Bloomberg — A Collective Arts, uma cervejaria de Hamilton, província de Ontário, no Canadá, aconselha seus clientes a beber “com criatividade”, oferecendo uma IPA da Costa Oeste chamada “Ransack the Universe” e uma porter com o rótulo “Stranger than Fiction”. A guerra comercial entre os Estados Unidos e o Canadá também está forçando a cervejaria artesanal a pensar fora da caixa.
O CEO Matt Johnston afirma que as tarifas e os boicotes ao álcool obrigaram a empresa a reconsiderar como atender ao mercado norte-americano, que representava quase 20% de seus negócios.
Uma opção é transferir parte da produção para os EUA. Outra consiste em “direcionar investimentos e energia para onde temos a base mais sólida — nosso mercado interno canadense e outros mercados de exportação que fazem sentido para nós”, afirmou ele.
“O objetivo é um negócio que seja resiliente à política comercial ou a qualquer mercado específico”, afirmou Johnston.
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As cervejarias artesanais nos dois países estão se adaptando a uma realidade que poucos imaginavam desde que o presidente Jimmy Carter assinou uma lei em 1978 legalizando a fabricação caseira de cerveja e os pubs canadenses começaram a surgir alguns anos depois: barreiras comerciais que dividem o mercado norte-americano.

As remessas de cerveja através da fronteira terrestre mais longa do mundo, há muito em declínio, praticamente cessaram desde que algumas províncias canadenses deixaram de estocar cerveja, vinho e destilados americanos nas lojas, e o presidente americano Donald Trump retaliou proibindo as importações de muitas bebidas alcoólicas do Canadá em 29 de setembro.
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A proibição foi apenas o mais recente de uma série de obstáculos que têm deixado as indústrias de cerveja artesanal dos EUA e do Canadá — que somam quase US$ 30 bilhões — lutando para lidar com custos mais elevados e mudanças na demanda.

Muitas pequenas cervejarias canadenses e americanas não enxergam as distinções nacionais na visão de soma zero de Trump sobre o comércio, em que os ganhos de exportação de um país ocorrem às custas do importador. As microcervejarias de ambos os lados da fronteira há muito adotam uma abordagem mais colaborativa.
“Há um sentimento entre os fabricantes de cerveja de que a maré alta levanta todos os barcos”, disse Bart Watson, presidente e CEO da Brewers Association, um grupo com sede em Boulder, estado americano do Colorado, que representa cerca de 9,5 mil fabricantes independentes de cerveja americanos.
Como a fatia da indústria artesanal no mercado geral de cerveja é de meros 13%, “se for possível aumentar essa participação, então o bolo cresce para todos”, afirmou ele.
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Esse espírito de solidariedade, em vez de competitividade, está se desgastando na disputa comercial que eclodiu este ano entre Trump e o primeiro-ministro canadense Mark Carney.
Ambos os líderes demonstraram otimismo quanto à possibilidade de um acordo ser alcançado em breve, e as autoridades canadenses parecem ainda mais confiantes de que a vantagem está mudando para o seu lado, após o partido de Trump ter perdido o controle da Câmara e do Senado a partir do início de janeiro, em uma eleição de meio de mandato centrada em tarifas e outras pressões sobre os consumidores.
Carney afirmou na terça-feira (03) que os EUA estão “exigindo menos” e “oferecendo mais” nas recentes negociações comerciais.
Uma trégua não poderia chegar em melhor hora para os fabricantes de cerveja, cujas cadeias de abastecimento interconectadas foram efetivamente interrompidas.
“Anteriormente, nós, cervejeiros, considerávamos nosso sistema como um sistema norte-americano”, disse Watson, “e esse não é o caso no momento”.
‘Danos colaterais’
A confusão levanta algumas questões óbvias, entre elas: por que produtos como as cervejas artesanais deveriam ser alvo de uma disputa comercial que gira, em grande parte, em torno da segurança econômica dos países e da repatriação de grandes indústrias, como a siderúrgica?
Christine Comeau, diretora executiva da Associação Canadense de Cervejeiros Artesanais, afirmou que os pequenos operadores estão intrinsecamente enraizados nas comunidades locais. O transporte de cerveja por longas distâncias é caro. É difícil para os pequenos fabricantes redirecionarem suas vendas para mercados distantes, onde as regulamentações são abundantes.
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Em uma guerra comercial, as pequenas empresas familiares tornam-se “danos colaterais”, disse ela.
“Se as conexões transfronteiriças desaparecerem, ambos os países correm o risco de perder mais do que o acesso à cerveja um do outro”, disse Comeau. “Eles também perdem oportunidades de turismo cervejeiro, parcerias comerciais, compartilhamento de conhecimento e os relacionamentos que ajudaram a construir um vibrante setor de cervejas artesanais na América do Norte.”

