Direita à prova: Milei testa sua influência política na campanha de Flávio Bolsonaro

O presidente argentino amplia seu engajamento na política regional ao apoiar Flávio Bolsonaro, em uma aposta de alto risco para sua liderança na direita latino-americana

Presidente argentino durante um evento com a imprensa em Buenos Aires no início deste mês. (Foto: Tomas Cuesta/Bloomberg)
Por Manuela Tobias - Daniel Carvalho - Martha Beck
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Bloomberg — Recém-saído de uma crise provocada por denúncias de corrupção em seu país, que derrubou sua popularidade ao menor nível desde o início do mandato, Javier Milei, da Argentina, viaja diretamente para o centro de uma controvérsia sobre fraude bancária no Brasil.

O risco à sua reputação pode ser um preço que valha a pena pagar, caso ajude a derrotar seu principal adversário e o mais proeminente líder de esquerda da América Latina.

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O presidente da Argentina deve participar, no sábado, de uma convenção do Partido Liberal em São Paulo que lançará formalmente a candidatura de Flávio Bolsonaro para tentar tirar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do cargo na eleição de outubro.

Na quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal autorizou a polícia a investigar as supostas ligações de Flávio Bolsonaro com o homem que está no centro de uma ampla apuração sobre fraude bancária que abala a maior economia da América Latina. Ele nega irregularidades.

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A investigação ameaça desorganizar ainda mais a candidatura de Flávio Bolsonaro na eleição de outubro, já que o senador de direita aparece 7 pontos percentuais atrás de Lula em uma pesquisa AtlasIntel divulgada neste mês.

Essa é a aposta de maior risco feita por Milei na região. O argentino tem tentado se consolidar como uma força da direita global e celebrou as vitórias conservadoras de Keiko Fujimori, no Peru, Abelardo de la Espriella, na Colômbia, e José Antonio Kast, no Chile.

A estratégia lembra a aposta bem-sucedida que fez no início de 2024, quando viajou aos Estados Unidos para apoiar Donald Trump logo após se reunir, em Buenos Aires, com autoridades de alto escalão do governo Biden.

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A viagem ao Brasil ocorre justamente quando Milei tenta superar a crise causada pela renúncia, no mês passado, de seu principal assessor, Manuel Adorni, em meio a acusações de enriquecimento ilícito. As compras de imóveis e as viagens luxuosas de Adorni são alvo de investigação.

A corrupção continua no topo das preocupações dos argentinos — e combatê-la tem sido uma das principais promessas de Milei aos eleitores. Os argentinos reprovaram de forma ampla a maneira como Milei lidou com o escândalo de corrupção envolvendo seu ex-chefe de gabinete, segundo outra pesquisa AtlasIntel divulgada dias depois da renúncia do ex-assessor.

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A taxa de aprovação de Milei caiu para o menor nível da série histórica, de 36%, depois que o caso veio à tona em março, e se recuperou para cerca de 40% no mês passado.

Ao apoiar Flávio Bolsonaro no início do período oficial de campanha no Brasil, Milei também dá uma resposta a Lula e alimenta uma intensa rivalidade regional que se manifestou em eleições, fóruns globais e tribunais nos últimos três anos.

Aliado de longa data da esquerda argentina, Lula enviou uma equipe de quase duas dezenas de estrategistas de campanha para ajudar o adversário de Milei na eleição de 2023.

A iniciativa ocorreu depois de Milei prometer, durante a campanha, que evitaria fazer negócios com o Brasil, país que incluiu em um grupo de nações “socialistas”.

Desde então, os dois mantêm uma relação fria. Em uma cúpula de líderes do Grupo dos Sete, em 2024, Lula e Milei ficaram em lados opostos da foto oficial, na Itália, e evitaram qualquer interação.

(Foto: Victor Moriyama/Bloomberg)

Milei fez sua primeira viagem ao Brasil — maior parceiro comercial da Argentina — poucas semanas depois. Mas, em vez de se reunir com Lula, participou de uma conferência política conservadora com o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

O episódio quase transformou a rivalidade em uma crise diplomática aberta, até que Milei evitou críticas diretas a Lula durante o evento.

O brasileiro retribuiu no ano passado, depois de obter autorização de um juiz argentino para visitar a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner, principal adversária interna de Milei, que cumpre prisão domiciliar após uma condenação por corrupção.

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Milei planejava um encontro semelhante com Jair Bolsonaro durante sua passagem pelo Brasil. Mas um ministro do Supremo Tribunal Federal bloqueou a reunião na semana passada, depois de proibir o ex-presidente, que também cumpre prisão domiciliar por tramar um golpe após perder a eleição para Lula, de receber visitantes políticos.

Os riscos geopolíticos envolvidos na eleição brasileira são elevados. Quando Milei assumiu o cargo, era o único conservador à frente de uma grande economia sul-americana. Depois das derrotas da esquerda no Chile, na Colômbia e no Peru, é Lula quem agora está isolado.

Isso fez dele um alvo ainda maior para Milei e outras figuras da direita, entre elas Trump. O presidente dos Estados Unidos, que considera Milei um de seus aliados mais próximos na região, tem interferido repetidamente em eleições enquanto tenta reafirmar o domínio de Washington sobre a América Latina.

(Foto: Arthur Menescal/Bloomberg)

Flávio Bolsonaro chegará ao lançamento oficial de sua campanha, no sábado, após finalmente conquistar o apoio da mulher de seu pai, depois de meses de conflitos familiares. Michelle Bolsonaro, uma figura política influente por mérito próprio, resistia a apoiar o enteado porque, segundo ela, ele havia sido desrespeitoso.

Ela mudou de posição depois que ele pediu desculpas publicamente nesta semana, e o presidente do Partido Liberal manifestou esperança de que a influência de Michelle possa ampliar o apelo do candidato.

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Ainda não se sabe se ela ou Milei conseguirão reverter a queda de Bolsonaro nas pesquisas. Lula, por sua vez, parece não demonstrar preocupação com a mais recente incursão de Milei na política brasileira.

O governo brasileiro considera improvável que o apoio do argentino a Bolsonaro seja decisivo na eleição, segundo uma autoridade que pediu anonimato para comentar avaliações internas.

Apesar das tensões políticas entre os dois, Argentina e Brasil continuam a cooperar em comércio e outras questões relevantes, afirmou a autoridade.

Milei minimizou em alguns momentos os efeitos da rivalidade e disse, em uma entrevista em janeiro, que os dois mantêm uma “relação adulta”.

Mas, depois de se reunir com Flávio Bolsonaro em Buenos Aires no mês passado, Milei provocou Lula com uma referência enfática ao avanço conservador contra o movimento que já foi conhecido como a “maré rosa” da esquerda na região.

“A onda azul está chegando ao Brasil”, escreveu em uma publicação nas redes sociais, “liderada por Flávio Bolsonaro”.

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