Lucro dos bancos da América Latina cresce 31% em 2025, diz Felaban; Brasil lidera

O setor bancário da região lucrou US$ 88,9 bilhões em 2025, impulsionado por juros elevados, expansão do crédito e valorização das moedas locais, mas analistas esperam uma desaceleração do crescimento neste ano

Cédulas de reais: o aumento dos lucros dos bancos em LatAm foi impulsionado por taxas de juros elevadas, crescimento nominal do crédito e valorização de várias moedas da região. (Foto: Andre Borges/Bloomberg)

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Bloomberg Línea — O setor bancário da América Latina registrou lucros de US$ 88,9 bilhões em 2025, um aumento de 31% em relação ao ano anterior, impulsionado por um ambiente de taxas de juros elevadas, crescimento do crédito em termos nominais e a valorização de várias moedas da região, de acordo com um relatório da Federação Latino-Americana de Bancos (Felaban).

Em uma nota compartilhada com a Bloomberg Línea, a Federação destacou vários fatores, como a prudência dos gestores das instituições bancárias, políticas de concessão de crédito “baseadas em evidências” e na previsão do risco financeiro, linhas de produtos claras e “um acompanhamento cuidadoso da carteira que evite possíveis dores de cabeça”.

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“Isso será sustentável se a economia continuar crescendo, se a renda das famílias se mantiver e se, além disso, o investimento privado encontrar melhores incentivos para se concretizar”, afirmou Felaban na nota. Caso contrário, “é previsível que esses resultados se moderem. O setor financeiro e bancário nunca fica alheio ao que ocorre com a economia”.

Em 2025, o Brasil liderou amplamente a região com um lucro líquido acumulado de US$ 45,8 bilhões, seguido pelo México, com US$ 17,1 bilhões.


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Mais atrás ficaram o Chile (US$ 5,8 bilhões), o Peru (US$ 4,2 bilhões) e a Colômbia (US$ 3,8 bilhões), consolidando-se como os cinco mercados com maiores lucros líquidos acumulados entre os países analisados.

Em seguida, vêm o Panamá (US$ 2,6 bilhões), a Argentina (US$ 2,1 bilhões), a República Dominicana (US$ 1,2 bilhão), a Guatemala (US$ 1,2 bilhão) e o Uruguai (US$ 1,1 bilhão)

O ano passado proporcionou um ambiente especialmente favorável para a geração de receitas do setor bancário da América Latina, onde o Brasil, o México e o Chile concentraram 77% dos lucros líquidos, segundo o relatório.

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A desinflação avançou mais lentamente do que o esperado, os bancos centrais reduziram as taxas de juros menos que o previsto e o crédito continuou crescendo em termos nominais.

Isso permitiu que os bancos mantivessem uma alta rentabilidade sobre seus ativos, enquanto o custo de uma parte significativa de seus depósitos se ajustou mais lentamente.

De acordo com o relatório da Felaban, a independência dos bancos centrais também continua sendo um pilar para preservar a estabilidade macroeconômica e reduzir a probabilidade de episódios de inflação elevada.

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“Em uma amostra comparável de grandes bancos, a margem líquida de juros da América Latina atingiu 5,5%, contra 3% dos bancos emergentes, excluindo a China”, disse à Bloomberg Línea o economista do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), Jonathan Fortun. “Essa diferença é grande demais para ser apenas cíclica”.

Fortun afirma que a região apresenta baixa penetração de crédito, mercados relativamente concentrados, altos custos para mudar de banco e uma base de depósitos predominantemente local.

“Tudo isso permite manter margens superiores às de outras regiões. O paradoxo é que o baixo nível de penetração financeira não impede a rentabilidade bancária, mas, ao contrário, ajuda a explicá-la”, comentou o analista do IIF.

Além disso, a valorização de várias moedas em relação ao dólar ampliou o crescimento dos lucros expressos nessa moeda.

O aumento registrado em 2025 reflete os lucros consolidados em dólares, incorporando, portanto, tanto o crescimento dos lucros em moeda local quanto a valorização de várias moedas da região ao longo de 2025.

Essa mesma variação cambial explica parte do aumento de 18% nos ativos bancários medidos em dólares, segundo a Fortun.

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O que está por trás dos maiores crescimentos?

Em moeda local, os maiores crescimentos ano a ano nos lucros foram observados na Colômbia (71%), no Equador (43%) e na Bolívia (42%), ao passo que o Uruguai foi o único país a registrar resultados negativos nesse período.

Para Fortun, esse resultado deve ser interpretado com cautela.

A análise aponta que o aumento de 71% nos lucros na Colômbia representa, em grande parte, uma normalização após dois anos de fraca performance e provisões extraordinárias.

“Nesse contexto, a recente melhora na qualidade dos ativos e as taxas novamente elevadas permitem que as margens continuem se expandindo ao longo de 2026”, disse ele.

No caso da Bolívia, o aumento de 42% no lucro não refletiria uma expansão equivalente da intermediação financeira.

Com taxas de juros ativas reguladas, alocações obrigatórias de carteira, escassez de moeda estrangeira e fraco crescimento real do crédito, boa parte da geração incremental de receitas provém de comissões, serviços de pagamento, operações transacionais e atividades relacionadas ao acesso e à gestão de moeda estrangeira.

Segundo o analista do IIF, os bancos podem apresentar lucros nominais crescentes ao mesmo tempo em que o canal tradicional de intermediação se enfraquece.

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Nesse contexto, “a rentabilidade contábil diz pouco sobre a capacidade do sistema de direcionar a poupança para o crédito produtivo”.

