Opinión - Bloomberg

Como a China pode ser decisiva para um acordo duradouro entre Estados Unidos e Irã

A economia chinesa se preocupa com as consequências globais da guerra: além dos preços imediatos do petróleo, os efeitos do conflito afetam o crescimento do país

Donald Trump e Xi Jinping
Tempo de leitura: 7 minutos

Bloomberg Opinion — Na cúpula do Brics em Nova Délhi, em 12 de setembro, Xi Jinping defendeu um papel mais ativo da China e de outros países membros para pôr fim à guerra com o Irã.

O presidente da China afirmou que o conflito havia causado graves prejuízos em toda a região, era contrário aos interesses comuns da comunidade internacional e deveria dar lugar a um “cessar-fogo permanente e abrangente” e a uma nova arquitetura de segurança regional.

A China, acrescentou ele, trabalharia com outros membros do Brics para desempenhar seu “devido papel” na promoção da paz e da estabilidade no Oriente Médio.

Dez dias antes, no Cairo, Xi havia delineado quatro princípios para tal arquitetura: maior apropriação regional da segurança, soluções abrangentes para conflitos interligados, desenvolvimento como base para uma estabilidade duradoura e coordenação internacional mais forte.

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Particularmente importante foi seu argumento de que o desenvolvimento poderia promover uma convergência de interesses regionais, ao mesmo tempo em que a China trabalhava com os países da região para salvaguardar as rotas marítimas internacionais.


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Pequim tem três motivos cada vez mais fortes para pressionar agora por um acordo entre os Estados Unidos e o Irã:

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  • O modelo de crescimento chinês está excepcionalmente exposto a uma desaceleração global;
  • A capacidade da China de se proteger do choque do petróleo não é indefinida, como começam a mostrar o aumento das importações de petróleo bruto, o forte aumento do prêmio de Xangai (preço de entrega física) em relação ao Brent e os custos recordes de transporte marítimo para a China;
  • Os governos de todo o Oriente Médio veem cada vez mais a China como uma das poucas potências externas com influência significativa tanto sobre Teerã quanto sobre Washington.

O ponto mais importante, no entanto, é que a China também pode estar em uma posição única para ajudar a tornar um acordo duradouro — mas somente se Xi, que visita os EUA nesta semana, conseguir o apoio do presidente Donald Trump.

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A economia chinesa dá a Pequim um forte motivo para se preocupar com as repercussões globais da guerra. Embora as exportações tenham aumentado 25% em agosto em relação ao ano anterior, a demanda interna está fraca. As vendas no varejo cresceram apenas 0,6% em julho, enquanto os investimentos em “ativos fixos” e no setor imobiliário continuaram a se contrair.

O crescimento mais rápido das exportações vem cada vez mais de fora dos mercados ocidentais tradicionais da China. Nos primeiros oito meses de 2026, as exportações para a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e a África aumentaram 25,8%, em comparação com 15,3% para a União Europeia e apenas 6,2% para os EUA.

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Uma economia chinesa que depende cada vez mais da demanda externa, particularmente de mercados emergentes altamente vulneráveis a um choque energético, tem muito a perder com uma desaceleração global prolongada.

O petróleo dá a Pequim um motivo imediato para se preocupar. A China entrou na guerra com estoques de petróleo bruto excepcionalmente altos, o que lhe permitiu reduzir as importações em cerca de cinco milhões de barris por dia — de 12 milhões em janeiro/fevereiro para 7,1 milhões em junho — à medida que o fluxo pelo Estreito de Ormuz entrava em colapso.

No final de agosto, mesmo após meses de reduções, a Kpler estimou os estoques em terra em impressionantes 1,17 bilhão de barris. Esse ajuste fez muito mais do que proteger a China; tornou-se uma das principais forças que contiveram o choque global do petróleo. Na prática, a China absorveu uma parte substancial do choque de Ormuz ao retirar a demanda do mercado global.

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Esse ajuste agora começa a se reverter à medida que as necessidades de petróleo da China aumentam. As importações de petróleo bruto subiram para cerca de 8,9 milhões de barris por dia em agosto. O sinal mais claro da crescente demanda chinesa por petróleo talvez sejam os preços.

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O petróleo bruto INE de Xangai, que reflete o valor dos barris entregues na China, foi negociado com um grande desconto em relação ao Brent durante grande parte da primavera e do verão no hemisfério norte, mas passou a apresentar um prêmio no final de agosto. Em 11 de setembro, era negociado com um prêmio de aproximadamente US$ 16 por barril em relação ao Brent, em comparação com um desconto de cerca de US$ 20 no final de abril.

