Bloomberg — Os preços de energia têm sido o flagelo dos mercados de títulos este ano. Agora, os investidores temem que o próximo pico de inflação venha do setor de alimentos.
Eles veem o risco de que um Super El Niño, a escassez de fertilizantes, ataques ao transporte marítimo e as consequências do verão recorde de calor na Europa elevem o custo dos alimentos básicos.
Mesmo após o Federal Reserve ter aumentado as taxas de juros e prometido conter a inflação, um aumento sustentado nos preços poderia criar um novo problema para as carteiras de títulos.
Gestoras de recursos como a Carmignac, a Fidelity International e a Troy Asset Management estão adquirindo proteção ou reduzindo a exposição a países que possam ser mais fortemente afetados.
“Acho que o próximo choque de oferta será no setor de alimentos”, afirmou Marie-Anne Allier, que coadministra € 7,6 bilhões na Carmignac. “Não creio que isso esteja precificado no mercado no momento, especialmente porque esperamos que seja um processo lento, mas persistente.”
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A alta dos preços do petróleo e do gás, juntamente com as preocupações sobre o endividamento na Europa e nos EUA, tem pesado fortemente sobre os títulos públicos este ano, levando os rendimentos a níveis vistos pela última vez antes da crise financeira global. Os alimentos, por sua vez, atuam como um freio à inflação graças às safras abundantes em 2025.
Isso pode mudar já nesta temporada na Europa, segundo economistas do Barclays, e de forma mais generalizada no próximo ano, caso a produtividade das safras e as exportações continuem a ser afetadas.
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Um índice da ONU para commodities alimentícias está no nível mais alto desde o final de 2022, enquanto economistas do JPMorgan Chase & Co. prevêem que a inflação global dos alimentos saltará para 5% no primeiro semestre de 2027, ante 2,8% no mesmo período deste ano.

Para conter esse risco, a Carmignac vem comprando títulos públicos indexados dos Estados Unidos e da Europa. Allier vê cada queda nas taxas de equilíbrio de cinco anos — que dão uma indicação das tendências esperadas de preços — como uma oportunidade para ampliar essas posições.
Os bancos centrais acompanham de perto a situação, pois um choque nos preços dos alimentos pode elevar as expectativas de inflação das famílias e se espalhar pela economia, desencadeando demandas por salários mais altos. O Banco da Inglaterra, que manteve as taxas de juros inalteradas nesta quinta-feira (17), afirmou enxergar “riscos de alta para a inflação dos alimentos” até 2027.
“Consideramos que a inflação está subestimada nos EUA e também no Reino Unido”, afirmou Mark Dowding, diretor de investimentos da RBC Bluebay.
A empresa encerrou uma posição em futuros de taxas de juros do Reino Unido a 12 meses no mês passado devido à deterioração das perspectivas para os setores de alimentos e energia.
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O que dizem os estrategistas da Bloomberg: “Ao contrário da energia, os alimentos têm menos efeitos em segunda instância sobre os custos de produção. Como a demanda por alimentos é relativamente inelástica, o choque é, portanto, mais inflacionário do que negativo para o crescimento. Essa é uma combinação incômoda para os títulos públicos, que já estão sob pressão.”
Charlotte Yonge, que administra mais de £ 6 bilhões na Troy Asset Management, também espera que a inflação dos preços dos alimentos aumente nos próximos seis a 12 meses e afirma que os pontos de equilíbrio de cinco anos do Reino Unido e dos EUA ainda não refletem isso.
Yonge afirmou que está se protegendo contra os preços dos alimentos e as preocupações inflacionárias mais amplas por meio de títulos indexados de curto prazo no Reino Unido e nos EUA.
Laurence Mutkin, chefe de estratégia de taxas para a região da Europa, Oriente Médio e África (EMEA) do Bank of Montreal, afirmou que as preocupações com um aumento nos preços dos alimentos no próximo ano reforçaram sua opinião de manter posições vendidas em títulos do Tesouro britânicos de 10 anos, visando um aumento nos rendimentos para cerca de 5,75%.

O Leste Europeu já registrou um aumento mais acentuado nos rendimentos dos títulos para refletir o impacto da guerra nas exportações da Ucrânia, segundo Daniel Wood, gestor de carteiras de renda fixa da William Blair International.
Na Hungria, a seca impulsionou as importações, mas uma moeda mais forte e a queda na demanda ajudaram a conter o impacto inflacionário, afirmou ele.
“Países como o Egito e a Turquia, que apresentam alta dependência de importações, também são sensíveis, especialmente se os aumentos nos preços dos alimentos forem acompanhados por uma moeda mais fraca”, acrescentou ele. “Na Ásia, países com um alto peso dos alimentos em sua cesta do CPI (o índice americano de preços ao consumidor), como a Índia e as Filipinas, também estão vulneráveis a padrões climáticos adversos.”
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A Ásia e a América Latina provavelmente arcarão com o peso de um clima mais quente e seco como resultado do El Niño deste ano, com previsão de alguns transtornos para a agricultura, segundo Philip Fielding, gestor de carteiras de renda fixa da Fidelity International.
A empresa ainda vê oportunidades de bons retornos nos mercados emergentes, mas reduziu sua “exposição às taxas de juros na América Latina em favor de países que devem ser menos afetados”, afirmou ele.
Outros argumentam que, quanto mais os preços de itens essenciais, como alimentos, subirem, mais o crescimento será prejudicado, tornando mais difícil justificar aumentos nas taxas de juros.
Karen Ward, estrategista-chefe de mercado para a região EMEA da JPMorgan Asset Management, afirmou que os mercados de trabalho na Europa e nos EUA não são fortes o suficiente para “um repasse salarial sustentado”.
No entanto, muitos operadores do mercado de títulos não estão dispostos a assumir esse risco, especialmente diante dos recentes sinais de resiliência econômica diante dos desafios globais.
--Com a colaboração de Alice Gledhill, Alice Atkins e Georgia Hall.
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