Dona do TikTok escolhe o Brasil para seu maior complexo de data centers fora da China

Complexo de data centers da ByteDance no Ceará, desenvolvido pela Omnia, tem custo estimado em R$ 200 bilhões e mira expansão global da IA; projeto enfrenta resistência de comunidades locais

Centro de dados da ByteDance
Por Peter Millard
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Bloomberg — Avistadas da rodovia, meio escondidas por palmeiras e outras vegetações, as fileiras simétricas de colunas de 5,5 metros evocam as grandiosas edificações do Império Romano. De perto, você verá que não se trata de uma ruína antiga, mas de um monumento em ascensão às ambições geopolíticas de uma superpotência moderna: a China.

Neste canto remoto do estado do Ceará, centenas de trabalhadores estão construindo um data center para ByteDance, dona do TikTok. A instalação será o maior complexo de data centers da empresa fora da China, um projeto com um custo total estimado em R$ 200 bilhões (US$ 39 bilhões).

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O chefe da construção, Wellysson Costa, não consegue conter o entusiasmo. “Aqui era tudo mato”, diz ele, passando por guindastes, betoneiras e blocos de concreto quadrados do tamanho de banheiras de hidromassagem.

Costa trabalha para Omnia, uma empresa brasileira especializada em desenvolvimento e operação de data centers.

No ano passado, a empresa apresentou aos executivos da ByteDance a ideia de instalar a infraestrutura em uma zona franca do Ceará foi criada para evitar o pagamento das altas tarifas que o Brasil cobra sobre a importação de equipamentos de informática. Em menos de seis meses, equipes de construção transformaram uma área de vegetação rasteira na estrutura de aço e concreto do complexo.

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Os pilares serão fechados em breve e o telhado do primeiro de 20 data halls está sendo erguido.

Esses data centers serão equipados com servidores e equipamentos de rede. O complexo terá capacidade computacional de 200 megawatts, podendo chegar a 1 gigawatt, com o primeiro data center previsto para entrar em operação no final de 2027.

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O Brasil é uma base natural para empresas chinesas de inteligência artificial que buscam expandir sua presença global e superar suas concorrentes dos Estados Unidos.

A maior economia da América Latina possui energia renovável abundante, com hidrelétricas, energia solar e eólica respondendo por quase 90% de toda a geração de energia. É também um centro nevrálgico do hemisfério para telecomunicações, graças a múltiplos cabos submarinos que a conectam à América do Norte, Europa e África.

Leia também: Além do TikTok: como um aplicativo de IA da ByteDance se tornou o mais popular na China

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O país já hospeda mais de 100 centros de dados, de acordo com a BloombergNEF, embora seja apenas uma fração dos quase 1.700 data centers dos Estados Unidos, líder mundial no setor.

“O Brasil tem todos os atributos para se tornar um polo de data centers”, afirma Rodrigo Borges, representante no Brasil da consultoria britânica Aurora Energy Research. A Aurora projeta que a capacidade de data centers do país mais que quadruplicará, ultrapassando 4 GW no início da década de 2030.

Outras gigantes chinesas da tecnologia estão seguindo o exemplo da ByteDance. O Alibaba Group Holding planeja alugar espaço em um conjunto de data centers que será construído em São Paulo para lidar com cargas de trabalho de IA, segundo pessoas que preferiram não se identificar por discutirem planos ainda não divulgados.

A Ascenty, empresa brasileira com 40 data centers em operação ou em construção na América Latina, está investindo US$ 1,2 bilhão nessas instalações. O Alibaba não respondeu aos pedidos de comentários.

A Elea Data Centers e a Scala Data Centers, ambas apoiadas por investidores americanos, também estão planejando projetos de grande escala no Brasil e cortejando hiperescaladores chineses e americanos — o termo da indústria para as gigantes da tecnologia que controlam a capacidade computacional para alimentar tudo, desde grandes modelos de linguagem até streaming de vídeo.

Naturalmente, as empresas chinesas estão investindo ainda mais em seu país. Agências governamentais elaboraram um plano para investir 2 trilhões de yuans (US$ 295 bilhões) em uma rede de centros de computação interconectados em todo o país.

Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o data center da ByteDance no Ceará é apenas o mais recente fruto de décadas de esforços para estreitar os laços entre Brasília e Pequim. A China é hoje o maior parceiro comercial do país, importando quase US$ 100 bilhões em petróleo, minério de ferro, açúcar, soja e carne bovina no ano passado. E o Brasil foi o principal destino do investimento estrangeiro chinês em 2025, de acordo com o American Enterprise Institute, um centro de estudos de Washington.

O projeto da ByteDance diversificará os investimentos da China no Brasil, para além das barragens hidrelétricas, linhas de transmissão de energia e portos que suas empresas construíram ou adquiriram. E é um desafio direto ao objetivo do presidente americano Donald Trump de reafirmar a hegemonia dos Estados Unidos nas Américas.

Cerca de dois terços dos dados do Brasil são processados ​​no exterior, por isso a construção desses data centers tornou-se uma prioridade estratégica para o governo Lula. “É a nossa principal vulnerabilidade nacional: a soberania digital”, afirma Luis Fernandes, vice-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil. (O novo data center da ByteDance não diminuirá essa dependência, já que atenderá usuários fora dos Estados Unidos e da Europa, segundo a empresa.)

