Bloomberg Línea Brasil — No quartel-general da Lovable, em Estocolmo, uma pilha de sapatos na entrada não é apenas um costume sueco, é um lembrete físico de uma cultura que prioriza o pragmatismo sobre o protocolo.
Foi nesse ambiente que Fabian Hedin, cofundador e CTO da startup, moldou a tese que atualmente defende diante de uma plateia em Las Vegas, nos Estados Unidos. Na corrida da inteligência artificial, a aderência rígida a um plano de negócios é o caminho mais rápido para a obsolescência.
Em um mercado que se move em escala de horas, a Lovable emergiu como um estudo de caso sobre agilidade radical. A startup sueca, fundada nos últimos dias de 2023, foi avaliada em US$ 6,6 bilhões em dezembro de 2025 ao levantar US$ 330 milhões em uma rodada de investimentos liderada pela CapitalG e Menlo Ventures, fundo da Alphabet.
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A Lovable é um dos principais nomes impulsionando o “vibe coding”, tecnologia que permite que os usuários, mesmo sem conhecimento de linhas de código, descrevam um projeto em linguagem simples e tenham um programa completo feito por IA.
Para Hedin, o conceito tradicional de roadmap anual foi substituído por uma mentalidade de pivotagem constante, onde decisões técnicas complexas são reavaliadas constantemente.
“É muito difícil fazer um roadmap de 12 meses, tanto do lado técnico quanto do lado do produto. Existe uma frase que diz que ‘o planejamento é tudo, o plano é inútil’”, afirmou, usando uma expressão atribuída a Dwight D. Eisenhower, 34º presidente dos EUA. “Então, pode valer a pena fazer algum planejamento, mas você deve esperar não ter que segui-lo. E isso é algo que fazemos questão de enfatizar internamente, na verdade.
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Para ele, o mercado de IA é tão dinâmico que as decisões técnicas e de produto são revistas não mensalmente, mas em escalas de 15 horas.
“Na Lovable, se algo fazia sentido há dois meses, mas hoje as coisas mudaram, nós simplesmente mudamos. Não forçamos a equipe a seguir um erro só porque ele estava no papel”, disse no Google Cloud Next 2026.
Apesar da velocidade com a qual as transformações acontecem, o empreendedor diz que é importante ter clareza sobre o propósito do negócio. A missão da Lovable — permitir que qualquer pessoa, os “99%” que não sabem programar, transforme ideias em realidade — permanece o único elemento não negociável do plano original.
De volta ao básico
Nem sempre essa agilidade foi a regra. O empreendedor sueco contou uma lição dolorosa aprendida no início da jornada, quando a equipe se deixou seduzir pelo hype das capacidades futuras da IA.
Na época do GPT-3.5, a Lovable investiu meses de engenharia na construção de um sistema ultra-avançado de orquestração de agentes. “Estávamos vivendo demais no futuro, apostando em eventos externos que ainda não tinham acontecido”, revelou.
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Como resultado, a startup criou um produto que não atendia às necessidades imediatas dos clientes e que consumia recursos vitais. A decisão difícil veio logo em seguida: descartar meses de código e “voltar ao básico”.
“Foi uma decisão emocional forte. Tivemos que dizer aos engenheiros que estávamos errados e que iríamos construir o que faz sentido hoje”, disse.
A história serviu como exemplo para a plateia, formada por novos empreendedores. Por um lado, traduz o conselho de criar valor hoje para os negócios, sem esperar o próximo modelo “perfeito”, investindo em conectar as capacidades existentes de forma criativa para resolver dores reais do mercado.
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E, por outro lado, a recomendação de parar com o desenho de arquiteturas para daqui a três anos. Em um ecossistema que recebe atualizações profundas a cada trimestre, construir infraestruturas rígidas é um convite ao desperdício.









