Bloomberg Línea — Uma onda de recuperações judiciais atingiu players relevantes do varejo brasileiro e expôs o impacto negativo do cenário de juros de duplo dígito na economia real. Ligados ao comércio de bens duráveis, os segmentos de eletrodomésticos, eletroeletrônicos, móveis e decoração são os mais afetados pela atual fase da crise de liquidez.
Casas Bahia, Marabraz e Grupo Toky (dono das marcas Tok&Stok e Mobly) são os nomes mais recentes da série de companhias de atuação nacional que recorreram à Justiça para evitar uma execução antecipada de dívidas e pedidos de falência.
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Esse movimento se acelerou na virada para o segundo semestre, quando a política monetária restritiva adotada pelo Banco Central para conter as pressões inflacionárias elevou as despesas financeiras das empresas e acendeu o alerta no mercado sobre a crescente inadimplência de consumidores e empresas, com reflexos nos balanços do segundo trimestre dos maiores bancos do país.
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O analista Joseph Giordano, do JPMorgan, apontou em relatório que o pedido de recuperação judicial da Casas Bahia nesta semana cita a dificuldade de obter linhas de crédito de curto prazo para financiar capital de giro e um mercado de crédito seco entre as razões da deterioração das condições financeiras da varejista.
Para o banco, o caso não se generaliza, mas serve de alerta para companhias que precisam rolar passivos curtos com balanços esticados.
“Ainda que não seja aplicável de forma generalizada, acreditamos que varejistas que precisem refinanciar passivos de curto prazo e necessidades de capital de giro podem enfrentar condições de crédito desafiadoras, sobretudo aquelas com balanços mais esticados”, escreveu Giordano.
“No nível das ações, isso deve se traduzir em uma posição competitiva melhor para o Magazine Luiza, especialmente no canal físico, em que a Casas Bahia é uma concorrente de escala semelhante.”
O varejo brasileiro apresentou um cenário desafiador em julho. O fluxo de consumidores recuou tanto nas lojas de shoppings centers quanto nas lojas de rua na comparação com o mesmo mês do ano passado, apontou o IPC (Índice de Performance do Varejo), da HiPartners, gestora e investidora em retail techs no Brasil.
Nas lojas de shoppings, o fluxo de visitação caiu 2% em relação a julho de 2025. Já nas lojas de rua, a retração no movimento foi mais acentuada, de 12,6%
Mesmo com o ciclo de corte de juros em curso, a Selic segue em 14% ao ano, e a inflação acumulada em 12 meses está em 4,4%, perto do teto da meta oficial.
A busca crescente por proteção judicial pelas empresas coincide com a evolução do aperto monetário. O ciclo de alta mais recente da taxa Selic começou em setembro de 2024, quando o Banco Central interrompeu um período de quedas e elevou os juros em 0,25 ponto percentual, levando a taxa de 10,50% para 10,75% ao ano.
O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou o atual ciclo de corte na taxa básica de juros em março, quando reduziu a taxa para 14,75% ao ano, realizando mais três cortes de 0,25 ponto percentual (abril, junho e agosto).
Em 2025, o Brasil registrou 2.466 empresas envolvidas em recuperações judiciais, alta de 13% em relação às 2.184 registradas no ano anterior e o maior número da série histórica, segundo dados da Serasa Experian.
Do lado das famílias, o quadro é visto como desafiador: 82% delas estão endividadas, o maior nível da série histórica da CNC (Confederação Nacional do Comércio), com comprometimento de renda próximo de 30%.
“A queda no fluxo não é um fenômeno isolado do varejo. Ela conversa diretamente com o cenário macroeconômico”, escreveu Flávia Pini, sócia da HiPartners, em nota.
Apesar da queda do fluxo, o faturamento apresentou crescimento nos dois formatos, indicando que a elevação do tíquete médio ajudou a compensar parte da menor circulação de consumidores.
