Bloomberg Línea — O aeroporto de Jericoacoara, no litoral do Ceará, tem cobertura de palha, dois portões e nenhuma ponte de embarque. Os passageiros atravessam o pátio a pé, por uma faixa azul pintada no chão, para chegar às aeronaves. É esse terminal rústico, construído em 2017 para atender o turismo na capital brasileira do kitesurfe, que a Fraport Brasil, empresa alemã, assumiu no último dia 1º de setembro.
A concessionária, que já opera os aeroportos de Fortaleza e Porto Alegre, promete R$ 101,1 milhões em obras para modernizar a infraestrutura e preparar o terminal para o crescimento da demanda, segundo comunicado.
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A concessão saiu do leilão de 27 de novembro de 2025, dentro do programa federal AmpliAR, voltado a aeroportos regionais, com o contrato assinado em 10 de março. Jericoacoara foi o único dos 19 aeroportos ofertados a receber mais de uma proposta: em disputa a viva-voz, a Fraport bateu a GRU Airport e a PRS Aeroportos.
No AmpliAR, quem assume um aeroporto deficitário é compensado com reequilíbrio no contrato que já opera. A Fraport ofereceu 100% de deságio e abriu mão dessa compensação. Jericoacoara entra na concessão de Fortaleza, que vai até 2047.
A Fraport não informou o prazo de execução dos R$ 101,1 milhões. Segundo a empresa, as primeiras intervenções e seus prazos só serão definidos após a validação de projetos e estudos em andamento.
“A Fraport chega a Jericoacoara com experiência internacional e disposição de entender as características locais”, afirmou Andreea Pal, CEO da Fraport Brasil, em nota. O compromisso, segundo ela, é tornar o aeroporto mais seguro, eficiente e preparado para o crescimento.
O terminal mantém o nome oficial de Aeroporto Regional de Jericoacoara – Comandante Ariston Pessoa e passa a usar também a marca comercial Jeri Airport. SBJE é seu código no sistema internacional de identificação de aeródromos.
O movimento total de Jericoacoara ainda é pequeno: 2.997 pousos e decolagens em 2025, o que coloca o terminal na 88ª posição entre os 100 aeródromos monitorados pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea).
São oito movimentos por dia. Fortaleza, o outro aeroporto da concessionária no Ceará, fez 55.234 no mesmo período e está em 17º lugar.
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A aviação comercial, que opera com linhas regulares da Azul, Gol e Latam, caiu 10% em 2025. Fortaleza, a cerca de 300 quilômetros por terra, tem voos mais frequentes e conexões internacionais, e é a porta de entrada alternativa para quem chega à região.
Em sentido oposto, a aviação geral (jatos executivos, táxi aéreo e voos particulares) disparou 27% em 2025 na comparação com 2024, somando 1.097 movimentos no ano. A conta dá três jatos por dia, em média. Em agosto e novembro, esse segmento chegou a superar os voos comerciais.

Meta é internacionalização do terminal
A mudança de perfil não é acidental. Jericoacoara é destino global do kitesurfe, esporte que depende de ventos fortes entre julho e janeiro. É nessa janela que o aeroporto registra seus picos de movimento.
Em julho de 2026, foram 321 movimentos, 82% mais que em junho, segundo o relatório do Decea. O turista que pratica kitesurfe costuma ter alto poder aquisitivo. Ele viaja de jato.
A praia do Preá, vila de pescadores no município de Cruz, tem “potencial turístico gigantesco”, e o aeroporto é peça central da estratégia, disse em junho o secretário de Turismo do Ceará, Gustavo Montenegro.
A internacionalização do terminal é meta do governo estadual: “É um trabalho longo, envolve Polícia Federal, Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], Ministério da Agricultura, Receita Federal”.
A infraestrutura atual, porém, ainda é modesta. O terminal tem cobertura de palha sobre estrutura de madeira. Os balcões de check-in ainda carregam a marca do governo do Ceará. Painéis fotográficos das praias da região cobrem as paredes do saguão. Aeronaves comerciais e jatos particulares dividem o mesmo pátio. Uma escada rebocada atende os passageiros dos jatos, com serviços da Dnata, empresa de assistência em solo (handling) que opera no aeroporto.

Desafio da infraestrutura
Os investimentos previstos pela Fraport Brasil miram justamente essas lacunas. A lista de obras inclui ampliação do pátio de aeronaves, construção de áreas de segurança nas cabeceiras da pista, reforma do terminal de passageiros e adequações operacionais.
O aeroporto tem hoje poucos slots (horários de pousos e decolagens) para aviação geral e não comporta ainda voos internacionais.
O governo do Ceará também investe na região. Estão em obras R$ 99 milhões em saneamento, drenagem e abastecimento de água no Preá, segundo Montenegro. “Não existe turismo sem a sustentabilidade correr em paralelo os dois juntos”, afirmou.
O movimento de jatos executivos em Jericoacoara não é um fenômeno isolado. A Anantara, marca tailandesa de resorts de luxo, escolheu a praia do Preá, a 20 minutos do aeroporto, para sua estreia no Brasil, em parceria com o Grupo Carnaúba, liderado por Júlio Capua, cofundador da XP.
O resort de R$ 150 milhões, com inauguração prevista para 2028, é a âncora de um projeto imobiliário de R$ 5 bilhões que busca transformar a região em um destino turístico planejado, segundo disse o executivo em junho.

