Bloomberg — Emoldurado pelas montanhas verdejantes do Rio de Janeiro e pelas lendárias areias da praia de Copacabana, Flávio Bolsonaro (PL) lançou sua campanha à presidência declarando que o Brasil havia “perdido sua soberania” para o crime organizado.
Foi um local adequado para transmitir a mensagem central da campanha, que busca tirar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do poder.
O Rio de Janeiro é um lugar de beleza impressionante e de disfunções igualmente monumentais. Consumida por crime, corrupção e promessas não cumpridas, a cidade é ao mesmo tempo a base de Bolsonaro e uma fonte de controvérsia para ele, bem como o cenário da Lava Jato, o escândalo marcante da década de 2010 que continua moldando a opinião dos eleitores sobre Lula.
À medida que se aproxima o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, a campanha federal foca em preocupações com o crime organizado e no caso Master de fraude bancária de US$ 10 bilhões que reacendeu a sensação de que o Brasil é governado por elites corruptas.
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É uma realidade familiar demais para o Rio, cuja confluência de corrupção e violência — e as soluções prescritas para seus males — tornou-se simbólica da disputa mais ampla pelo governo do país de maior peso na América Latina, para ambos os principais candidatos.
“O principal problema do Rio é político”, afirmou Mauro Osório, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro que estuda a história da cidade e do estado homônimo. “O resto é desdobramento disso.”
O clã Bolsonaro e a devoção que ele inspira estão no cerne dessa história política.
Flávio Bolsonaro, de 45 anos, venceu eleição após eleição no Rio graças ao peso de seu sobrenome e agora tenta transformar o estilo político forjado no estado em um caminho para o cargo mais alto do Brasil. É um roteiro conhecido.
Há uma década, o pai, Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército e político de longa carreira no Rio, ganhou projeção nacional e acabou chegando à Presidência com ataques a um establishment político que classificava como podre.
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Nesse percurso, deixou a marca na política do Rio, ao construir alianças com figuras influentes do estado e conquistar milhões de eleitores.
Mesmo com o Bolsonaro mais velho em prisão domiciliar por tentativa de golpe após perder a eleição de 2022 para Lula, o apoio à principal família política da cidade persiste.
“Eles são a solução para o país”, afirmou Jorge Santos, de 73 anos, engenheiro mecânico aposentado, em meio à multidão reunida em Copacabana, em meados de agosto, quando Flávio Bolsonaro deu início à sua campanha eleitoral. “Se ele não vencer, vamos direto para o fundo do poço.”
A disputa evidencia a política suja que se tornou lendária no Rio antes de se espalhar para o cenário nacional.
Com as pesquisas indicando um empate técnico na corrida eleitoral, Flávio recorre à fórmula já testada em batalha que seu pai lançou no Rio e levou para todo o país: atacar os adversários nas questões de criminalidade e corrupção.
A mensagem ficou mais complicada devido a seus laços com o ex-proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro, o banqueiro preso que está no centro de uma enorme investigação sobre fraude financeira. Em maio, Flávio reconheceu que havia buscado financiamento junto a Vorcaro para Dark Horse, filme sobre seu pai.
Sua campanha foi forjada no Rio. Antiga capital do país, a cidade atrai multidões de visitantes em busca de selfies com o litoral de areias douradas e o samba contagiante. Mas, longe dos redutos à beira-mar, a vida não é um vídeo de Instagram.
Facções controlam muitos dos bairros populares do Rio, entre eles as favelas que sobem pelos morros e cercam a cidade. Os serviços públicos são precários. E políticos eleitos com promessas de restaurar a lei e a ordem muitas vezes atuam em conluio com criminosos.
O procurador-geral do Rio de Janeiro não mediu palavras depois que as autoridades desmantelaram mais um esquema de corrupção em julho, desta vez acusado de desviar mais de US$ 15 milhões dos cofres públicos.
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Existe um “ambiente institucional propício à corrupção”, afirmou o procurador-geral do Estado do Rio de Janeiro, Antônio José Campos Moreira. “Inúmeras estruturas do Estado, órgãos que deveriam prestar serviços ao cidadão, foram cooptados por criminosos”.
Os brasileiros têm uma explicação mais simples: um mar de lama que arrasta pessoas, partidos e campanhas políticas. Ninguém sabe disso melhor que os cariocas.
Todos os governadores do Rio eleitos neste século acabaram atrás das grades, sofreram impeachment ou foram impedidos de concorrer a cargos públicos.
O ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio está preso desde março, sob suspeita de obstruir uma investigação sobre as ligações da Assembleia com traficantes de drogas.
Essa cultura de corrupção ajudou a impulsionar Jair Bolsonaro das fileiras menos influentes do Congresso ao Palácio do Planalto na esteira da Operação Lava Jato, o maior escândalo de corrupção da história do Brasil até hoje.
A investigação, iniciada em 2014, revelou um esquema sistêmico de pagamento de propinas centrado na Petrobras, cuja sede de arquitetura brutalista fica no centro do Rio.
A operação levou à prisão alguns dos nomes mais poderosos do empresariado e da política brasileira, entre eles Lula, que passou mais de um ano preso por condenações por corrupção posteriormente anuladas.
Ainda hoje, Lula, aos 80 anos, continua manchado pelo escândalo de uma década atrás que assolou a segunda maior cidade do Brasil.
As consequências minaram a confiança dos brasileiros em suas instituições, preparando o terreno para a profunda polarização do país e sensibilizando o público para a mensagem de Bolsonaro, que se apresentava como um outsider.
O bolsonarismo “surge primeiro em um momento de degradação política no qual Lula e o petismo tinham mergulhado na lama da corrupção”, afirmou Otoni de Paula, deputado federal pelo Rio e pastor que já foi aliado do ex-presidente.
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Em 2018, Jair Bolsonaro chegou à Presidência prometendo tornar o Brasil mais seguro sem dar trégua a quem infringisse a lei. Era uma mensagem que há muito tempo encontrava respaldo entre os eleitores do Rio, cansados da criminalidade, que já haviam eleito membros de sua família para cargos de poder em todo o estado.
“Quando eles se apresentaram nacionalmente, aí eles atrairam um voto de convicção”, afirmou Celso Rocha de Barros, colunista da Folha de S.Paulo no Rio. “Mas aqui no Rio foi diferente. Eles já tinham uma máquina política.”
Natural do estado de São Paulo, Jair Bolsonaro iniciou sua carreira política no Rio após servir no Exército. Ganhou projeção ao defender mais benefícios para integrantes das Forças Armadas, uma causa popular na cidade que concentra o maior número de instalações militares do Brasil. Mais tarde, ajudou a impulsionar dois dos filhos aos corredores do poder no Rio.
Flávio Bolsonaro, que passou grande parte de sua juventude no bairro da Tijuca, na zona norte do Rio, foi eleito deputado estadual aos 21 anos e cumpriu quatro mandatos. Seu irmão Carlos ocupou uma cadeira na Câmara Municipal do Rio por quase 25 anos antes de deixar o cargo no ano passado.
Seguindo os passos do pai, Flávio Bolsonaro, advogado de formação, ganhou destaque na Assembleia Legislativa do Rio ao defender penas mais severas para criminosos e maior autonomia para a polícia.
Os homicídios vêm caindo de maneira geral no Rio, em linha com um declínio mais amplo em todo o Brasil, mas o crime e a insegurança ainda custam ao estado mais de US$ 6 bilhões por ano, de acordo com um estudo da Firjan, a federação da indústria do estado do Rio de Janeiro.
Historiadores atribuem muitos dos problemas enfrentados pela “Cidade Maravilhosa”, como é conhecida por seus admiradores, à transferência da capital do Brasil para Brasília há mais de meio século, o que privou o Rio de ministérios e de motores cruciais de sua economia.
Desde então, o Rio vem buscando uma nova identidade econômica. A repressão política sob a ditadura militar, que durou duas décadas até 1985, gerou extensas redes de clientelismo.
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Com o tempo, isso transformou a política do Rio no que Osório chama de uma versão tropical do sul da Itália, onde o favorecimento entre aliados saiu de controle.
“O que começou como clientelismo gradualmente se transformou em máfia”, afirmou ele.
Apesar de todos os apelos do clã Bolsonaro para limpar o sistema, membros da família têm enfrentado questionamentos sobre suas próprias ligações com o submundo do Rio.
Flávio Bolsonaro, em particular, tem sido alvo de questionamentos sobre laços com supostos membros de milícias, grupos armados com origem nas forças de segurança que controlam partes da cidade. Ele nega qualquer envolvimento com milícias.
A campanha de Bolsonaro não respondeu a um pedido de comentário enviado por e-mail sobre alegações passadas de corrupção e má conduta durante seu mandato como deputado estadual, nem sobre a investigação da Polícia Federal sobre sua relação com Vorcaro.
