Erva-mate conquista mercado global enquanto produtores argentinos migram para o Brasil

As exportações argentinas cresceram com a popularização da bebida nos EUA e na Europa, mas a desregulação do setor e o excesso de oferta pressionam pequenos produtores, que têm buscado oportunidades de trabalho no Sul do Brasil

Nade Benvenutti, à esquerda, e seu marido colhem erva-mate em sua propriedade rural nos arredores de Ilópolis.
Por Andrew Rosati
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Bloomberg — Esqueça o café e as bebidas energéticas potentes. O chá de erva-mate rapidamente se transformou na fonte de cafeína preferida de consumidores preocupados com bem-estar muito além de suas origens sul-americanas. Vendido em latas, gaseificado e adoçado, de Nova York a Berlim, marcas como Yerba Madre, CLEAN Cause e Drink Weird conquistaram a geração Z. Até Barron Trump, filho do presidente dos EUA, Donald Trump, aderiu à tendência por meio de uma startup da Flórida.

O entusiasmo dos grandes centros urbanos pela bebida, tradicionalmente consumida ao longo de todo o dia pelos argentinos, ajudou a elevar as exportações de erva-mate do país em quase 35% em 2025 na comparação com o ano anterior.

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Para muitos pequenos produtores, porém, o momento é difícil depois que o presidente da Argentina, Javier Milei, desregulou os preços em meio a um excesso de produção, aplicando uma dura dose de sua “terapia de choque” econômica.

A estratégia agressiva reduziu a inflação, mas eliminou empregos, cortou salários e enfraqueceu a assistência do governo. Um número crescente desses produtores, pressionados pela crise, busca oportunidades melhores no Brasil.


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“Na Argentina, a situação está feia e só piorou desde que fui embora”, afirmou Isaías Mendoza enquanto serrava galhos de árvores de erva-mate nas colinas cobertas de neblina do sul do Brasil. “Até os dias ruins aqui são bons.”

Alta das exportações argentinas de erva-mate pouco reduz a oferta | Safras recordes pressionam o mercado (milhões de quilos)

A ofensiva desregulatória de Milei atingiu em cheio setores antes protegidos pelo Estado, de siderúrgicas a construtoras.

As dificuldades enfrentadas pelos produtores da bebida símbolo da Argentina — apreciada por nomes como o craque Lionel Messi e pelo falecido Papa Francisco — provocaram reação especialmente intensa, levando o Congresso a abrir uma investigação enquanto agricultores bloqueiam estradas em protesto contra os baixos preços em Misiones, a província em formato de polegar entre Brasil e Paraguai considerada o coração da produção de erva-mate.

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Depois de assumir o cargo em 2023, Milei retirou do Instituto Nacional da Erva-Mate (INYM) o poder de definir preços, como parte de uma ofensiva mais ampla contra a inflação. Também cortou subsídios e recursos públicos que sustentavam comunidades fora de Buenos Aires e de outros grandes centros.

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Os pequenos produtores foram atingidos pela queda dos preços da erva-mate e pelo aumento dos custos de serviços básicos, em contraste com grandes agricultores e empresas do agronegócio, beneficiados pela desvalorização do peso e pela redução da burocracia para exportações estratégicas, como carne bovina, soja e trigo.

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A inflação anual da Argentina já não está mais na casa dos três dígitos, mas ainda ultrapassa 30%, a segunda maior da América Latina.

“Em vez de fazer o que prometeu, ele está nos afundando”, afirmou Luis Benítez, de 32 anos, que se mudou de Misiones para o Brasil em janeiro. “Ele cortou tudo, até remédios para os idosos. Que tipo de presidente faz isso?”

Após anos de safras recordes, os mais de 10 mil produtores de erva-mate de Misiones perderam os preços garantidos, mas tiveram dificuldade para reduzir a produção. Isso porque a erva-mate não é uma commodity que responde rapidamente aos sinais do mercado, explica Raúl Karaben, produtor veterano.

Um trabalhador bebe chimarrão em uma cuia com bomba metálica.

As árvores de erva-mate levam anos para atingir a maturidade e produzem por décadas para atender uma demanda local constante e profundamente enraizada na cultura. “A decisão de plantar erva-mate é praticamente uma decisão para a vida toda”, afirmou Karaben. “É muito difícil para pequenos produtores abandonarem essa atividade porque investem nela todo o seu capital.”

A alta contínua das exportações desde 2022 pouco reduziu o excesso de oferta de folhas verdes e processadas, pressionando principalmente trabalhadores temporários e pequenos produtores.