Mas, com a visita de Xi a Washington prevista para esta semana, o momento também tem uma implicação estratégica: o retorno forçado da China ao mercado é um lembrete de que, sem a ajuda da China para absorver parte do choque do petróleo, uma interrupção prolongada no Estreito de Ormuz poderia ser muito mais prejudicial para a economia global e para os EUA.

A China também é levada a assumir um papel mais importante por países de todo o Oriente Médio, cuja forte dependência dos EUA em matéria de segurança parece, cada vez mais, uma fonte de vulnerabilidade. Além disso, os governos da região percebem que é mais útil pedir a Pequim que utilize a influência econômica que exerce sobre Teerã.

Essa mudança ficou evidente na visita do príncipe herdeiro de Abu Dhabi a Pequim, na conversa telefônica entre Mohammed bin Salman e Xi e, mais recentemente, na visita do primeiro-ministro do Catar à China.

Mas a importância da China vai além da mediação.

Um acordo duradouro precisa resolver dois problemas. O primeiro é a inconsistência temporal. O Irã teme que Washington possa restabelecer as sanções depois que Teerã fizer concessões nucleares onerosas (para o governo), enquanto os EUA temem que o alívio das sanções possa deixar o Irã menos restringido economicamente e mais disposto a adotar políticas regionais desestabilizadoras.

O segundo é o excesso de dívida política. Após anos de sanções e meses de guerra, ambos os governos precisam de ganhos grandes o suficiente para justificar os custos já arcados.

Um acordo viável, portanto, precisa de limites nucleares verificáveis e moderação regional, alívio sustentável das sanções, liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz e um pacote substancial de desenvolvimento. A China está bem posicionada para fazer com que esse tipo de acordo funcione.

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Suas compras de petróleo e seu comércio podem compensar grande parte do impacto econômico das sanções dos EUA; sua posição como principal comprador de petróleo do Irã lhe confere influência sobre Teerã; e suas empresas têm a capacidade técnica e financeira para realizar os investimentos em infraestrutura necessários para tornar tangíveis os ganhos decorrentes da paz.

Os custos econômicos da guerra estão se tornando cada vez mais difíceis de ignorar para as três partes. No Irã, os dados mais recentes mostram que a inflação disparou para 88% em julho em relação ao ano anterior, em meio a uma economia em contração. Nos EUA, o preço médio da gasolina está acima de US$ 4,40 por galão e o do diesel, acima de US$ 6, enquanto o rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos, referência no mercado, ultrapassou 5%, o maior nível desde 2007.

Essas pressões, somadas às que a China enfrenta, dão a todos os três governos motivos mais fortes para buscar uma saída. Mas o sofrimento econômico por si só não torna necessariamente um acordo mais fácil ou mais próximo.

Sem um pacote econômico suficientemente amplo e confiável, ele pode agravar o excesso de dívida política, aumentando a recompensa de que cada governo precisa para justificar os custos já arcados.

E embora Washington possa esperar que a crescente pressão econômica force Teerã a aceitar grandes concessões, Teerã pode acreditar que as eleições de meio de mandato nos EUA, que se aproximam, enfraquecerão a determinação de Washington.

Enquanto isso, Pequim ainda pode preferir esperar, em vez de assumir os riscos de tentar intermediar um acordo. O perigo é que todas as três partes estejam subestimando a capacidade das outras de arcar com custos adicionais.

Isso torna a visita de Xi a Washington uma oportunidade diplomática potencialmente importante. O argumento a favor de um papel mais significativo da China não se baseia mais apenas no interesse geral de Pequim pela estabilidade regional.

A China agora tem um interesse direto em limitar os danos econômicos causados pela guerra, enfrenta demandas crescentes dos governos da região para que se envolva mais e possui uma influência excepcionalmente forte sobre os elementos centrais de qualquer acordo duradouro.

Xi já expôs os princípios gerais no Cairo e em Nova Délhi. O próximo passo é transformar esses princípios em uma proposta concreta que vincule restrições nucleares, alívio das sanções, liberdade de navegação e um pacote de investimentos confiável. Se Trump estiver disposto a aceitar, os resultados podem ser notáveis.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Simon Johnson é professor da MIT Sloan School of Management e vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2024. Recentemente, foi nomeado presidente do Instituto de Economia da IA do governo do Reino Unido.

Amir Kermani é professor da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley, onde ocupa a Cátedra Kingsford Capital Management em Finanças.

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