Manter esses laços é importante porque o comércio de cerveja entre os Estados Unidos e o Canadá vem sofrendo um declínio constante há quase duas décadas, segundo dados da UN Comtrade, à medida que as grandes cervejarias se consolidaram para formar gigantes como a Anheuser-Busch InBev e a Molson Coors Beverage.
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O México é, de longe, a maior fonte de importações de cerveja dos EUA, respondendo por cerca de 85% do total. O Canadá ocupa o sexto lugar, atrás dos pesos-pesados europeus: Bélgica, Países Baixos, Irlanda e Alemanha.

Embora a proibição de importações do Canadá seja dolorosa, um golpe mais persistente para as cervejarias americanas é o custo elevado do alumínio utilizado na fabricação de latas, uma vez que a maior parte do metal bruto provém de usinas canadenses.
A Associação de Cervejeiros calcula que as tarifas de 50% impostas por Trump sobre as importações de alumínio poderiam custar aos consumidores até 8,2 centavos a mais por lata, dependendo das decisões de precificação nos níveis das cervejarias, atacadistas e varejistas.
Algumas cervejarias independentes podem absorver esses aumentos de custo em suas margens de lucro, disse Watson. “No entanto, é improvável que nossos membros, que são pequenas empresas, possam absorver esses custos para sempre”, afirmou ele, acrescentando que quase mil pequenas cervejarias fecharam nos últimos dois anos, sendo a pressão sobre os preços uma das principais razões para as falências.
Para as cervejarias artesanais do Canadá, a divisão também representa uma oportunidade de pressionar o governo a tomar medidas para torná-las mais resilientes e competitivas, por meio da modernização da estrutura tributária federal e da remoção de barreiras ao comércio entre as províncias, afirmou Comeau.
“A diversificação comercial é importante, mas o fortalecimento do ambiente de negócios doméstico também o é”, afirmou ela.
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‘World Beer Cup’
Watson afirmou que os boicotes à cerveja colocam em dúvida a futura participação do Canadá em eventos como a “World Beer Cup”, realizada anualmente pela Brewers Association. A competição, realizada em abril, atraiu mais de 1.600 participantes de 50 países, sendo que os EUA, o Japão, o Canadá, a China e o Brasil foram as cinco nações com maior número de inscrições.
Caso a disputa entre Washington e Ottawa se agrave, o pior cenário para os fabricantes de cerveja artesanal seria a utilização da cevada como arma, um ingrediente fundamental para a produção de malte cultivado em ambos os países e que ilustra sua co-dependência. Os EUA foram o terceiro maior mercado para as exportações canadenses de cevada em 2024 e o maior comprador de exportações de malte, de acordo com a Comissão de Desenvolvimento da Cevada de Saskatchewan.
“Se isso fosse interrompido, seria — não sei qual a palavra certa — catastrófico para as pequenas cervejarias em termos de aumento de preços e disponibilidade”, afirmou Watson.

Para Johnston, da Collective Arts, o setor enfrenta muitos desafios além da disputa comercial. Sua empresa está mudando seu portfólio de produtos para atender aos gostos dos consumidores por cerveja sem álcool, bebidas saudáveis, energéticas e água voltadas para compradores preocupados com a hidratação.
“Também estamos nos diversificando, não apenas geograficamente, mas também por categoria”, afirmou ele.
--Com a colaboração de Joel Arbaje.
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