Leia também: Data center do TikTok no Ceará evidencia papel do Brasil na guerra tech EUA x China

Mesmo com todas as suas vantagens e o apoio declarado do governo, o Brasil perdeu oportunidades no setor de data centers. Um programa de incentivos para reduzir os impostos de importação sobre servidores e outros equipamentos está parado no Congresso, enquanto um leilão para armazenamento de baterias necessário para dar suporte à geração intermitente de energia eólica e solar foi adiado para dezembro.

Embora o Brasil possua mais de 140 milhões de usuários de redes sociais, Alphabet, Meta Platforms , Microsoft e outras empresas americanas não se apressaram em instalar data centers no país. Um fator inibidor é o risco de ficarem no meio de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e o Brasil.

No ano passado, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre as importações brasileiras em resposta ao processo contra seu aliado, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Uma decisão da Suprema Corte em fevereiro anulou esses impostos, mas a Casa Branca sugeriu que outros podem ser implementados. E embora Trump e Lula tenham se reunido e estabelecido uma relação de trabalho, ainda existem sinais de tensão.

Leia também: TikTok anuncia investimento de R$ 200 bilhões para construir data center no Brasil

“Os chineses assumem certos riscos”, diz Eduardo Menossi, fundador do Grupo EBM, uma empresa de engenharia de data centers com sede em São Paulo, que antes trabalhava exclusivamente com empresas americanas, mas agora conta com empresas chinesas entre seus clientes. “Um americano é mais conservador.”

Mas Menossi acredita que a guerra com o Irã — na qual centros de dados no Oriente Médio operados pela Amazon.com sofreram danos por ataques de drones — pode ter aumentado o interesse das gigantes americanas em tecnologia pelo Brasil. Afinal, o país sul-americano está muito distante das atuais zonas de conflito no mundo. “Então, qual seria o Plano B para uma empresa americana?”, questiona ele. “O Brasil se torna uma região estratégica.”

Em Fortaleza, o prédio cinza à direita (cercado por torres residenciais) é uma estação de ancoragem para vários cabos submarinos que conectam a América do Norte, a Europa e a África.

Nos Estados Unidos, os data centers elevaram contas de energia, pressionaram o abastecimento de água e se transformaram em tema politicamente sensível antes das eleições legislativas. No Brasil, porém, quase não houve reação negativa até agora. Cerca de 90% do tráfego internacional de internet do país passa por 16 cabos enterrados sob a Praia do Futuro, nos arredores de Fortaleza.

Numa tarde de sexta-feira em maio, nenhum dos turistas ou garçons dos bares à beira-mar percebe a supervia digital sob seus chinelos.

O fato de a área ser um nó de comunicação crucial fica mais evidente a alguns quarteirões da praia, onde há um conjunto de data centers de última geração.

Essa infraestrutura digital é o motivo pelo qual Fortaleza atraiu centenas de startups. Caetano Lima, analista sênior da Ninna Hub, incubadora de tecnologia instalada em um prédio moderno no centro da cidade, espera ter acesso a data centers mais avançados.

“Do ponto de vista de uma startup, é uma excelente oportunidade para testar software e tecnologia”, afirma ela.

Nem todas as comunidades estão entusiasmadas com a perspectiva de viver perto de um data center. Quando Lula viajou ao Ceará em dezembro passado para anunciar o investimento da ByteDance, membros da tribo Anacé bloquearam estradas em protesto contra o projeto. Desde então, eles têm feito piquetes esporádicos em frente ao local.

Para os Anacé, este é o mais recente insulto em uma longa história de abusos por parte do governo e de investidores.

No início da década de 1990, as autoridades estaduais começaram a desapropriar famílias de suas terras ancestrais para a construção de um porto de águas profundas e um parque industrial adjacente — conhecido hoje como Complexo Industrial e Portuário do Pecém. Em seguida, na década de 2010, a Petrobras iniciou o planejamento de uma gigantesca refinaria dentro da zona franca do porto, o que resultou no deslocamento de outras famílias Anacé.

O projeto da refinaria fracassou, deixando o terreno disponível para a ByteDance. Para muitos dos Anacé, é doloroso ver um data center sendo construído, um empreendimento que consumirá tanta energia quanto uma cidade de porte médio, enquanto eles já sofrem com apagões frequentes em sua reserva. “Sinceramente, não vejo nada de positivo para a nossa comunidade”, afirma Andrea Coelho, líder tribal. “Não apoio o projeto.”

A Omnia, empresa responsável pelo desenvolvimento, diz estar treinando centenas de membros da comunidade local para trabalharem no projeto como eletricistas e encanadores.

Fábio Feijó, secretário de Desenvolvimento econômico do Ceará, afirma que o projeto da ByteDance é apenas o começo. “Quando o primeiro data center estiver pronto, outros virão”, diz ele de um amplo escritório do governo em Fortaleza. Feijó afirma que sua agência já conversou com cerca de seis provedores de hiperescala.

“O mundo inteiro está de olho.”

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