Corteva amplia investimento em defensivo agrícola em meio a pressão por saúde no setor

Empresa prepara 12 novos produtos e um pipeline de US$ 11 bilhões enquanto enfrenta pressão política, genéricos e tecnologias que reduzem o uso de pesticidas. CEO Luther Kissam argumenta que produtos químicos continuam essenciais para elevar a produtividade e alimentar o mundo

Empresa foi formada após a fusão da Dow Chemical com a DuPont em 2017 em meio a decisão de separar o negócio de sementes do de proteção de culturas (Foto: Kaiti Sullivan/Bloomberg)
Por Erin Ailworth
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Bloomberg — Luther C. Kissam IV fez uma pausa em um corredor com paredes de vidro na sede da Corteva em Indianápolis para contemplar um de seus lugares favoritos no campus de aproximadamente 81 hectares da empresa de proteção de culturas que ele comanda desde junho.

“Essas são todas as nossas estufas e instalações de P&D”, disse ele, apontando para a fileira de edifícios visíveis do outro lado de um lago cintilante e de um gramado verdejante. “É onde a mágica acontece.”

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No interior, funcionários vestindo jalecos, óculos de proteção e luvas realizam centenas de experimentos com compostos microbianos, biológicos e químicos. Eles analisarão 100 mil cepas este ano para identificar e testar possíveis soluções que ajudem a controlar ervas daninhas, doenças e pragas que, em alguns casos, devem afetar as culturas agrícolas daqui a 10 anos ou mais.


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“É tão emocionante ir até lá e ver que, sem tratamento, essa erva daninha simplesmente floresce, e, com tratamento, morre”, disse Kissam, com um sotaque arrastado que reflete suas raízes em uma comunidade de pequenos agricultores na Carolina do Sul.

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O ex-CEO da produtora de lítio Albemarle, de 62 anos, está à frente da Corteva neste momento em que a empresa se separa de seu negócio de sementes e genética, agora conhecido como Vylor , em meio a uma transformação mais ampla no setor.

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Sua missão é defender o uso de produtos químicos agrícolas em meio à oposição do movimento “Make America Healthy Again” (MAHA) e à pressão do governo Trump, que vem investigando os altos preços de insumos agrícolas, como sementes e fertilizantes.

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Os produtos de proteção de culturas de marca também enfrentam maior concorrência de genéricos mais baratos, à medida que agricultores em dificuldades financeiras em todo o mundo buscam economizar custos.

Luke Kissam, CEO da Corteva: Kissam confia no portfólio da Corteva, que inclui produtos inovadores como Reklemel e Haviza. (Foto: Kaiti Sullivan/Bloomberg)

Mais de 30% dos produtores entrevistados na América do Norte, Europa e América Latina afirmam que esperam migrar para produtos genéricos de proteção de culturas nos próximos dois anos, de acordo com o relatório Global Farmer Insights 2026 da McKinsey.

“Os produtores buscam gerenciar a volatilidade nos custos dos insumos de forma mais agressiva”, afirmou David Fiocco, sócio sênior da McKinsey, em entrevista, acrescentando que, como a qualidade e a disponibilidade dos genéricos melhoraram, os produtores “não precisam mais comprar os de marca para garantir o abastecimento”.

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Kissam — que está retornando ao cargo de CEO após uma batalha contra o câncer ter forçado sua aposentadoria da Albemarle em 2020 — demonstra pragmatismo em relação aos desafios e à forma como a empresa os enfrentará a partir de 1º de outubro, data em que a Corteva deve se separar oficialmente do negócio de sementes. Tanto a Corteva quanto a Vylor apresentaram, nesta terça-feira (15), atualizações sobre sua separação em eventos individuais para investidores.

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A divisão já está em andamento fisicamente dentro do campus de Indianápolis, onde fitas vermelhas de sinalização e cones de construção delimitam os espaços de escritório que estão sendo reservados para algumas das operações da Vylor.