Interrupção temporária

Milhares se mudaram para o estado do Rio Grande do Sul, onde o envelhecimento da população e a migração dos jovens para as cidades reduzem a oferta de mão de obra no campo. Essa dinâmica é evidente em Ilópolis, conhecida como a capital brasileira da erva-mate.

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“Muitos argentinos chegam apenas com a roupa do corpo”, afirmou Nelson Trentin, de 62 anos, dono de um bar local onde frequentadores mais velhos jogam sinuca. “Mas, sem eles, tudo pararia. Não há jovens aqui.”

Os produtores argentinos de erva-mate, em sua maioria trabalhadores temporários conhecidos como tarefeiros, e pequenos agricultores costumam buscar trabalho fora de Misiones durante a entressafra, mas líderes sindicais afirmam que o êxodo atual é extraordinário.

“Quase toda Misiones está no Brasil neste momento”, afirmou em abril Ana Cubilla, presidente do Sindicato Único de Obreros Rurales, entidade provincial que representa trabalhadores rurais.

A oportunidade também envolve riscos. Nos últimos anos, autoridades brasileiras resgataram dezenas de argentinos que trabalhavam informalmente em condições precárias no Rio Grande do Sul.

Impulso com mistura

Na Argentina, Uruguai, Paraguai e no sul do Chile e do Brasil, a erva-mate é tradicionalmente consumida com uma bomba metálica. Historicamente, o recipiente era uma cuia feita de porongo seco e ornamentado. Agora, consumidores no exterior passam a adotar a bebida em latas. Segundo estimativa da Data Bridge Market Research, o mercado global foi avaliado em cerca de US$ 1,6 bilhão em 2024 e deve alcançar US$ 2,4 bilhões até 2032.

Uma das bebidas prontas à base de erva-mate que chegam às prateleiras dos EUA é a SOLLOS. A empresa do sul da Flórida compra a matéria-prima no Brasil e vende cada caixa com 12 latas da bebida sabor abacaxi e coco por cerca de US$ 39.

Entre os fundadores da SOLLOS estão Spencer Bernstein, de 22 anos, e seu amigo de ensino médio, Barron Trump. A bebida “combina muito bem com vodca, tequila e rum”, afirmou Bernstein, morador de Palm Beach e fã de tênis e surfe. É “uma alternativa muito mais saudável e saborosa como misturador do que as opções disponíveis e oferece a energia necessária para uma noite de diversão”.

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Esse, porém, não é o impulso que os produtores de Misiones procuram. A região representa o “colapso de províncias que já eram inviáveis ou tinham problemas estruturais e que agora surgem todos de uma vez”, afirmou o economista Ramiro Albrieu, da Universidade de Buenos Aires.

Mesmo com as políticas de Milei rendendo à Argentina a terceira elevação da classificação de risco soberano em três meses, o desgaste aumenta. Em junho, 58% dos argentinos desaprovavam o presidente, segundo pesquisa LatAm Pulse, realizada pela AtlasIntel para a Bloomberg News, enquanto 62% classificavam a situação econômica do país como “ruim”.

Esse sentimento se reflete na situação dos produtores, muitos dos quais agora criam raízes no Brasil.

Os registros de argentinos para obtenção do CPF — exigido para emprego formal — saltaram de uma média de cerca de 8 mil por ano antes de 2022 para mais de 39 mil no ano passado, segundo a Receita Federal.

No Rio Grande do Sul, os recém-chegados ocupam vagas em pequenas cidades como Ilópolis, onde propriedades familiares frequentemente não encontram sucessores.

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“Nossa filha não quer saber disso”, afirmou Nade Benvenutti, de 60 anos, que produz erva-mate com o marido nos arredores de Ilópolis.

Outro produtor, Cláudir Franzon, emprega seis argentinos em sua fazenda próxima. “Sem os argentinos eu teria que abandonar boa parte disso”, afirmou.

Cesar Benítez, de 29 anos, mudou-se para o Brasil em 2024 e desde então conseguiu emprego em tempo integral em uma indústria de erva-mate em Ilópolis. Ele e a esposa agora são residentes brasileiros.

Embora considere as reformas de Milei necessárias, Benítez afirma que o presidente criou um sistema em que “quem não trabalha não come”. “Vai demorar para as coisas melhorarem.”

César Benítez, de 29 anos, mudou-se para o Brasil em 2024 e desde então conseguiu um emprego em tempo integral em uma fábrica de erva-mate em Ilópolis. Ele e sua esposa agora são residentes brasileiros.

Embora as reformas de Milei fossem necessárias, o presidente criou um sistema em que “quem não trabalha não come”, disse Benítez. “Vai levar um tempo para as coisas melhorarem.”

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