Na era da IA, Red Hat avança sobre ‘middle market’ para acelerar crescimento em LatAm

Região que mais cresce na companhia há sete anos consecutivos tem o Brasil como principal motor; empresa controlada pela IBM procura se posicionar como a base fundacional para rodar modelos e agentes de IA

Red Hat

Bloomberg Línea — As grandes ondas tecnológicas seguiam um cronograma previsível: o mercado americano liderava, a Europa acompanhava e, anos depois, a América Latina e a Ásia integravam os novos recursos. Mas, para Matt Hicks, CEO da Red Hat, a inteligência artificial (IA) quebrou essa cronologia.

“Com a IA, é todo mundo ao mesmo tempo”, afirmou o executivo em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea durante o Red Hat Summit, em Atlanta, nos Estados Unidos, realizado em maio.

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A maturidade do setor financeiro brasileiro e a escala da economia nacional permitiram que empresas do país saltassem etapas.

“Não existe mais o gap de cinco ou dez anos. Temos clientes no Brasil usando o portfólio completo — do Linux ao OpenShift AI — no mesmo ritmo que o resto do planeta”, afirma Hicks.


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Especializada em soluções de software open source, a Red Hat atua nos bastidores de missões críticas no Brasil, como o Pix, do sistema de eleições, do ENEM e de Detrans pelo país, contribuindo para a modernização das práticas no setor. Também está por trás das transformações em grandes instituições, como Bradesco e Itaú.

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Fundada em 1993 por Bob Young e Marc Ewing, a empresa nasceu vendendo caixas e disquetes com o sistema operacional Linux. A grande virada histórica da Red Hat ocorreu no início dos anos 2000, quando descontinuou a sua versão clássica voltada para usuários finais e lançou o Red Hat Enterprise Linux (RHEL).

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Matt Hicks, presidente e CEO da Red Hat: Seja você um banco ou uma startup, você não quer perder a capacidade de pensar por conta própria. O open source permite que você mantenha esse controle

A empresa provou ao mercado corporativo que era possível lucrar e escalar oferecendo suporte, segurança e estabilidade para softwares de código aberto. A tese deu certo e, em 2019, a IBM (IBM) desembolsou US$ 34 bilhões pela companhia, na maior transação da história do mercado de software open source.

Hoje, os componentes invisíveis da companhia evoluíram para quatro grandes linhas de negócios que sustentam a infraestrutura moderna:

  • Infraestrutura Core (RHEL): O sistema operacional Linux empresarial que serve de base para 99% dos clientes da marca
  • Nuvem Híbrida e Conteinerização (OpenShift): A plataforma baseada em Kubernetes que unifica o desenvolvimento de softwares. Ela permite criar um código uma única vez e rodá-lo em servidor próprio ou qualquer nuvem, como Azure, da Microsoft, AWS, Oracle, Google e IBM
  • Automação de TI (Ansible): Ferramentas projetadas para eliminar tarefas manuais e repetitivas em redes e servidores complexos
  • Inteligência Artificial (OpenShift AI): O ecossistema voltado para treinar, testar e colocar modelos de IA em produção de forma segura e flexível.

A companhia tem mantido um crescimento de duplo dígito baixo nos últimos anos, um ritmo que o CEO pretende acelerar nesta nova era de IA. Em 2025, fechou com receita anual de US$ 7,3 bilhões, alta de 12,9% em relação ao ano de 2024.

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Hicks usa como argumento um posicionamento filosófico claro: a IA não deve ser uma “caixa preta” proprietária. O executivo divide o mercado em dois campos polarizados: os gigantes que exigem uma aposta “all-in” em seus sistemas fechados e o campo do código aberto, onde a Red Hat se posiciona como a aposta mais duradoura.

A escolha por modelos proprietários, segundo o líder, é perigoso para a soberania das empresas.

“A IA não é uma tecnologia mágica, é uma forma de pensar. É a amplificação do nosso pensamento”, explicou. “Eu não gosto da ideia de terceirizar o seu pensamento. Seja você um banco ou uma startup, você não quer perder a capacidade de pensar por conta própria. O open source permite que você mantenha esse controle."

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Os maiores motores de aceleração para a companhia devem ser a virtualização com OpenShift, permitindo que os clientes rodem suas Máquinas Virtuais (VMs) antigas e seus containers modernos juntos, na mesma plataforma, e inteligência artificial, terreno em que a Red Hat tem a ambição de tornar o OpenShift a fundação onde esses modelos de IA e agentes são construídos e executados.

Do Pix ao ‘middle market’: a corrida na América Latina

A América Latina, com o Brasil à frente, deve ter um papel relevante neste avanço da companhia. A região é onde a Red Hat mais cresce nos últimos sete anos consecutivamente, e “não é sobre uma base pequena”, disse à Bloomberg Línea David Farrell, Vice-Presidente Sênior da Red Hat para as Américas.

“Nós temos crescido na região há bastante tempo e estamos vendo o ritmo acelerar, passando de muito rápido para super-rápido, com muitos países apresentando um crescimento de três dígitos”, conta Farrell, que tem aumentado o número de viagens para a região, assim como outros executivos.

Segundo dados da empresa, que não revela as taxas percentuais de expansão, a alta na receita na região tem avançado mais do que o dobro da performance total da companhia nos últimos anos.

A demanda, construída por gigantes como Petrobras, Bradesco e Itaú, também tem sido impulsionada por uma mudança estrutural da companhia: o avanço sobre o middle market.

Com o modelo open source, pequenas e médias empresas brasileiras e hispânicas têm buscado competir ao adotar tecnologias que, em modelos proprietários, teriam preços proibitivos.

“Essa é uma das razões pelas quais, em mercados como o Brasil, o México ou a Argentina, estamos vendo essa enorme aceleração que não se limita apenas às grandes empresas, como o Bradesco ou a Petrobras”, diz Farrell.

“O nosso futuro reside não apenas em trabalhar com as grandes empresas — que são super importantes para nós —, mas também na aproximação com as pequenas e médias empresas."

Para manter as taxas de expansão, a região tem recebido novos investimentos da companhia. De acordo com Farrell, o volume de recursos cresce também em duplo dígito anualmente, acompanhado pelo aumento do número de funcionários internos e externos, nos parceiros.

“O Brasil tem tamanho continental. O interesse das médias empresas em adotar IA para ganhar competitividade está explodindo, e os parceiros são o nosso braço para entregar soluções prontas com custos significativamente menores do que os modelos proprietários”, afirma Sandra Vaz, country manager para o Brasil da Red Hat.

Sandra Vaz, country manager da Red Hat no Brasil

Na posição desde novembro de 2024, a líder levou consigo para o evento em Atlanta um número para lá de simbólico: o primeiro trimestre de 2026 consagrou-se como o primeiro trimestre melhor desempenho da história da subsidiária brasileira.

Segundo Gilson Magalhães, Vice-Presidente da Red Hat para a América Latina, o crescimento tem sido acelerado pelo OpenShift, tanto em valor nominal quanto em percentual. “Nós temos o RHEL-Linux com uma parcela muito grande, o OpenShift com outra grande parcela e o Ansible crescendo, que é um produto mais recente”, contou.

A manutenção deste ritmo estará na habilidade da Red Hat de traduzir os seus produtos para o mercado e também de mostrar aos clientes que, em um mercado onde a IA agêntica avança a passos largos e ameaça redesenhar estruturas inteiras de gestão, quem não simplificar a fundação das suas estruturas tecnológicas, corre o risco de simplesmente não sobreviver à próxima onda.

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