A polícia do Rio de Janeiro há muito é alvo de escrutínio no Brasil e no mundo por sua brutalidade. Mas o assassinato, em 2018, da vereadora Marielle Franco por um ex-policial ligado a milícias expôs a conexão entre as forças de segurança, o crime organizado e a classe política do Rio de Janeiro, tornando-se assim um caso emblemático na luta contra a impunidade.
“As milícias não surgem sem os políticos”, afirmou Cecília Olliveira, diretora da Fogo Cruzado, organização que monitora a violência nas cidades brasileiras. “É uma sociedade”.
Como deputado estadual, Flávio concedeu a Adriano da Nóbrega, ex-capitão da polícia acusado de liderar uma das milícias do Rio, a Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias da Assembleia Legislativa, e empregou integrantes da família de Nóbrega em seu gabinete. Flávio afirmou que os parentes de Nóbrega foram contratados por recomendação de um assessor.
Mesmo um aparente desmaio durante um debate televisionado ao vivo na campanha para prefeito do Rio de 2016 mal diminuiu sua ascensão. Dois anos depois, quando seu pai assumiu a presidência, Flávio Bolsonaro aproveitou a onda de indignação dos eleitores contra o Partido dos Trabalhadores, que há muito tempo governava, para chegar ao Senado.
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As questões relacionadas ao seu mandato como deputado estadual o acompanharam até lá. Em 2020, promotores do Rio denunciaram Flávio por peculato, lavagem de dinheiro e outros crimes relacionados a um suposto esquema para se apropriar de parte dos salários de funcionários do gabinete, prática conhecida no Brasil como rachadinha.
Ele negou as acusações. Tribunais superiores invalidaram posteriormente provas fundamentais por motivos processuais, levando os promotores a arquivar o caso antes que ele fosse a julgamento.
No Senado, Flávio Bolsonaro continuou defendendo o tipo de policiamento de mão pesada que foi aplaudido no Rio. Em sua terra natal, essas táticas só se tornaram mais severas.
No ano passado, o então governador do Rio, Cláudio Castro, aliado de Bolsonaro, supervisionou a operação policial mais letal já registrada no Brasil, que resultou na morte de mais de 120 pessoas em um único dia.
O objetivo declarado era capturar os líderes do Comando Vermelho, a principal facção criminosa do Rio. Mas a operação aterrorizou moradores do Complexo da Penha, conjunto de favelas onde ocorreu grande parte da violência — ao mesmo tempo em que expôs o amplo apoio existente no Brasil ao tipo de atuação policial de atirar primeiro que há muito faz parte da realidade da cidade.
Com os traficantes de drogas ainda entrincheirados na Penha, moradores como Thaís Barbosa, de 32 anos, mãe de três filhos, ficam se perguntando como escapar do fogo cruzado.
Durante os intensos tiroteios da ofensiva policial em outubro passado, integrantes da facção invadiram a casa de Barbosa para se esconder dos policiais que os perseguiam. A família ficou trancada em um quarto enquanto os agentes vasculhavam o bairro e acabaram encontrando os homens que procuravam.
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A polícia ordenou que a família fosse para a varanda enquanto lidava com os homens. Barbosa lembra-se de ter ouvido tiros e, assim que a operação terminou, sua família se refugiou na casa de sua irmã. Mais tarde, vizinhos encontraram três mortos na laje de concreto da casa de Barbosa.
“Não há mais para onde fugir”, disse ela.
Do outro lado da cidade, em Copacabana, no mês passado, Flávio Bolsonaro prometia uma saída, comprometendo-se a reprimir as facções e a limpar o sistema político brasileiro.
O problema maior talvez seja simplesmente convencer os eleitores de que consegue ocupar o lugar do pai. É um desafio que ele pareceu reconhecer durante um discurso de campanha.
“Eu sei que pareço com ele. Mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé”, afirmou, em referência à lenda do futebol brasileiro.
Algumas pessoas na multidão pareciam concordar. Edison Sousa, 64, metalúrgico aposentado, afirmou estar confiante na vitória de Flávio à Presidência, mas reconheceu que o comício estava muito distante dos tempos em que o pai lotava Copacabana de apoiadores.
“Jair levava o povo para as ruas”, afirmou. “Essa é outra história.”
--Com a colaboração de Gisele Fernandes.
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