iFood vai investir R$ 24 bi e aposta em novas categorias diante de ‘guerra do delivery’

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO Diego Barreto minimiza o impacto da concorrência de rivais globais e detalha estratégia em entrega rápida, comida acessível e novas categorias como farmácia e pet shop, que devem responder por metade das vendas do marketplace em três anos

Ambiente da sede do iFood na cidade de Osasco, na Grande São Paulo (Foto: Divulgação)
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Bloomberg Línea — O iFood chega aos 15 anos de operação anunciando o maior ciclo de investimentos de sua história: R$ 24 bilhões para o ano fiscal que vai de abril de 2026 a março de 2027, valor que representa alta de 41% em relação ao aporte do período anterior.

O novo valor confirma a trajetória de aceleração dos investimentos da plataforma. No ano passado, em meio a anúncios bilionários feitos pela 99Food e pela Keeta, da Meituan, o iFood revelou pela primeira vez o valor total previsto para um ciclo fiscal completo — R$ 17 bilhões, para o período encerrado em março de 2026. E abriu os montantes apurados em períodos anteriores. Em 2024, o iFood havia investido R$ 10,3 bilhões; em 2025, R$ 13,6 bilhões.

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Para Diego Barreto, CEO do iFood, a entrada de rivais globais e locais não mudou o ritmo da companhia. “O iFood nos últimos 12 meses continua crescendo base de cliente, frequência, retenção, fazendo expansão de categorias”, afirmou à Bloomberg Línea.

Segundo ele, o efeito mais visível da concorrência tem sido uma “entropia natural”, em especial quando concorrentes recorrem a preço predatório para estimular artificialmente a demanda — o que, segundo Barreto, “causa distorções nas percepções” de restaurantes e entregadores e “gera efeitos negativos depois”.

A resposta do iFood a esses movimentos, disse, tem sido de “ajustes pontuais”, mantendo o foco em inovação de produto.

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Os R$ 24 bilhões agora anunciados dão sequência a esse movimento. O novo investimento está concentrado em frentes como o fortalecimento dos restaurantes parceiros; o impulsionamento de categorias além da comida, como farmácias, supermercados, lojas e pet shops; e o desenvolvimento de tecnologia própria.

Barreto nega que a chegada de concorrentes tenha reorientado essa alocação: a distribuição segue “muito parecida com a do ano passado”, equilibrada entre novos produtos de food delivery, avanço de categorias, iFood Pago e inteligência artificial.

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O fortalecimento dos restaurantes, segundo o executivo, passa por produtos que destravam demanda por ocasião de consumo — não por descontos. O principal exemplo é o Turbo, sistema que viabiliza entregas em até 20 minutos.

“A entrega em até 20 minutos parece óbvia quando você pensa num refrigerante, quando você pensa num shampoo, mas não é óbvia quando você pensa numa comida que precisa ser cozinhada ainda”, diz Barreto, para quem o produto exige “um ajuste muito relevante na operação dos restaurantes”.

Diego Barreto

Segundo ele, parceiros que operam bem com o Turbo crescem “até 30% a mais” por causa do produto, com destaque para centros urbanos mais densos.

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Já o Hits, voltado a comida acessível e rápida sem cobrança de taxa de entrega, é descrito pelo CEO como “talvez a maior inovação desses últimos três anos” da companhia, fruto de um processo iniciado em 2018. A meta para os próximos 12 meses é levar o produto a todas as cidades elegíveis.

Outra aposta é o Comer Fora, que direciona demanda para o salão dos restaurantes e agora inicia expansão nacional.

Nos últimos anos, esse caminho de explorar a integração entre o online e o offline ganhou tração na tese do iFood a partir de diversas aquisições de plataformas de software de gestão, como Opdv, a Saipos e a 3S Checkout e a divisão de software de alimentação da Videosoft, fabricante de totens de atendimento, e da Get In, startup de reservas e gestão de filas de bares e restaurantes.

As categorias além da comida também ganham peso nas linhas de investimento. Segundo Barreto, 30% dos clientes de food delivery já são usuários ativos de farmácia, mercado, pet shop e conveniência — segmentos que crescem, respectivamente, 70%, 60% e 100% ao ano. A expectativa da companhia é de que, em três anos, essas categorias respondam por 50% das vendas do Marketplace iFood.

Na divisão dos recursos entre áreas de negócio, os investimentos em tecnologia e inovação devem ultrapassar R$ 2 bilhões, incluindo a evolução de agentes de inteligência artificial e o Large Commerce Model (LCM), modelo de IA generativa criado no ano passado em parceria com a própria Prosus para o comércio e o delivery. A ambição é que o sistema aprenda a partir de cliques, buscas, compras, cancelamentos e avaliações para gerar recomendações mais precisas aos usuários.

Líder de mercado com mais de 70%, de acordo com os dados registrados antes da chegada dos concorrentes, o iFood enfrenta a chegada das rivais em um campo que transcende o ambiente de negócios.

Na chamada “guerra do delivery”, as políticas agressivas de incentivos e cupons foram parar no Cade, o órgão antitruste nacional. No questionamento mais recente, o iFood acusou a Keeta de usar preços artificialmente baixos para sufocar a concorrência.

Em decisão no começo do mês, o Tribunal do Cade decidiu, a partir de um processo protocolado pela Keeta contra a 99Food, aprofundar a análise sobre as práticas competitivas no mercado de delivery, incluindo as ações de todos os participantes.