Bloomberg Línea — A Ânima Educação (ANIM3) avalia que a potencial integração da FMU, após a compra anunciada em julho, poderia ajudar a elevar os resultados da faculdade paulistana utilizando as vantagens de operar dentro de um grupo maior.
De acordo com a empresa, a FMU rende hoje metade do que rendem as operações comparáveis da Ânima Educação. Para o comando da Ânima, a explicação é simples: a FMU opera sozinha, e trazê-la para dentro do ecossistema do grupo poderia ajudar a reduzir esse descompasso.
“Temos margens nas operações semelhantes que são o dobro da margem que a FMU opera hoje, porque ela roda sozinha”, disse o CFO Átila Simões da Cunha, em entrevista à Bloomberg Línea.
Dentro do grupo, argumenta o executivo, a FMU passaria a negociar contratos melhores e a dividir estruturas com as demais marcas da Ânima, que reúne 25 instituições de ensino superior.
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A FMU tem 51 mil alunos e seis campi na cidade de São Paulo, e está em recuperação judicial. Para o CFO, é justamente aí que mora a oportunidade: com os passivos reestruturados e dentro de um grupo, a instituição poderia retomar mercado perdido.
Ele lembra que a cidade de São Paulo concentra 10% do mercado brasileiro de ensino superior e que a FMU é a quinta maior marca da praça, apesar de ter caído de 9% de participação em 2021 para 6% em 2024.
“Mesmo tendo perdido, ela ainda é uma das maiores, maior que as nossas atuais operações”, disse. “Qualquer ponto percentual que ela ganhe de market share é um crescimento muito importante.”
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Analistas do J.P. Morgan, em relatório de 31 de agosto, reconhem que unidades semelhantes da Ânima em São Paulo rodam com margem pelo menos duas vezes maior que a da FMU, e que há, portanto, espaço real de ganho.
Mas eles calculam que a aquisição foi feita com prêmio de 187% sobre os múltiplos da própria Ânima. Mesmo dobrando as margens da faculdade comprada, o valuation pós-sinergia ainda ficaria relativamente caro diante do que a ação vale hoje.
Anima Holding (ANIM3)
É por isso que o banco mantém recomendação neutra para a ação do grupo (ANIM3). A avaliação é que o mercado vai adotar postura de espera e só precificar a FMU depois que as sinergias prometidas aparecerem no resultado.
O desembolso no fechamento será de R$ 240 milhões, e a operação depende de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).
“Fizemos a aquisição no dia 14 de julho. Já deu início o processo junto ao Cade, e agora seguimos aguardando a decisão”, afirmou Simões da Cunha, com expectativa de conclusão perto do fim do semestre e integração a partir de 2027.
Ele acrescentou que Moody’s e Fitch reafirmaram o rating da companhia em duplo A, com perspectiva estável, depois do anúncio.
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O ponto mais delicado é a dívida. Analistas do J.P. Morgan classificam a empresa como a mais endividada de sua cobertura em educação: 2,7 vezes dívida líquida sobre Ebitda nos últimos 12 meses, em base proporcional, indo a 2,9 vezes em 2027 com a FMU incorporada.
A companhia usa outra régua e fechou o semestre em 2,41 vezes, no número consolidado. O banco desconta a parte que pertence aos sócios minoritários da Inspirali, o braço de medicina, e defende que essa é a conta correta.
Para o CFO, a sequência é outra. “Isso nos dá condições de fazer um passo ousado como esse, onde a gente investe no crescimento, alavancamos a companhia, mas criamos condições de rapidamente desalavancá-la”, disse.
CEO: evasão no trimestre foi episódio pontual
O primeiro semestre da Ânima trouxe outro ponto de atenção: cerca de 38.000 alunos deixaram a graduação do segmento Core, que reúne os cursos fora da medicina. O J.P. Morgan associa o episódio à adaptação dos cursos híbridos ao novo marco regulatório do setor.
A CEO Paula Harraca dá explicação diferente, dividida em três partes. Houve mais calouros na base, e calouro evade mais que veterano. Existiu ainda o peso maior do semipresencial no mix, modalidade com evasão estruturalmente mais alta. E a companhia teve problemas operacionais na volta às aulas, com mudanças feitas ao mesmo tempo que geraram atrito na experiência do aluno.
“A evasão foi uma situação pontual, isso eu posso te garantir”, disse. Segundo a executiva, o indicador voltou aos patamares anteriores até o fim do semestre, e a empresa criou um projeto interno batizado de evasão zero.
Ela destaca que a receita cresceu mesmo com a saída de alunos, sustentada pela alta do valor médio da mensalidade.
Sobre a precificação do próximo ciclo, a companhia não abriu projeção. Harraca descreve a gestão de preços como granular, feita marca a marca.
“Ninguém está disposto a pagar mais pelo mesmo”, disse, citando como exemplo um curso de engenharia desenhado sob medida para a Gerdau (GGBR4) em uma unidade do grupo em Minas Gerais. “Não é ajuste de tabela de preço, é uma melhor proposta de valor.”
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