Da Ypê à Havaianas: marcas se tornam símbolos da polarização política no Brasil

Recall de lote de produtos da Ypê desencadeou disputa entre lulistas e bolsonaristas nas redes e evidenciou fenômeno que já atingiu marcas como Havaianas e a Nike, fabricante da camisa da Seleção Brasileira

Marca da Ypê entrou no centro da polarização política após decisão técnica da Anvisa sobre recall de produtos da marca
Por Daniel Carvalho

Bloomberg — A cinco meses da eleição presidencial, o debate político mais acalorado do Brasil gira em torno de detergente.

Na semana passada, a Anvisa ordenou o recall de um lote de produtos lava-louças, sabão líquido e desinfetante da marca Ypê por risco de contaminação biológica, uma decisão aparentemente rotineira que, ainda assim, desencadeou uma espécie de guerra nas redes sociais.

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Bolsonaristas correram em defesa da Ypê, alegando perseguição política por parte do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já que alguns sócios da Química Amparo, dona da marca, são apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

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A esposa do ex-presidente, Michelle, publicou no domingo uma foto de uma garrafa de Ypê nas redes sociais, enquanto outros apoiadores gravaram vídeos usando o produto para lavar frango cru e o próprio rosto.

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Alguns chegaram a beber o detergente diante das câmeras. A atual primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, cujo marido enfrenta Flávio, filho mais velho de Bolsonaro, na eleição de outubro, criticou a “ignorância” dos vídeos em um discurso.

A disputa transformou a Ypê em mais um símbolo da política hiperpolarizada que domina o Brasil — e outras partes do mundo —, dinâmica que frequentemente arrasta marcas populares para o centro do embate, de gigantes como a Nike à fabricante de um dos chinelos mais famosos do país.

A camisa amarela da Seleção Brasileira, produzida pela Nike, tem sido um símbolo político há quase uma década, depois que conservadores a adotaram como emblema de seu movimento.

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A controvérsia voltou à tona no ano passado diante de especulações de que a Nike planejava lançar um uniforme do Brasil vermelho, cor geralmente associada a Lula e à esquerda, na Copa do Mundo do próximo mês. (À época, a Nike se recusou a comentar “rumores”; o Brasil usará as tradicionais camisas amarelas e azuis no torneio.)

A fabricante brasileira de calçados Alpargatas provocou uma disputa semelhante no último Natal, quando lançou uma campanha publicitária para sua marca de chinelos Havaianas que incentivava os consumidores a entrar no ano novo “com os dois pés”, em vez de “com o pé direito”.

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Era um trocadilho com uma expressão popular associada à boa sorte. Mas o anúncio gerou pedidos de boicote por apoiadores de Bolsonaro, alguns dos quais gravaram vídeos pulando com o pé direito em frente a lojas da Havaianas. Já à esquerda, houve mobilização para lotar as lojas da marca.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tentou acalmar a disputa envolvendo a Ypê, afirmando que a decisão da Anvisa foi técnica e que a agência “não tem lado partidário”.

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A Ypê afirmou em nota que a segurança do consumidor é sua principal prioridade. Sua assessoria de imprensa não respondeu sobre as questões políticas, dizendo que não têm relação com a empresa. A companhia apresentou recurso, que a Anvisa deve analisar na quarta-feira.

A Alpargatas não respondeu a pedidos de comentário sobre o episódio envolvendo a Havaianas.

Mas, em um país tão dividido, cada nova controvérsia reacende a anterior.

Em publicação nas redes sociais no domingo, o deputado Nikolas Ferreira afirmou que agora é embaixador de uma nova marca de chinelos, apropriadamente chamada “Pé Direito”.

Até quarta-feira, sua publicação havia recebido 710.000 curtidas.

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