Em outros países da região, como a Argentina, as variações nos lucros continuam sendo determinadas pela taxa de câmbio e pela contabilidade em condições de alta inflação. Por isso, “o crescimento interanual do lucro revela mais sobre o ponto do ciclo do que sobre a solidez relativa de cada sistema”, observou ele.

Un cliente retira billetes de real brasileño en un cajero automático en São Paulo, Brasil, el martes 17 de diciembre de 2024.

Retorno sobre ativos e patrimônio líquido

A Felaban explica que a rentabilidade sobre os ativos (ROA) do setor bancário latino-americano ficou em média em 1,54% no final de 2025, acima do trimestre anterior (1,42%) e do nível observado um ano antes (1,44%).

Peru (2,5%), República Dominicana (2,2%) e Paraguai (2,2%) lideraram esse indicador na região.

Em contrapartida, Costa Rica, Honduras e Argentina apresentaram os níveis mais baixos (0,8%, 1% e 1%, nessa ordem).

Enquanto isso, a rentabilidade sobre o patrimônio líquido (ROE) do setor bancário regional ficou em média em 14,2% no ano de 2025, acima do trimestre anterior (13,9%) e do nível registrado um ano antes (13,9%).

A Argentina, embora tenha mantido um resultado positivo, foi o único país com ROE de um único dígito, enquanto os sistemas bancários da República Dominicana, do Uruguai e do Peru foram os que mais se destacaram (19,3%, 18,4% e 17,7%, respectivamente).

Fortun afirma que o mesmo contexto que impulsionou os lucros também começou a exercer pressão sobre a qualidade da carteira.

Assim, as altas taxas de juros, que ampliaram as margens financeiras, reduziram, ao mesmo tempo, a capacidade de pagamento dos devedores.

O relatório da Felaban indica que a carteira de créditos vencidos do setor bancário regional aumentou 46% em relação ao mesmo período do ano anterior até o quarto trimestre de 2025, totalizando US$ 94,5 bilhões.

Com isso, o indicador agregado de inadimplência subiu para 2,71%, contra 2,47% no ano anterior.

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Concentração regional de lucros

Fortun afirma que a concentração regional dos lucros é, acima de tudo, uma questão de tamanho das economias.

O Brasil e o México, as duas maiores economias da região, concentram cerca de sete em cada dez dólares dos ativos do sistema financeiro regional.

Para a Felaban, os sistemas financeiros e bancários têm um tamanho relativo que está em harmonia com o de cada economia, o nível de desenvolvimento financeiro, o nível de sofisticação dos serviços financeiros, o consumo das famílias, a formação bruta de capital fixo e o grau de aprofundamento dos mercados de capitais.

No Brasil, as altas taxas de juros ainda sustentam as margens, mas o aumento do custo de risco começa a se concentrar no setor bancário público e no crédito agropecuário.

“A resposta está se refletindo na composição do balanço, com menor apetite por crédito corporativo e uma migração para segmentos mais defensivos, como folha de pagamento e hipotecas”, afirmou Fortun.

No México, o crédito continua crescendo, principalmente devido ao consumo, mas os lucros perderam impulso durante o segundo trimestre, à medida que as provisões aumentaram e as margens se moderaram, de acordo com o IIF.

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A trajetória para 2026

Para o IIF, a questão para 2026 não é se o setor bancário latino-americano continuará sendo lucrativo, mas de onde virá essa lucratividade e quanto deverá ser reservado para cobrir a deterioração acumulada.

“A solvência agregada de 16,8%, as margens ainda elevadas e o financiamento predominantemente doméstico reduzem o risco de uma crise sistêmica”, afirmou Fortun. “No entanto, parece improvável que se repita um crescimento dos lucros de 31%”.

Segundo o analista, o lucro agregado terá cada vez menos peso, enquanto os indicadores antecipados, a formação de novas inadimplências, o custo de risco, as provisões, a composição da carteira de crédito, o custo dos depósitos e a evolução do capital terão cada vez mais importância.

O cenário central do IIF é uma normalização dos lucros, com uma dispersão muito maior entre países, carteiras e modelos de financiamento.

Em termos regionais, existem três trajetórias possíveis.

Uma flexibilização monetária ordenada reduziria as margens, mas aliviaria o custo do crédito, permitiria recuperar os volumes e estabilizaria a inadimplência.

Para Fortun, seria um cenário de menor crescimento dos lucros, mas de melhor qualidade.

Enquanto isso, um cenário de inflação persistente manteria as margens elevadas por mais alguns trimestres, embora à custa de um aumento na inadimplência e nas provisões. “Esse é provavelmente o risco mais relevante, pois prolongaria a aparência de solidez antes de prejudicar o resultado final”.

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Em um cenário de recessão acompanhada por desvalorizações cambiais, isso resultaria no ajuste mais severo, ao combinar menor oferta de crédito, perdas de qualidade e uma queda automática nos lucros medidos em dólares; no entanto, esse não é o cenário principal.

De qualquer forma, “as informações disponíveis para 2026 apontam para uma desaceleração, não para uma reversão. Para uma amostra de grandes bancos regionais, o crescimento do crédito, medido em dólares, cairia de 27% em 2025 para cerca de 17% em 2026, um número ainda elevado, mas fortemente influenciado pelas taxas de câmbio”, afirmou Fortun.

As projeções do analista do IIF indicam que a rentabilidade antes das provisões diminuiria ligeiramente, enquanto o custo do risco continuaria bem acima da média de outras regiões.

O capital de nível 1 também poderia cair cerca de meio ponto percentual, não por causa de prejuízos, mas devido ao crescimento dos ativos ponderados pelo risco, aos dividendos e à nova regulamentação. “A reserva continua sendo suficiente, mas já não está aumentando”, concluiu.

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