Como a recuperação do dólar impactou as moedas latino-americanas no primeiro semestre

Colômbia, Costa Rica e Paraguai registraram as maiores valorizações ante o dólar no primeiro semestre, enquanto o real ficou entre as moedas que avançaram em meio ao fortalecimento da moeda americana

Stacks of $10 dollar notes move through a machine at the US Bureau of Engraving and Printing in Washington, DC, US, on Tuesday, May 21, 2024. Money-market fund assets rose as elevated short-term rates continued to lure funds, even after recent economic data suggests the Federal Reserve could ease monetary policy this year. Photographer: Al Drago/Bloomberg

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Bloomberg Línea — O dólar encerrou o primeiro semestre em recuperação, o que indica seu fortalecimento frente a boa parte das principais moedas do mundo, impulsionado por uma mudança nas expectativas em relação à política monetária dos Estados Unidos e por um cenário internacional que voltou a favorecer ativos denominados na moeda americana. Esse movimento, no entanto, não se refletiu de forma homogênea na América Latina.

Embora o dólar tenha acumulado quatro trimestres consecutivos de valorização, o desempenho das moedas latino-americanas foi bastante desigual.

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Algumas registraram forte apreciação, sustentadas por fatores internos como aumento das receitas de exportação, remessas, investimento estrangeiro e diferenciais de juros.

Outras perderam terreno em razão de fatores locais ou de uma maior sensibilidade ao novo impulso da moeda americana.


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A mudança de percepção em relação ao dólar esteve diretamente ligada à guinada do Federal Reserve sob a presidência de Kevin Warsh, ao bom desempenho da economia dos Estados Unidos e aos fluxos de capital direcionados ao mercado americano, impulsionados, entre outros fatores, pela inteligência artificial.

Meera Chandan, codiretora de estratégia global de câmbio do JPMorgan (JPM), avalia que o Federal Reserve “ativou” a perspectiva de valorização do dólar, segundo afirmou em entrevista à Bloomberg.

“Não parece que outros bancos centrais conseguirão acompanhar esse movimento, e o diferencial de juros voltará a favorecer o dólar.” Esse cenário conviveu com realidades bastante distintas entre as economias latino-americanas.

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Colômbia, Costa Rica e Paraguai lideraram a valorização

O peso colombiano (USDCOP) liderou o ranking regional, com valorização de 9,84% frente ao dólar, seguido pelo colón costa-riquenho (USDCRC), com alta de 9,57%, e pelo guarani paraguaio (USDPYG), que avançou 8,42%.

Na Colômbia, a força do peso resultou de uma combinação de fatores externos e internos, em meio ao ciclo eleitoral.

Germán Cristancho, gerente de Pesquisa Econômica e Estratégia da Davivienda Corredores, atribui esse desempenho à desvalorização global do dólar nos primeiros meses do ano, à alta dos preços do petróleo e ao crescimento das remessas e das exportações de serviços.

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Segundo o analista, também contribuíram um diferencial de juros atrativo em relação a outras economias emergentes e a maior entrada de capital para a dívida pública diante das expectativas de mudança de governo.

Cristancho acrescenta que essa expectativa “impulsionou a entrada de fluxos de portfólio, principalmente para títulos públicos colombianos”, reforçando a demanda por ativos locais.

O colón costa-riquenho ficou em segundo lugar graças a uma oferta de dólares que continuou superando com folga a demanda.

Daniel Suchar Zomer, economista costa-riquenho, explicou que o dinamismo das exportações das zonas francas, a chegada de investimento estrangeiro direto e a alta temporada do turismo geraram um excedente de dólares no mercado.

A isso se somou a preferência de investidores e poupadores por aplicações em moeda local, mesmo após os cortes graduais na taxa básica de juros. “O Banco Central foi o principal comprador para evitar uma valorização ainda mais intensa do colón”, afirmou Suchar.

A terceira posição ficou com o guarani paraguaio. Ingrid Herrera, gerente do Departamento de Economia da MF Economía Inversiones, explicou que a venda de dólares pelo Banco Central restringiu a liquidez em moeda local, elevou as taxas oferecidas pelos bancos para captar recursos e reduziu a demanda pela moeda americana.

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Essa combinação levou as instituições financeiras a vender posições em dólares para obter guaranis, intensificando a pressão sobre a taxa de câmbio e favorecendo a valorização da moeda.

As moedas que também avançaram

O peso dominicano (USDDOP) ocupou a quarta posição, com valorização de 6,66%, seguido pelo real brasileiro (USDBRL), com alta de 5,94%; pelo peso mexicano (USDMXN), que avançou 3,13%; e pelo quetzal guatemalteco (USDGTQ), que subiu 0,53% e foi a última moeda da região a encerrar o semestre em território positivo.

Na República Dominicana, o fortalecimento do peso refletiu um crescimento da oferta de dólares superior ao da demanda. Juan Mejía, economista dominicano, atribuiu esse desempenho ao dinamismo do turismo, das remessas, do investimento estrangeiro direto e ao maior valor das exportações de minério, favorecidas pela alta do ouro.

Também contribuíram desembolsos de empréstimos externos, um diferencial de juros favorável aos ativos denominados em pesos e uma política cambial voltada para reduzir episódios de volatilidade.

O Brasil voltou a se beneficiar da atratividade proporcionada por uma das taxas de juros mais elevadas entre as grandes economias emergentes.

Davison Santana, analista da Bloomberg Intelligence, destacou o papel do carry trade como “o motor mais claro do mercado de câmbio”, sustentado por uma taxa Selic de 14,5%. Ainda assim, alerta que os desafios fiscais e a incerteza política continuam limitando o potencial de valorização do real, mesmo que o mercado receba sinais positivos do cenário eleitoral.

O peso mexicano encerrou o semestre com ganhos mais modestos, após atravessar vários episódios de volatilidade.

Felipe Juncal, economista para México e América Latina do Citi, explicou que o conflito no Oriente Médio inicialmente estimulou a busca por segurança no dólar. Posteriormente, a possibilidade de uma trégua permitiu a recuperação do peso, movimento reforçado pela fraqueza apresentada pela moeda americana durante parte do semestre.

Embora não tenha registrado uma das maiores valorizações da região, o quetzal guatemalteco conseguiu manter ganhos frente ao dólar e encerrou o semestre como a sétima moeda latino-americana de melhor desempenho.