Pressão externa no câmbio justifica a cautela do Banco Central, diz ex-diretor

Reinaldo Le Grazie, ex-diretor de política monetária, diz à Bloomberg News que BC é sensível ao diferencial de juros entre o Brasil e os EUA, pois afeta o fluxo de capitais

Oficina del Banco Central de Brasil
Por Josue Leonel
20 de Maio, 2024 | 02:26 PM

Bloomberg — A pressão no câmbio é causada principalmente pelo estreitamento entre as taxas de juros no Brasil e nos Estados Unidos e justifica a postura mais cautelosa adotada pelo Banco Central em relação aos juros, segundo Reinaldo Le Grazie, ex-diretor de política monetária do BC.

A redução das apostas no corte da Selic, reforçada pela ata do Copom, começou a se desenhar quando o Federal Reserve, banco central dos EUA, passou a sinalizar que o corte da sua taxa demorará mais que o previsto, disse Le Grazie, que é sócio da Panamby Capital, em entrevista à Bloomberg News.

“O BC é sensível a isso, pois afeta o fluxo de capitais”, afirmou ele, que atuou na instituição entre 2016 e 2019.

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O mercado projeta agora apenas chances marginais de um último corte da taxa Selic, para 10,25%, depois que o Copom retirou a sinalização futura de novas reduções da taxa e reforçou o tom de cautela com o cenário externo, a desancoragem das expectativas de inflação e a política fiscal.

O dólar chegou a se aproximar de R$ 5,30 um mês atrás, no maior nível em mais de um ano, com fala do presidente do Fed, Jerome Powell, sobre falta de progresso no controle inflação, aliada ao receio de piora fiscal no Brasil.

A pressão diminuiu desde então mas ainda assim o real segue como a segunda pior moeda latino americana neste ano, à frente apenas do peso argentino.

Em meio à alta do dólar, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas tem apurado uma constante deterioração das expectativas inflacionárias. A estimativa para o IPCA de 2025, que é foco da política monetária, subiu para 3,74%, distanciando-se ainda mais da meta de 3%. Até meados de fevereiro, a projeção estava em 3,5%.

Fluxo e diferencial de juros

O fluxo cambial financeiro negativo que vem sendo registrado em 2024 e impede a queda do dólar é resultado do menor diferencial de juros entre o Brasil, que vem cortando a Selic desde meados de 2023, e os EUA, onde a taxa do Fed segue inalterada, segundo Le Grazie.

“O gatilho para a piora do mercado de juros veio dos EUA”, afirmou o ex-diretor. Para ele, a situação é basicamente igual tanto para o Fed quanto para o BC brasileiro, que não têm pressa em cortar suas taxas. “Tanto lá como aqui, vemos uma atividade forte e uma inflação teimosa.”

Embora o regime de câmbio no Brasil seja flutuante, o BC precisa prestar a atenção ao dólar, pois se o real continua se desvalorizando com o estreitamento da diferença entre as taxas de juros, as expectativas inflacionárias podem ser ainda mais pressionadas, disse Le Grazie, que vê maior chance de uma Selic final na casa dos 10%.

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“A inflação no Brasil está controlada, mas é arisca, sobretudo considerando a situação fiscal.”

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