O escritório de Kissam ainda está com pouca decoração. Uma moldura dourada com uma foto de sua esposa em seu vestido de noiva enfeita a mesa de Kissam, enquanto um pôster com lições do livro best-seller de Robert Fulghum, “Tudo o que realmente preciso saber aprendi no jardim de infância”, está encostado na parede, à espera de ser pendurado.

“Se você viver sua vida seguindo esta coisinha aqui, as coisas ficam muito mais fáceis”, disse Kissam ao apontar suas lições favoritas do livro, incluindo uma sabedoria sobre como raízes fortes geram plantas saudáveis.

A Corteva foi formada após a fusão da Dow Chemical com a DuPont em 2017. A decisão de separar o negócio de sementes do de proteção de culturas foi tomada para dar mais flexibilidade a ambas as unidades de negócios, especialmente porque o setor de pesticidas enfrentava uma concorrência mais acirrada.

Quando a cisão foi anunciada em outubro passado, as ações da Corteva caíram inicialmente, com analistas do Barclays afirmando: “vemos uma possível cisão resultando na deterioração de ambos os negócios”.

Embora as ações tenham se recuperado desde então — subiam até 2,1% na terça-feira e registram alta de cerca de 25% no acumulado do ano — alguns ainda se mostram cautelosos quanto às perspectivas da empresa de proteção de culturas, agora independente.

Horta da Corteva: empresa surgiu após a fusão da Dow Chemical com a DuPont em 2017.(Foto: Kaiti Sullivan/Bloomberg)

“Haverá um foco intenso no pipeline de produtos químicos”, afirmou o analista da Bloomberg Intelligence, Jason Miner, especialmente porque os investidores esperam que a Corteva lide com a possibilidade de uma redução no uso, à medida que os agricultores adotam novas tecnologias para obter maior precisão nas aplicações. “Se a intenção é compensar a ameaça à redução de volume com novas descobertas inovadoras e alterações no portfólio de produtos, isso precisa se refletir muito rapidamente em um pipeline significativamente maior.”

Enquanto isso, a Califórnia solicitou, na segunda-feira (14), a um tribunal federal que bloqueasse temporariamente a cisão, argumentando que a empresa ficará com ativos insuficientes para cobrir as responsabilidades relacionadas aos chamados “químicos eternos”.

“Nosso planejamento não mudou”, afirmou o CEO da Vylor, Chuck Magro, no dia do investidor, na terça-feira. “Vamos nos defender contra a alegação e pretendemos realizar a cisão.”

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A cisão ocorre em meio a grandes mudanças em todo o setor.

A Bayer, fabricante do herbicida Roundup, transferiu seus negócios de glifosato nos EUA para uma subsidiária, em uma medida vista como forma de limitar os riscos de litígios.

A FMC, que vem enfrentando pressões devido ao vencimento das patentes de produtos-chave, concluiu uma análise de opções estratégicas neste verão ao concordar em vender uma participação minoritária ao Tessenderlo Group.

E a empresa suíça de tecnologia agrícola Syngenta Group nomeou recentemente um novo CEO após perder seu ex-líder, Jeff Rowe, que foi para a Archer-Daniels-Midland.

Kissam, que até recentemente era sócio da Bernhard Capital Partners Management, afirmou que, pouco tempo depois de um comitê de seleção ter entrado em contato com ele para liderar a Corteva, ele se convenceu da proposta. Ele havia se aposentado da diretoria executiva da Albemarle mais cedo do que gostaria, a fim de cuidar de sua saúde e manter os tratamentos para o linfoma não-Hodgkin, diagnosticado em 2019.

Embora tenha permanecido ativo em conselhos de administração, ele afirmou que, com o tempo, sentiu falta do trabalho em equipe que surge ao se dedicar à resolução de problemas em grande escala.

“Os agricultores são o meu público”, disse Kissam ao explicar sua decisão de ingressar na Corteva. “Era a combinação certa, era o público-alvo certo — simplesmente parecia certo, então eu aceitei.”

Ele se sentiu especialmente atraído pelo portfólio de produtos da empresa, que inclui o Reklemel, para proteção contra vermes parasitas conhecidos como nematóides, e o Haviza, um fungicida que controla a ferrugem asiática da soja e cujo lançamento está previsto para 2028.

