Bloomberg — Os produtores de vinho da Califórnia, que enfrentam uma queda acentuada no consumo de vinho, têm feito experimentos para a produção de uma versão americana da tequila.
Diante das restrições hídricas impostas pelo estado e do excesso de oferta de uvas, o agricultor de segunda geração Stuart Woolf é um dos que têm apostado no agave. Ele plantou cerca de 550 acres ao longo de quatro anos em suas terras em Huron, na Califórnia. Ele planeja acrescentar mais 150.
O gosto da Califórnia pela tequila foi “uma das razões pelas quais fiquei tão encantado com o plantio dessa cultura”, afirmou ele. “Temos 40 milhões de pessoas aqui, 40% das quais se identificam como latinas ou hispânicas. Este é um ótimo lugar para tentar introduzir uma nova categoria de bebidas destiladas à base de agave.”
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A planta espinhosa de cor azul-esverdeada — usada há séculos no México para produzir tequila e mezcal — é mais barata de plantar e cultivar do que as uvas. Além disso, requer menos água e manutenção. Isso é fundamental para Woolf, que busca usos alternativos para os 30.000 acres de sua fazenda, grande parte dos quais está sujeita a limites rigorosos de uso de água.
“Essa é uma maneira de eu proteger empregos, continuar a cultivar nossas terras e manter as propriedades na minha família”, disse Woolf. “Isso é, de certa forma, o legado da nossa família, e eu queria preservá-lo e protegê-lo.”
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Apesar dos custos mais baixos e do menor consumo de água, trata-se de uma iniciativa arriscada. Há muito pouca capacidade local de destilação na Califórnia, e o conhecimento sobre o processamento do agave ainda é limitado.
Enquanto isso, uma recente queda nos preços do agave no México seguiu o mesmo ciclo de expansão e recessão observado com as uvas. As plantas de agave crescem lentamente e geralmente são colhidas cinco anos ou mais após o plantio. Muita coisa pode mudar nesse período.
Além desses fatores, qualquer bebida alcoólica produzida a partir do agave da Califórnia não pode ser chamada de tequila ou mezcal, devido às regras de denominação de origem. Portanto, uma dúvida é se os consumidores aceitarão uma bebida destilada de agave que não seja mexicana.
Os produtores de bebidas da Califórnia afirmam que a tequila é uma inspiração, mas buscam dar seu próprio toque ao seu produto a base de agave. Isso está levando a experimentações no processo de produção para criar algo novo.
“Não estamos presos a nenhuma tradição, nem a nenhuma forma específica de produção”, afirmou Gian Nelson, cofundador da Jano Spirits, com sede em Napa.

Steve Vierra, cientista do solo e consultor na região vinícola da Califórnia há quase 30 anos, afirmou que o agave é “uma cultura puramente especulativa” que os produtores de bebidas destiladas não compram antecipadamente. “Não há nenhuma destilaria oferecendo contratos de pré-plantio.”
Mas a situação parece ainda pior para os viticultores. As vendas de vinho recuaram 5% no ano passado, a maior queda entre as bebidas alcoólicas, de acordo com dados da Circana compilados pela Bloomberg Intelligence. A categoria, que gera mais de US$ 15 bilhões anualmente por meio dos canais de varejo monitorados pela Circana, não cresce desde pelo menos 2022.
Com a queda na demanda, alguns produtores têm arrancado suas videiras ou deixando suas safras apodrecerem, afirmou Dale Stratton, diretor-gerente da Azur Associates, um grupo de consultoria do setor de bebidas alcoólicas. As dificuldades dos viticultores foram agravadas pelo aumento dos custos de mão de obra e operacionais.
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A tequila, em contrapartida, tem se mantido relativamente bem. O crescimento permaneceu estável nas 52 semanas encerradas em 9 de setembro, enquanto a vodca, o uísque e outras bebidas destiladas registraram contração de pelo menos 1,5% cada uma nesse período.
As exportações do México para os Estados Unidos cresceram cerca de 30% em volume de 2020 a 2025, apesar de uma queda de cerca de 1% no ano passado, de acordo com o Conselho Regulador da Tequila do México.
Custa cerca de US$ 10.000 por acre para plantar agave, segundo Vierra. A transição de volta para a uva pode chegar a US$ 70.000 por acre, dependendo da região da Califórnia. Depois de estabelecidas, as plantas de agave conseguem sobreviver em grande parte com a chuva natural, enquanto as uvas exigem irrigação adicional.

