Bloomberg Línea — A Dexco (DXCO3) decidiu encerrar as atividades industriais da unidade de revestimentos cerâmicos de Urussanga (SC) e concentrar a produção do segmento nas plantas de Criciúma (SC) e Botucatu (SP).
A decisão responde ao excesso de capacidade que pressiona a indústria cerâmica brasileira em um ambiente de juros altos e demanda morna da construção civil, e ao compromisso da companhia de reduzir a alavancagem para 2,5 a 2,7 vezes ao fim de 2026.
A medida, comunicada ao mercado nesta segunda-feira (25), faz parte do plano de eficiência operacional e rentabilização de ativos que a companhia vem executando desde o fim do ciclo de investimentos 2021–2025.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Controlada por Itaúsa (ITSA4) e Ligna, a Dexco se posiciona como a maior casa de marcas de materiais de construção, reforma e decoração do Brasil, com um portfólio que reúne Deca, Hydra, Duratex, Durafloor, Portinari, Ceusa e Castelatto.
Os revestimentos cerâmicos, divisão diretamente afetada pelo anúncio desta segunda, abrigam as marcas Portinari e Ceusa.
Leia também: Portobello consolida vertical de vendas com flagship e visa expansão nos EUA
Em comunicado assinado pelo diretor de relações com investidores, Guilherme Setubal Souza e Silva, a empresa afirmou que a decisão busca “assegurar a continuidade e a sustentabilidade de longo prazo do negócio, por meio da melhor utilização da capacidade instalada, ganhos de produtividade e maior eficiência operacional”.
O portfólio das marcas Portinari e Ceusa será mantido. A Dexco também informou que não haverá impacto relevante nos resultados decorrente do fechamento, e que os efeitos serão classificados como não recorrentes.
As ações da Dexco acumulam uma queda de 3,5% em 2026 ante uma alta de 9,7% do Ibovespa, e uma desvalorização de 1,6% em 12 meses frente a um avanço de 27,5% do principal índice do mercado acionário brasileiro.
Ações da Dexco (DXCO3)
Desafios do segmento de revestimentos
O movimento confirma a sinalização dada pela administração na teleconferência do primeiro trimestre, em 7 de maio.
Naquela ocasião, segundo relatório de Rodolfo Angele, analista do J.P. Morgan, a companhia descreveu o segmento de revestimentos como o mais desafiador do portfólio, com excesso de capacidade no setor, estoques elevados e pressão sobre preços. O analista que mantém recomendação overweight (equivalente à compra) para o papel.
A resposta apresentada pela diretoria foi acelerar projetos de produtividade, otimizar a capacidade instalada, reduzir consumo de matérias-primas e revisar o uso de fornos.
Leia também: M&A das tintas: Akzo Nobel compra Axalta por US$ 9,2 bi e cria gigante do setor
O diagnóstico reflete a dinâmica da indústria brasileira de revestimentos cerâmicos, terceira maior do mundo em produção e consumo, segundo a Anfacer (Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos).
O setor é organizado em torno de dois grandes polos. O de Santa Gertrudes, no interior paulista, responde pela maior parte da produção nacional e é dominado pelo método de via seca, mais barato. O do Sul de Santa Catarina, com epicentro em Criciúma, é especializado em via úmida e em produtos de maior valor agregado, como o porcelanato.
Em um ambiente de juros elevados, retração do crédito imobiliário fora do Minha Casa Minha Vida e demanda morna da construção civil, a concorrência por preço entre os dois polos voltou a pressionar margens. Plantas catarinenses de menor escala, como a de Urussanga, ficam mais expostas a esse aperto.
Na mesma teleconferência, a administração havia mencionado que a venda e o encerramento de ativos seguem em análise como instrumento complementar para a redução de dívida, incluindo “plantas e fábricas ociosas que não geram receita, mas carregam custos de manutenção”.
O posicionamento, conforme registrado pelo banco, é compatível com a estratégia de longo prazo desde que as operações não comprometam o núcleo do negócio.
Perfil de crédito
O contexto financeiro pressiona pela disciplina. Relatório de análise de crédito do BB Investimentos, assinado por Viviane Silva, Melina Constantino e Fernando Cunha em março, apontou que a Dexco encerrou o quarto trimestre de 2025 com indicador dívida líquida/Ebitda de 3,35 vezes, ante 3,48 vezes no trimestre anterior.
As operações de liability management, com emissão de R$ 1,5 bilhão em debêntures em outubro e R$ 1,6 bilhão em Cédulas de Produto Rural em janeiro, alongaram o prazo médio da dívida para 5,4 anos e levaram 92% do endividamento para o longo prazo, com custo médio de 104,9% do CDI.
Na avaliação dos analistas do BB Investimentos, os avanços recentes configuram “viés marginalmente construtivo” para o perfil de crédito, embora o ambiente desafiador em revestimentos e em Metais & Louças continue limitando a recuperação da rentabilidade e tornando o processo de desalavancagem mais lento.
A divisão Madeira, citada tanto pelo BB quanto pelo J.P. Morgan, segue como a mais rentável da Dexco, com alta utilização de capacidade e fundamentos resilientes no mercado doméstico, ainda que custos de ureia, metanol e frete pressionem margens a partir do segundo trimestre.
Leia também
Shoppings atraem mais visitantes, mas fim da taxa das blusinhas traz incertezas









