Washington demonstrando maior abertura ao setor e o capital de risco fluindo para plataformas que operam dentro do arcabouço regulatório.
A Hyperliquid segue na direção oposta: uma exchange descentralizada offshore, que restringe o acesso de usuários dos EUA à sua plataforma, propondo oferecer contratos baseados em eventos em um momento em que grande parte do setor aposta que o futuro está em mercados regulados.
Para seus apoiadores, essa liberdade é justamente o diferencial — desenvolvimento de produtos mais rápido e acesso para usuários em mercados que plataformas dos EUA não atendem.
Participantes do setor esperam que a adoção inicial seja gradual, com a atividade concentrada fora dos EUA, em mercados que não tiveram acesso a plataformas tradicionais de previsão, como apostas em críquete em países como a Índia.
“Historicamente, os mercados de previsão estiveram muito centrados em esportes, eventos geopolíticos e eleições, com a maior parte da atividade vindo do esporte”, disse Rajiv Patel-O’Connor, sócio da Framework Ventures.
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