Vierra afirmou ter ajudado mais de 20 vinícolas a fazer a transição de parte de suas terras do cultivo de uvas para o de agave. Tudo começou com operações menores e mais especializadas, mas cada vez mais fazendas comerciais vêm entrando nesse setor em ascensão, disse ele.
Empresas de maior porte também estão analisando seriamente as possibilidades. A O’Neill Vintners & Distillers, que produz 8 milhões de caixas de vinho anualmente, tem realizado testes com o agave da Califórnia. A empresa é proprietária de marcas de vinho, incluindo Line 39 e FitVine.
A O’Neill investiu cerca de US$ 300.000 em novos equipamentos — adquiridos no México — para cozinhar, processar e destilar bebidas alcoólicas à base de agave, segundo Matt Towers, diretor de operações e finanças da empresa. O objetivo é dobrar ou triplicar esse investimento no próximo ano. Seu trabalho tem se concentrado em aperfeiçoar o produto, que provavelmente só chegará às prateleiras em 2028, segundo Jeff O’Neill, fundador e diretor executivo da empresa.
“Ainda não está totalmente pronto para o mercado, mas esse seria o próximo passo”, afirmou O’Neill.
Craig Reynolds, que anteriormente atuou ao lado de Woolf no conselho do California Agave Council, plantou agave pela primeira vez em 2014, ajudando alguns pequenos destiladores a produzir bebidas alcoólicas a partir de sua safra.
Suas primeiras incursões serviram como prova de conceito de que as bebidas destiladas de agave produzidas na Califórnia são viáveis no estado. “No início, era mais ou menos uma brincadeira eu sugerir isso às pessoas”, disse Reynolds.
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Mas, embora a oferta de agave na Califórnia esteja agora crescendo, há gargalos quando se trata de transformar as plantas em bebidas alcoólicas. É um processo trabalhoso que envolve a poda das folhas espinhosas do miolo da planta. Os miolos são então cozidos por um longo período antes de serem triturados para extrair o suco, que é fermentado e, em seguida, destilado.
Connor Vaccaro, fundador da Calavé Spirits, afirma ser provavelmente um dos poucos operadores com equipamentos em escala comercial necessários para lidar com volumes maiores de produção no estado.
“Estamos apenas tentando colocar a parte da destilação em dia”, disse Vaccaro, que também é enólogo. “Espero ampliar a produção nos próximos dois anos para atender a essa demanda.”

O’Neill planeja aumentar a capacidade de produção de acordo com o ciclo de maturação do agave que foi plantado no estado. A grande maioria do agave será colhida nos próximos dois a três anos, disse ele. Sua empresa plantou cerca de sete acres de agave para ter matéria-prima com a qual trabalhar.
A esperança é que várias marcas e produtos à base de agave cheguem às prateleiras nos próximos anos, a fim de criar uma nova categoria. “Queremos que mais de um produto chegue ao mercado”, disse O’Neill.
A indústria mexicana acompanha de perto a Califórnia para garantir que as regras de denominação de origem não sejam violadas. As exportações de tequila geram mais de US$ 4 bilhões anualmente para o país, de acordo com um relatório de 2025 da World Spirits Alliance, um grupo global de defesa do setor.
Vaccaro atualmente realiza sua quarta produção. A recepção dos clientes às suas variedades “blanco” e “reposado” tem sido muito positiva, afirmou ele.
“É muito fácil vender depois que as pessoas experimentam”, disse ele. A parte mais difícil é fazer com que o produto chegue às mãos dos consumidores, devido à falta de familiaridade.
“Para a maioria das pessoas, quando você diz que é como vinho espumante e champanhe, elas respondem: ‘Ah, entendi’”, disse ele. “É uma explicação bastante simples e trata-se apenas de conscientizar as pessoas de que, na verdade, estamos produzindo isso na Califórnia.”
-- Com a colaboração de Valentine Hilaire.
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