Dívida ‘sufocante’ leva mais 8 milhões de empresas à inadimplência no Brasil

Com os juros próximos do pico das últimas duas décadas e o crédito cada vez mais escasso, um número historicamente alto de empresas luta para manter as portas abertas enquanto acumula cerca de R$ 213 bilhões em dívidas

Centro de São Paulo: Empresas que se alavancaram em 2020 e 2021, quando o Banco Central levou a Selic a 2%, agora enfrentam aperto, com o custo mais alto do crédito consumindo mais do caixa (Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg)
Por Giovanna Bellotti Azevedo - Rachel Gamarski

Bloomberg — Basta uma olhada no mercado de ações para que tudo pareça bem na economia brasileira. O Ibovespa disparou mais do que qualquer outro índice relevante das Américas no último ano — quase 60% em dólares.

Mas, dentro das salas de diretoria, nas pequenas lojas e nos cafés pelo país, o cenário é bem mais sombrio. Com os juros próximos do pico das últimas duas décadas e o crédito cada vez mais escasso, um número historicamente alto de empresas luta para manter as portas abertas.

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Dentre as maiores, um exemplo mais recente de pressão financeira veio na semana passada, quando a operadora hospitalar Kora Saúde entrou com um pedido de reestruturação extrajudicial — o mesmo destino de dois grandes nomes, a produtora de biocombustíveis Raízen e a rede de supermercados Companhia Brasileira de Distribuição, conhecida como GPA, semanas antes.


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Clientes em um Pão de Açúcar em São Paulo (Foto: Tuane Fernandes/Bloomberg)

Mas o aperto recai sobretudo sobre as pequenas empresas, base da economia, e com mais de 8 milhões de CNPJS inadimplentes.

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Em muitos aspectos, dizem especialistas, o ajuste de contas era inevitável — consequência do forte ciclo de endividamento na pandemia.

Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chega no pior momento possível. A preocupação é que a crise corporativa se espalhe pela economia justamente quando ele intensifica o apelo pela reeleição em outubro.

Empatado com Flávio Bolsonaro nas pesquisas, Lula começou a lançar medidas para proteger as famílias dos efeitos colaterais dessa crise.

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“A gente vem vivendo a grande ressaca da pandemia”, disse Rafael Nogueira, managing partner na Chimera Capital. Existe uma distorção na bolsa, segundo ele, com um punhado de grandes empresas impulsionando o índice.

As companhias menores que respaldam a economia brasileira “não estão necessariamente listadas, e essas estão sem acesso a capital,” afirmou Nogueira.

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Brasil registra aumento no número de empresas em recuperação judicial

Quando o Banco Central reduziu os juros a um nível recorde durante a pandemia, muitas empresas recorreram em massa ao crédito — que costuma ter taxa pós-fixada — às vezes para sobreviver, mas muitas vezes para financiar uma expansão agressiva.

Agora, com os juros em dois dígitos e o crescimento econômico mais moderado, muitas dessas empresas encontram dificuldade para rolar dívidas.

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Cerca de 8,9 milhões de empresas estão inadimplentes — um número recorde — somando cerca de R$ 213 bilhões em dívidas, segundo dados da Serasa Experian de março. A maioria são pequenas empresas, e elas respondem por quase 30% do PIB.

Até agora, a confiança do consumidor e o emprego se mantêm resilientes, e investidores não enxergam riscos sistêmicos. A disparada dos preços dos combustíveis, impulsionada pela guerra no Irã, tem beneficiado algumas empresas, como as grandes produtoras de commodities do país, atraindo capital estrangeiro e ajudando a levar o Ibovespa a níveis recordes no mês passado.

Dívida vencida entre empresas brasileiras dispara

Custos mais altos de energia pressionam as famílias e restringem o espaço para cortes de juros capazes de aliviar os tomadores.

Na semana passada, o Banco Central reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual pela segunda reunião consecutiva, para 14,5%, e sinalizou que novos cortes não são certos com a inflação acelerando.

“Ainda é prematuro afirmar que a gente já atingiu recorde histórico”, disse Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, se referindo ao número de recuperações judiciais. “O corte de juros que está sendo precificado é insuficiente para ver reversão no mercado de crédito.”

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Os juros elevados também pressionam as famílias, que comprometem cerca de 30% da renda ao serviço de dívidas — perto do maior nível da última década, segundo o Banco Central.

“Eu compararia a situação das famílias com as pequenas e medias empresas,” disse João Mário Santos de França, pesquisador do FGV Ibre.

A onda de empresas em dificuldade ocorre no momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva viu desaparecer sua vantagem nas pesquisas sobre Flávio Bolsonaro, em meio à inflação persistente e ao crescimento fraco.

No início deste ano, Lula convocou empresas envolvidas nas negociações para socorrer a Raízen, sinalizando preocupação com os impactos sobre a confiança dos investidores e a economia.

O governo acompanha de perto o aumento do estresse nas empresas. Ainda assim, autoridades evitam intervir diretamente: o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que companhias altamente endividadas devem negociar com credores, em vez de recorrer a bancos públicos.

Pressão alta

Na Chimera Capital, especializada em crédito para empresas em dificuldade, Nogueira disse que a linha entre tomadores saudáveis e estressados está começando a se confundir.

Recentemente, ele passou a receber pedidos de empresas “relativamente limpas” rejeitadas pelos bancos. “Isso não deveria acontecer. O meu dinheiro é um dinheiro caro, é um dinheiro para empresa estressada”, afirmou.

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Empresas que se alavancaram em 2020 e 2021, quando o Banco Central levou a Selic a 2%, mínima histórica, agora enfrentam aperto, com o custo mais alto do crédito consumindo mais do caixa. E a pressão deve persistir, com economistas projetando a Selic acima de 10% até 2027.

Esse cenário resume o que a Kora Saúde enfrenta. A empresa se expandiu quando os juros estavam próximos das mínimas, adquirindo operações em vários estados. Nos últimos cinco anos, quase dobrou a sua receita.

Mas o aumento dos custos de financiamento causou um “desequilíbrio” na sua estrutura de capital, disse Alexandre Augusto Olivieri, diretor financeiro e de relações com investidores da Kora, em resposta a perguntas por escrito.

Quase 6.000 empresas estavam em processo de recuperação judicial até o fim de março, o maior nível na série da RGF & Associados, iniciada em 2023.

A pressão, embora preocupante, ainda é vista como um aperto de crédito mais localizado.

Mas, à medida que mais empresas sofrem sob o peso das dívidas — reduzindo investimentos, encolhendo operações e atrasando pagamentos ao longo das cadeias de suprimento —, alguns já apontam o risco de uma espiral negativa, que corrói a renda, enfraquece a demanda e aumenta a pressão sobre a economia.

“Estamos no meio do furacão,” disse Flávio Málaga, sócio na Málaga & Associados. “Os juros altos passaram a consumir tudo o que a operação gera.”

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