Bemobi quer agentes de IA para pagar contas e mira crescer quatro vezes só no Brasil

Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO Pedro Ripper fala sobre os cinco anos do IPO, os planos de lançar pagamento agêntico ainda em 2026, e a entrada em novas verticais, como saúde e condomínios

Pedro Ripper, CEO da Bemobi
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Bloomberg Línea — Depois de avançar nos últimos anos com um serviço para pagamentos de contas recorrentes, a Bemobi (BMOB3) tem investido para construir a infraestrutura digital que agentes autônomos de inteligência artificial (IA) vão usar para pagar as contas dos consumidores.

A companhia de tecnologia brasileira planeja lançar ainda este ano as primeiras experiências de pagamento agêntico, que vão permitir quitar contas diretamente em assistentes como ChatGPT, Claude e Gemini.

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“É difícil imaginar um mundo em que as pessoas paguem contas como pagam hoje”, afirmou Pedro Ripper, CEO e fundador da Bemobi, em entrevista à Bloomberg Línea. “Nós queremos construir a infraestrutura de pagamento de contas que todos os agentes vão usar.”

Do orçamento anual de cerca de R$ 60 milhões em capex, que a companhia planeja elevar cerca de 10% ao ano, uma fatia crescente tem sido direcionada à inteligência artificial, segundo ele.


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O próprio executivo disse que já delega parte da sua vida financeira a um agente de IA que roda “no modelo da moda da semana” para revisar contas, identificar cobranças fora do padrão e definir o que será pago em cada instituição.

“Nós estamos obcecados por esse assunto. Pode ser que eu erre o timing e chegue cedo demais, mas não vamos errar a tendência”, disse Ripper.

Hoje, de acordo com números de mercado, entre 10% e 15% das contas não são pagas por esquecimento ou confusão das pessoas com as datas.

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Segundo o CEO, a companhia tem boa parte das competências para desenvolver os trilhos necessários para o projeto, embora não descarte aquisições no meio do caminho para acelerar o processo de construção.

“É um produto que tem muito valor agregado. Mas as ferramentas ainda não são amigáveis o suficiente. Temos que criar um arcabouço de confiança e segurança para os agentes não saírem pagando coisa que não devem. Essa estrada tem que ser pavimentada ainda”, afirmou.

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“Pavimentar” novos caminhos tem sido parte da trajetória da Bemobi nos últimos anos. Antes conhecida como “Netflix dos Apps”, a tech brasileira tem feito uma migração para especializar em digitalizar o pagamento de contas recorrentes de setores como telecom, utilities, educação e saúde.

A empresa está completando cinco anos de listagem na B3 e está entre as poucas que abriram capital nesse período com desempenho positivo, embora a maior parte dos ganhos tenha ocorrido nos últimos dois anos. Outros negócios que fizeram IPO na mesma janela, no período entre 2020 e 2022, viram os seus papéis caírem.

Ações da Bemobi (BMOB3)

28.55BRL+3.22%
+0.89 BRL
1D
1M
3M
YTD
1A
3A
5A
Os dados podem ter atraso de ate 20 minutos.

A mudança de rota

Para sobreviver às mudanças de mercados e da macroeconomia, a empresa reinventou o seu modelo de negócios, antes baseado em pagamentos por jogos de celulares.

Enfrentou no período a quebra de seu maior cliente, a recuperação judicial da Oi, a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois importantes mercados à época, e um ciclo de elevação de juros logo após a estreia na bolsa.

Em 2021, cerca de 80% da receita vinha da distribuição e do pagamento de aplicativos de celular. Hoje, pagamentos e SaaS somam 70% da receita líquida, e a companhia atende 16 das 20 maiores empresas de serviços recorrentes do Brasil.

Entre 2020 e 2025, a receita quase triplicou, de R$ 241 milhões para R$ 729 milhões, uma taxa de crescimento anual composta de 25%. O Ebitda ajustado mais que duplicou, para R$ 245 milhões, enquanto o lucro líquido quadruplicou, para R$ 161 milhões.

A companhia distribuiu R$ 467 milhões em dividendos e recompras desde o IPO, 55% dos recursos líquidos captados na oferta, de R$ 850 milhões.

“Quando dizemos que processamos apenas 3,8% do TPV dos nossos clientes, é que são indústrias que ainda não terminaram de se reinventar na maneira como elas lidam com os clientes. Têm hábitos que não mudam do dia para a noite, dos próprios consumidores”, afirmou. “Brincamos que um pedaço grande do nosso crescimento não vem só de clientes novos, mas vem dos clientes atuais.”

O TPV somou R$ 3,9 bilhões no segundo trimestre de 2026, alta de 54% na comparação anual, e a receita líquida consolidada cresceu 30%, para R$ 227,3 milhões.

Em relatório de 14 de setembro, a XP Investimentos reiterou recomendação de compra, elevando o preço-alvo de R$ 31 para R$ 32,5 por ação, potencial de alta de 21% sobre a cotação de R$ 26,9, além de dividend yield projetado de 9% para 2027.

Os analistas destacam o perfil anticíclico do negócio e o histórico de alocação de capital, e apontam que o preço atual embute uma expectativa de crescimento conservadora diante do baixo nível de penetração da base de clientes e de frentes como saúde, condomínios e a própria Paytime Enterprise.

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Novas aquisições e expansão internacional

A saúde é a vertical mais recente a ganhar tração, com clientes como Hapvida, Qualicorp e a Unimeds regionais. “Já fechamos outro grupo enorme de saúde que vamos comunicar nas próximas semanas”, diz Ripper.

A companhia também deu o primeiro passo em condomínios, com a APSA como cliente-âncora, vertical que o CEO descreve como ainda “em testes”.

A aquisição da Paytime, fechada em dezembro passado, mira o mercado B2B2B de ecossistemas e marketplaces, como franquias e os mercados de distribuição de combustíveis e fabricantes em cadeias como autopeças.

“Tudo indica que ano que vem vai ser um ano bom para a Paytime. Isso ainda com poucas sinergias de fato capturadas. Diria que 90% do resultado deste primeiro semestre é mérito da Paytime”, afirmou o CEO. “Mas diria que os grandes clientes são ciclos de vendas mais longos e que devem acontecer em 2027 combinando a competência das duas empresas.”

Enquanto isso, a empresa continua a observar o mercado em busca de novas aquisições, após as seis feitas desde o IPO. No segundo trimestre, encerrou com R$ 328 milhões em caixa.

As teses incluem acelerar a entrada em novas verticais, funcionalidades, como quando adquiriu uma empresa para obter a licença de Instituição de Pagamento (IP), produtos de IA e ainda a expansão em outros países. Hoje, 35% da receita é originada fora do Brasil.

“Em soluções de pagamentos, lá fora deve ser 2% ou 3%”, disse. “Podemos crescer bastante lá fora, o M&A pode acelerar, mas acho que esse mix de Brasil ser o grosso de receita vai continuar sendo verdade por, no mínimo, uns dois anos. O Brasil tem muito espaço para crescimento. A Bemobi pode mais do que quadruplicar só no Brasil sem fazer nada internacional”, afirmou.

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