Petrobras e Prio lideram ganhos de petroleiras na América Latina em 2026

Rali do petróleo no ano eleva valor de mercado de petroleiras na região, mas impacto varia conforme hedge, regulação e exposição ao Brent

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Bloomberg Línea — A alta do preço do petróleo, impulsionada pela escalada do conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, reconfigurou o mercado energético global e elevou expressivamente a cotação das principais petrolíferas latino-americanas.

No acumulado do ano, o Brent subiu cerca de 60%, um movimento que já se traduziu em uma valorização de mercado de aproximadamente US$ 80 bilhões entre as empresas do setor listadas nos Estados Unidos.

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A reação não foi uniforme. Enquanto algumas empresas aproveitam plenamente a alta do petróleo, outras enfrentam limitações decorrentes de operações de cobertura, regulamentação ou fatores macroeconômicos. No geral, o movimento reflete uma clara rotação em direção a ativos do setor energético nos mercados emergentes, em um contexto de oferta restrita e fluxos globais em busca de exposição ao petróleo.

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O efeito já é visível nos números. A capitalização de mercado agregada do grupo analisado passou de US$ 141,8 bilhões no final do ano passado para US$ 221 bilhões, consolidando uma reavaliação do setor na região.

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Petrobras e PRIO lideram a alta

A principal beneficiária do cenário atual é a Petrobras (PBR), cuja capitalização de mercado subiu de US$ 74,9 bilhões para cerca de US$ 131 bilhões, o que representa uma criação de valor superior a US$ 56 bilhões, acompanhada de um retorno de cerca de 80% no ano.

O movimento reflete sua alta sensibilidade ao preço do petróleo. Os analistas do Bank of America (BAC) afirmam que “o novo cenário de preços do petróleo é mais favorável para a Petrobras do que para suas concorrentes, uma vez que alivia as preocupações com o endividamento e melhora a geração de caixa”.

Nesse cenário, estimam retornos de fluxo de caixa para o acionista de 18% e 16% em 2026 e 2027, acima da média do setor.

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Essa mesma dinâmica favorece a PRIO (PRIO3), cujo valor de mercado passou de cerca de US$ 6,63 bilhões para mais de US$ 10,8 bilhões, com um retorno superior a 60%. Segundo o mesmo banco, a empresa apresenta “um perfil de geração de caixa livre excepcionalmente atraente, dentro do universo de ações da América Latina”, com rendimentos estimados de até 26% até 2028.

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O suporte estrutural decorre da própria evolução do mercado petrolífero. O Bank of America elevou sua previsão para o Brent para US$ 92,5 por barril em 2026 e US$ 78 em 2027, o que reforça a tese de um cenário de preços elevados por mais tempo.

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O contexto dos fluxos financeiros também tem sido determinante. O banco destaca que “a América Latina registrou entradas de US$ 6,6 bilhões no ano, com investidores estrangeiros concentrando-se em setores de grande capitalização, como o de energia”, o que amplifica o impacto em empresas como a Petrobras, que tem um peso relevante nos índices regionais.

A Vista e a YPF impulsionam a segunda onda de crescimento

Além do Brasil, a alta do petróleo gerou uma segunda leva de vencedores, liderada pela Vista Energy (VIST) e a YPF (YPF).

A Vista elevou sua capitalização de mercado de cerca de US$ 5 bilhões para mais de US$ 7,1 bilhões, com um retorno próximo a 40%, impulsionado pelo crescimento operacional e pelas aquisições.

Tasso Vasconcellos e João Barichello, analistas do UBS, acreditam que o impulso provavelmente continuará, dada a forte exposição da Vista ao Brent entre as empresas da América Latina, em um cenário em que cada variação de US$ 5 por barril implica um impacto de US$ 200 milhões no EBITDA anual.

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No Citi (C), a abordagem é semelhante. O analista Andrés Cardona mantém “uma visão positiva sobre a Vista, dada sua exposição ao petróleo de Vaca Muerta e o recente aumento nas perspectivas de preços do petróleo bruto”, com um EBITDA projetado de US$ 2,7 bilhões em 2026, com base em um preço do Brent de US$ 83.

Paralelamente, a YPF apresenta uma evolução mais moderada no mercado, com uma capitalização que passou de US$ 14,16 bilhões para cerca de US$ 16,97 bilhões, mas com fundamentos que apontam para uma melhora estrutural. O Citi projeta um EBITDA de US$ 7 bilhões em 2026 e destaca “fatores positivos significativos para o projeto Argentina GNL, que poderia chegar à decisão final de investimento no final de 2026 ou início de 2027”.