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“Temos o melhor portfólio em proteção de culturas”, afirmou Kissam, destacando um portfólio de produtos em desenvolvimento avaliado em US$ 11 bilhões até 2040, com 12 novos produtos a serem lançados na próxima década. “Não dependemos de nenhuma região específica do mundo, de nenhuma cultura específica ou de nenhuma inovação específica.”

A Vylor, por sua vez, afirmou que possui um portfólio avaliado em US$ 19 bilhões e lançará 12 novas plataformas tecnológicas na próxima década. A empresa destacou sua tecnologia de trigo híbrido no evento para investidores, com Magro afirmando que o produto “é, essencialmente, uma nova cultura global para nós”.

Kissam reconhece os desafios enfrentados pelo setor de proteção de culturas.

O governo Trump vem investigando há meses os fornecedores de insumos agrícolas por possíveis violações das leis antitruste, alegando que a consolidação no setor agrícola prejudicou a concorrência e levou a preços elevados para tudo, desde sementes até fertilizantes. Tarifas, conflitos geopolíticos e inflação também vêm elevando os preços e pressionando os agricultores.

Kissam disse que acredita que qualquer análise da proteção de culturas deve levar em conta não apenas os preços dos produtos, mas também o tipo de rendimento que esses produtos ajudam os agricultores a alcançar.

“Não é diferente de analisar a dívida pública sem levar em conta o PIB”, disse Kissam. “O setor agrícola está se esforçando ao máximo para ajudar o agricultor a aumentar a produtividade por acre.”

A Corteva deve lançar 12 produtos na próxima década. (Foto: Kaiti Sullivan/Bloomberg)

No que diz respeito ao movimento MAHA, que mantém ligações políticas e se opõe ao uso de pesticidas devido a preocupações com possíveis ligações a distúrbios do desenvolvimento, Kissam também é claro: as culturas seriam prejudicadas sem os tipos de produtos que a Corteva fornece — todos os quais passam por longas avaliações regulatórias de segurança.

“Os rendimentos simplesmente cairiam porque haveria mais pressão das ervas daninhas, mais pressão dos insetos e mais doenças”, disse ele. “Não seria possível alimentar nem abastecer o mundo.”

Kissam também reconheceu outras ameaças aos negócios da Corteva, incluindo avanços tecnológicos que ajudam os agricultores a aplicar pesticidas e outros produtos químicos com maior precisão, resultando em menor uso.

“Nos anos 80, eram pulverizados grandes volumes”, disse ele, relembrando quando fazia o monitoramento de culturas de algodão e soja no ensino médio. “Hoje, é surpreendente para mim a pequena quantidade de produtos químicos que é realmente aplicada.”

Kissam afirmou que todos esses desafios significam que há menos margem para erros, já que a Corteva atua de forma independente como empresa de proteção de culturas.

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Nesse sentido, ele está focado em melhorar a eficiência operacional da empresa e reduzir o tempo necessário para levar os produtos da ideia ao lançamento — atualmente, um prazo de 12 anos. Ele espera que a inteligência artificial desempenhe um papel importante, ajudando a empresa a prever padrões climáticos e de doenças que possam orientar seu trabalho, separar as boas ideias das ruins mais cedo e identificar obstáculos regulatórios antes que um produto fique preso no processo de aprovação.

Kissam afirmou que também vê grande potencial de crescimento no segmento de produtos biológicos, um segmento em expansão de produtos de proteção de culturas derivados de materiais naturais. A empresa espera lançar cinco novos produtos biológicos na próxima década.

O CEO afirmou que sua estratégia geral se resume a uma coisa: concentrar tempo e recursos nos melhores produtos, mesmo que isso signifique descartar algumas ofertas de desempenho inferior.

“Temos que oferecer uma solução que seja melhor do que as alternativas”, afirmou ele. “Se não conseguirmos competir e vencer com base na proposta de valor, não teremos espaço no mercado.”

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