Briga societária e queda das vendas ameaçam plano de virada da Azzas, dizem analistas

Liminar de Roberto Jatahy contra mudanças no grupo reacende o atrito com o CEO Alexandre Birman, logo após resultado do 1º trimestre que frustrou analistas; JP Morgan vê recuperação mais incerta, Citi não descarta cortes nas projeções de lucro, enquanto o fim da taxa das blusinhas pressiona o setor

A Hering, uma das prioridades da Azzas neste momento, está abandonando produtos fast-fashion que não conectam com seu público tradicional, segundo relatório do Itaú BBA

Bloomberg Línea — A Azzas 2154 (AZZA3), holding dona de Arezzo, FARM, Animale, Hering e Reserva, vive três crises simultâneas: um balanço fraco que expõe a fragilidade do turnaround, uma disputa societária reaberta entre seus dois maiores acionistas e a derrubada da taxa das blusinhas, que retira proteção do varejo têxtil nacional.

Relatórios de BTG Pactual, Citi e JP Morgan, publicados em sequência nos últimos dias, mostram um mercado cada vez mais cético sobre a capacidade de execução da companhia.

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O balanço do primeiro trimestre, divulgado no último dia 7, expôs o tamanho do problema operacional. A receita bruta consolidada caiu 5,8% no ano, para R$ 3,1 bilhões. O Ebitda recorrente recuou 23,2%, para R$ 329 milhões, ficando 20,8% abaixo da projeção do BTG Pactual e cerca de 23% abaixo do consenso, segundo o Citi. Puxando o resultado para baixo, a Hering encolheu 18,5% em receita, ainda em ajuste de estoques.


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O BTG Pactual, em relatório de Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, falou em “outro trimestre fraco no top line”, refletindo “desalavancagem operacional e ajustes ainda em curso na Hering”.

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O banco manteve a recomendação de compra e preço-alvo de R$ 40, mas com a ressalva de que o desconto de 6x P/E 2026E (o que significa que a ação negocia a seis vezes o lucro esperado para 2026, abaixo dos pares do setor) só se sustenta “se a companhia conseguir entregar expansão de margem e recuperar a trajetória de crescimento de receita”.

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O Citi manteve recomendação neutro/alto risco e preço-alvo de R$ 25, e avisou que, “apesar do desempenho recente das ações, não descartamos novas revisões (para baixo) das projeções de lucros”. A companhia, escreveu o banco, “ainda tem muito trabalho pela frente para desbloquear totalmente o valor de seus ativos”.

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Ações da Azzas 2154 (AZZA3)

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Os dados podem ter atraso de ate 20 minutos.

O que era um problema operacional virou também societário no último dia 11, quando Roberto Jatahy, ex-controlador da Soma, conseguiu liminar judicial para impedir mudanças na Reserva, conforme reportou a coluna de Lauro Jardim, no jornal O Globo.

Pelo acordo de acionistas, a marca masculina está fora do escopo de Jatahy e sob a alçada do CEO Alexandre Birman. A Azzas confirmou a liminar em comunicado na terça-feira (12) e reafirmou a estrutura de governança.

“A Companhia esclarece que, em linha com o Comunicado ao Mercado divulgado anteriormente nesta data, suas operações permanecem regulares e que não são esperadas maiores repercussões à Companhia”, disse a empresa em fato relevante.

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Para o analista Joseph Giordano, do JP Morgan, o episódio reabre uma ferida que parecia cicatrizada. As notícias, escreveu em relatório da última terça-feira (12), “trazem novamente à tona potenciais disputas internas e desentendimentos entre os dois maiores acionistas da companhia”.

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O banco manteve recomendação neutra e disse que o novo capítulo “sustenta uma postura mais conservadora em relação à recuperação dos resultados, já que questões internas de governança podem estar impedindo mudanças”.

Para os analistas, a questão deixou de ser apenas se a Azzas consegue executar o turnaround, mas também a ser se ela consegue se mover por dentro.

O terceiro vetor veio de Brasília na mesma terça. O governo federal zerou o imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”, em vigor desde agosto de 2024.

A Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex) classificou a decisão como “grave retrocesso econômico” e tratou a medida como derrubada do principal escudo do varejo nacional contra Shein, Shopee e AliExpress.

A Azzas não compete no segmento popular dessas plataformas, mas opera no mesmo ecossistema de moda, e o efeito é mais de ambiente competitivo que direto. A medida tende a pressionar empresas brasileiras do setor, num momento em que a holding tenta convencer o mercado de que pode entregar uma virada operacional sem o ruído da própria sala de reuniões.

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