Segundo a HiPartners, esse movimento é acompanhado por uma alta de cerca de 0,8% no tíquete médio geral, com elevação de 1,5% nas lojas de rua e de 2,5% nos shoppings.
“Isso significa que cada visita à loja física precisa converter mais, e é exatamente aí que a tecnologia: dados, personalização e crédito inteligente na ponta, deixa de ser diferencial competitivo e passa a ser condição de sobrevivência”, escreveu Pini.
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica) ainda não divulgou os dados do varejo em julho.
Crise na Casas Bahia
O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia é o novo capítulo na sequência de casos de estresse corporativo que leva preocupação aos investidores. As ações da varejista (BHIA3) desabaram mais de 33% na segunda-feira (16).
Com anúncio de demissões de milhares de funcionários e fechamento de lojas, investidores buscam estimar o impacto tanto no varejo como nos resultados das administradoras de centros comerciais.
“Embora os shoppings representem apenas uma pequena parcela das operações da Casas Bahia, as operadoras de shoppings do Brasil têm melhorado ativamente seu mix de lojas nos últimos anos, reduzindo a exposição a varejistas com baixo desempenho”, citou o Citi em relatório.
Segundo o banco, considerando o portfólio das principais operadoras de capital aberto (Allos, Iguatemi e Multiplan), foram identificadas lojas da Casas Bahia em 19 shoppings da Allos em julho, tornando a Allos a empresa mais exposta.
A Iguatemi e a Multiplan tinham apenas uma loja da Casas Bahia cada, localizadas no Shopping Esplanada, no interior paulista (entre Sorocaba e Votorantim) e no ParkJacarepaguá, no Rio de Janeiro, respectivamente.
Demissões e fechamento de lojas
Há mais de cinco décadas em atividade, a rede de lojas Marabraz, especialista em móveis no segmento popular, ajuizou pedido de recuperação judicial neste mês, citando os “desafios enfrentados pelo setor varejista e com objetivo de preservar a continuidade de suas atividades”.
Segundo a companhia, a medida representa uma “decisão responsável” para promover a reestruturação da operação, organizar compromissos e criar condições para a continuidade dos negócios.
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“O processo terá como prioridades a preservação de empregos e manutenção das relações construídas ao longo de sua história com clientes, fornecedores e parceiros”, afirmou a varejista em nota.
Já o Grupo Toky, holding que controla as varejistas de móveis e decoração Mobly e Tok&Stok desde 2024, teve um prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões no segundo trimestre, após pedir recuperação judicial em maio.
Em cinco meses, até maio, o Grupo Toky cortou 15,6% do pessoal das duas marcas. Houve a redução de 400 postos de trabalho, resultado da diferença entre 733 rescisões contra 333 admissões, segundo a administração judicial.
“O desempenho do Grupo Toky no segundo trimestre foi moldado por um cenário macroeconômico severamente restritivo, caracterizado pela manutenção de taxas de juros elevadas, pelo alto endividamento das famílias e pela escassez de crédito, fatores que pressionaram diretamente o consumo no setor de móveis e decoração”, resumiu o conselho de administração da companhia em relatório.
As ações do Grupo Toky acumularam desvalorização de 92% em 2026 e perdas de 94% em 12 meses.
Diferenças regionais da crise
No cenário nacional, o faturamento do varejo teve queda de 0,2%, segundo o índice de julho da HiPartners. O comportamento regional, porém, reforça a heterogeneidade do desempenho do setor.
O Centro-Oeste apresentou alta de 37,50% no fluxo das lojas físicas e crescimento de 1,12% no faturamento. No Sul, mesmo com retração de 1,50% na visitação, o faturamento avançou 6,20%, maior alta entre as regiões analisadas.
O Sudeste também registrou aumento de 2,09% no faturamento, apesar da redução de 5,60% no fluxo. No Norte, o movimento nas lojas físicas recuou 31,20%, enquanto o faturamento cresceu 0,47%.
Já o Nordeste verificou elevação de 7,60% no fluxo, mas queda de 5,04% no faturamento.
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