O contexto global também é favorável. Cardona destaca que “a disrupção da oferta global e o papel da Argentina na diversificação fortalecem o posicionamento do projeto de GNL”, em um cenário em que a geopolítica está redefinindo os fluxos energéticos.

Vencedores parciais

Nem todas as empresas estão aproveitando a recuperação com a mesma intensidade. A Ecopetrol (EC), por exemplo, elevou sua capitalização de US$ 20,6 bilhões para US$ 29,4 bilhões, com um retorno de 42%, mas enfrenta restrições estruturais.

“Mesmo com preços mais altos do petróleo, projetamos que a empresa gere apenas 6% de retorno sobre o fluxo de caixa em 2026, ficando abaixo de seus concorrentes”, alertam os analistas do Bank of America.

A isso soma-se o contexto do país. A mesma análise aponta que“a Colômbia apresenta um contexto macroeconômico desafiador para o setor de petróleo e gás, bem como uma produção upstream em declínio e uma reposição de reservas mais fraca”, fatores que limitam a sensibilidade ao Brent, em comparação com o Brasil ou a Argentina.

Essa desconexão é acentuada por decisões de política pública. No mercado colombiano,“os preços da gasolina diminuíram ao longo do ano, enquanto o diesel registrou apenas aumentos marginais”, num contexto emque as autoridades buscam conter o impacto inflacionário do petróleo.

O resultado é um perfil menos sensível às oscilações do ciclo do petróleo. Embora a alta do Brent melhore as receitas e o EBITDA, com revisões de até 25% em 2026-2027, a capacidade de traduzir esse cenário em geração de caixa e retornos para os acionistas permanece limitada em comparação com outros produtores da região.

O caso da Brava Energía (BRAV3) reflete outra limitação: os contratos de cobertura. Embora suas ações tenham subido cerca de 48%, os analistas destacam que “a empresa cobriu uma parte significativa de sua produção e, portanto, não aproveitará plenamente o cenário de preços mais altos do petróleo”.

Uma situação semelhante afeta a PetroRecôncavo (RECV3), onde as operações de hedge limitam o potencial de alta. Segundo Regis Cardoso, analista da XP, “a cada aumento de US$ 10 por barril no Brent, isso representa uma perda financeira significativa devido às operações de hedge”.

No Brasil, além disso, o impacto da alta dos preços foi atenuado pela intervenção estatal. Cardoso explica que “o governo, a Petrobras e as empresas de exploração e produção dividiram o ônus de conter a volatilidade, mas ainda obtêm um lucro líquido substancial com os preços mais altos do Brent”.

Signage at the Petrobras Paulinia Replan Refinery in Paulinia, Sao Paulo state, Brazil. Photographer: Maira Erlich/Bloomberg

As medidas incluem subsídios, reduções fiscais e controles indiretos de preços, o que reduziu a transmissão do aumento internacional aos consumidores. De acordo com a mesma análise, “as medidas reduzem o preço de paridade de importação e limitam o teto de preços da Petrobras”, afetando parcialmente a captura de valor no setor downstream.

Fluxos

A alta não se deve apenas aos preços, mas também aos fluxos. A percepção de escassez de ativos passíveis de investimento no setor concentrou o capital em poucas empresas.

O Bank of America destaca que “as opções de investimento no setor de petróleo e gás continuam limitadas, reduzindo o leque de oportunidades a apenas algumas empresas com liquidez suficiente”.

Esse fenômeno se reflete no desempenho relativo das ações. Enquanto a Petrobras sobe cerca de 80%, as empresas midstream como a Vibra Energia (VBBR3) e a Ultrapar Participações (UGPA3) avançam cerca de 40% e 54%, beneficiando-se de distorções nos preços domésticos.

Em contrapartida, a Transportadora de Gas del Sur permanece praticamente estável.

Nesse cenário, a evolução do Brent continua sendo a variável dominante. Os modelos de mercado sugerem que a normalização dos fluxos energéticos pode levar algum tempo, mantendo uma tendência de alta nos preços.

A sustentabilidade dessa recuperação dependerá de vários fatores: a duração do conflito, a política de subsídios em mercados-chave como o Brasil e a capacidade das empresas de transformar preços em fluxo de caixa.

Enquanto isso, o mercado já reajustou sua avaliação do setor, com a América Latina emergindo como uma das principais beneficiárias do novo ciclo energético.