A Latam foi uma das primeiras companhias aéreas que apostaram no fluxo de turistas para o paraíso dos ventos. Em dezembro de 2021, a empresa pousou pela primeira vez em Jericoacoara.
O voo chegou de Guarulhos com 80% de ocupação e os passageiros foram recebidos com rapadura embrulhada em juta e algodão cru, uma homenagem à cultura local. Na mesma época, Gol e Azul também anunciavam rotas para o destino.
A conexão entre os dois terminais já aparece nos números. Em 2025, a rota Fortaleza-Jericoacoara somou 348 movimentos, 178 em um sentido e 170 no outro.
Em nota, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, projetou que a região deve se tornar polo de desenvolvimento.
Referência mundial em ventos fortes, a região de Jericoacoara e da Praia do Preá é informalmente tratada por velejadores como a capital do kitesurfe avançado. O destino divide o protagonismo no estado com a Praia do Cumbuco, perto de Fortaleza, que detém o título oficial de Capital Nacional do Kitesurfe concedido pelo Senado Federal por ser o polo ideal para o aprendizado e o freestyle, com ventos mais moderados e lagoas de águas planas, como a do Cauípe.

O que busca o turista
O viajante que desembarca hoje no terminal de palha busca as praias de Jericoacoara, Preá e Tatajuba, com suas dunas e lagoas que formam a Rota das Emoções, um roteiro de mais de 500 quilômetros que liga Ceará, Piauí e Maranhão passando por paisagens que vão dos Lençóis Maranhenses ao Delta do Parnaíba.
Os velhos buggys que roncavam nas dunas dividem espaço com os veículos da canadense Can-Am, dos quadriciclos Outlander aos UTVs Commander e Maverick, maiores, mais potentes e com direção estilo carro. Eles levam hóspedes pelas areias de uma faixa de praia onde os terrenos se valorizam, e as vilas de pescadores perdem espaço.
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Enquanto os jatos executivos pousam em Jericoacoara, outra movimentação acontece no solo do Preá. Aos interessados em investir na região, o corretor Carlos Aleixo resume à Bloomberg Línea o apelo da vila em poucas palavras: “É uma vila sossegada, zero criminalidade, zero mortes. Não tem muita burocracia para construção”.
Ele oferece terrenos à beira-mar de 560 m² por R$ 4,2 milhões, em uma faixa da praia do Preá que concentra escolas de kitesurfe ligadas a pousadas e hotéis.

Em frente, a Pedra da Sereia, formação rochosa que emerge na faixa de areia e marca o relevo do mar, é um dos pontos turísticos da região.
Segundo o corretor, a maioria das terras no Preá ainda não tem matrícula regularizada. “Aqui os grandes empresários e gringos sempre compraram sem matrícula e nunca tiveram problema”, afirma.
O Preá fica fora dos limites do Parque Nacional de Jericoacoara, criado em 2002 a partir da antiga área de proteção ambiental de 1984 e que se estende pelos municípios de Jijoca e Cruz.
Em 1997, o Estado criou uma política de regularização fundiária para as terras de Jericoacoara, pela Lei 12.760, com o objetivo de conter a venda irregular e garantir a propriedade aos posseiros.
A paisagem de areia e coqueiros, que já foi ocupada por restaurantes rústicos, agora atrai compradores em busca de lotes de 10 por 20 metros, muitos vindos de fora do estado e até do exterior, interessados por um pedaço do paraíso dos ventos antes que os preços subam ainda mais.
Corretoras de imóveis prospectam famílias interessadas em vender terrenos no município vizinho de Acaraú, como na quase deserta praia de Aranaú. Na faixa que segue pelas praias de Barrinha de Baixo, Carrapateiras e do Morgado, dezenas de jumentos vagam entre dunas e lagoas, e ao longe giram os aerogeradores erguidos pela Energimp, subsidiária da argentina IMPSA.
O cenário ajuda a explicar o fascínio que atrai visitantes desde os anos 1990, na esteira da popularização da vizinha Jericoacoara e de seu cartão-postal, a Pedra Furada, arco de quartzito esculpido pelo vento e pelo mar.
Jericoacoara, do tupi, significa buraco das tartarugas, segundo o Ipece, instituto de pesquisa do governo do Ceará. A explicação corrente é que o nome remete à desova de tartarugas marinhas na praia. Pescadores antigos contam outra versão: o nome viria do serrote do farol, que visto do mar lembra um jacaré deitado.
A projeção internacional da vila vem de antes. Em 15 de março de 1987, a revista dominical do The Washington Post publicou um ensaio (Beauty and the Beach) de viagem do colaborador Cal Fussman sobre Jericoacoara, então uma vila de pescadores sem energia elétrica e sem hotéis, onde os visitantes dormiam em redes armadas na casa dos moradores.
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