Petrobras lidera ranking de empresas de LatAm em Wall St. após superar Mercado Livre

A alta das commodities e a busca por empresas com geração de caixa e dividendos impulsionaram Petrobras, Itaú e Vale, enquanto Mercado Livre e Nubank perderam posições no ranking regional

Plataforma de petróleo

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Bloomberg Línea — A alta dos preços das matérias-primas durante o primeiro semestre alterou a classificação das empresas latino-americanas mais valiosas listadas na Wall Street.

A Petrobras (PBR) desbancou o Mercado Livre (MELI) do primeiro lugar na região, enquanto o Itaú Unibanco (ITUB), a América Móvil (AMX) e a Vale (VALE) ganharam posições em relação a empresas em crescimento, como o Mercado Livre (MELI) e a Nu Holdings (NU).

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Essa mudança reflete uma alteração nas preferências dos investidores, mais do que uma deterioração dos negócios digitais.

Enquanto, no final de dezembro, o Mercado Livre liderava a lista com uma capitalização de mercado próxima a US$ 102 bilhões, seguida pela Nu Holdings com cerca de US$ 81 bilhões e pelo Itaú Unibanco com cerca de US$ 76 bilhões, no fechamento da semana passada, a Petrobras ultrapassou os US$ 101 bilhões e se tornou a empresa latino-americana com maior valor de mercado.

O Itaú subiu para cerca de US$ 91 bilhões e empurrou o Mercado Livre para o quarto lugar, enquanto a América Móvil e a Vale também avançaram nas posições.

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Em contrapartida, a Nu Holdings recuou para uma capitalização de mercado próxima a US$ 61 bilhões, refletindo a perda de impulso das empresas de crescimento diante do renovado interesse por empresas ligadas aos setores de energia, mineração e bancos.

The Petrobras Paulinia Refinery Ahead Of Earns

Felipe Sepúlveda, analista-chefe da Admirals América Latina, considera que o movimento foi resultado de uma mudança na forma como o mercado alocou o capital.

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O analista afirma que “houve saídas de fluxos de empresas de alto crescimento, como a Mercado Livre e a Nu Holdings, e entradas em setores mais tradicionais, ligados a matérias-primas, energia, mineração e bancos”, uma rotação que acabou alterando a liderança regional em Wall Street.

Do crescimento à geração de caixa

A nova ordem do ranking tem um denominador comum. As empresas que subiram no ranking compartilham uma maior capacidade de gerar fluxo de caixa, distribuir dividendos ou se beneficiar diretamente da alta nos preços das matérias-primas após o início da guerra no Irã.

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As empresas que registraram recuo continuam expandindo seus negócios, mas enfrentam um mercado que exige maior rentabilidade imediata e valoriza menos as promessas de crescimento de longo prazo.

Emanoelle Santos, analista da XTB Latam, resume essa mudança ao destacar que “o mercado voltou a exigir mais rentabilidade visível e menos promessas de crescimento futuro”.

Essa ideia ajuda a entender por que a reestruturação foi mais abrangente do que o comportamento do petróleo ou do cobre: ela também favoreceu bancos e empresas de infraestrutura com receitas recorrentes.

A Petrobras representa o caso mais evidente. Sua capitalização de mercado passou de cerca de US$ 75 bilhões para mais de US$ 101 bilhões durante o período.

Parte desse aumento coincidiu com a alta do preço do petróleo provocada pelo conflito entre os Estados Unidos e o Irã.

Sepúlveda explica que “a guerra elevou o prêmio de risco geopolítico, sobretudo devido ao temor de interrupções no abastecimento e no tráfego pelo Estreito de Ormuz, o que impulsionou os preços do petróleo bruto e beneficiou diretamente as empresas petrolíferas e de energia da região”. Esse impulso somou-se a uns fundamentos que já eram favoráveis para a petrolífera brasileira.

Um relatório de Milene Clifford Carvalho, Henrique Cunha e Rodolfo Angele, analistas do JPMorgan (JPM), mostra que a tese de investimento da Petrobras se baseia em fatores que vão além do preço do petróleo.

Os analistas destacam o crescimento da produção do pré-sal, uma expansão prevista de cerca de 600 mil barris por dia em cinco anos, uma geração de caixa que se destaca entre as grandes petrolíferas e uma política de dividendos respaldada por disciplina financeira.

O banco mantém a recomendação de sobreponderação das ações, ao considerar que elas ainda estão sendo negociadas com desconto em relação às de suas concorrentes internacionais.

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A Vale (VALE) também se beneficiou do renovado interesse pelas matérias-primas, embora tenha encerrado o dia com uma alta menor e tenha caído no ranking.

Rodolfo Angele e Tathiane Martins Candini, também do JPMorgan, elevaram suas projeções para o minério de ferro em 2026 e 2027 e consideram que a empresa combina uma produção sólida, custos mais baixos e uma redução da incerteza após o acordo definitivo relacionado a Mariana.

vale

O banco também destaca que a mineradora continua sendo negociada com desconto em relação a outras empresas do setor, apesar de apresentar um elevado fluxo de caixa e dividendos.

O movimento, no entanto, não se limitou às empresas do setor de extração.

O Itaú Unibanco elevou sua capitalização de aproximadamente US$ 76 bilhões para mais de US$ 91 bilhões sem depender diretamente do desempenho das commodities. A explicação está na rentabilidade do negócio bancário.

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Santos afirma que “o Itaú não está subindo por causa das commodities, mas porque os bancos brasileiros voltaram a ser vistos como negócios de alto retorno, com escala, amplas margens financeiras e capacidade de distribuir capital”.

Essa preferência coincide com os resultados do primeiro trimestre, que mostram um retorno sobre o patrimônio líquido de 24,8%, uma qualidade estável da carteira e uma expansão do crédito em segmentos considerados mais rentáveis, segundo o Bradesco BBI.

A América Móvil (AMX) também manteve uma posição de destaque no ranking. John Butler, da Bloomberg Intelligence, atribui essa resiliência à implantação de redes 5G, à expansão da fibra óptica e à migração dos clientes para planos pós-pagos, fatores que elevam a receita média por usuário e reduzem a rotatividade de clientes.

Liberty Latin América LTD,  de su subsidiaria Cable & Wireless Panamá S.A., informó que compró el 100 % de las acciones de América Móvil SAB de C.V. en Panamá.

Ao contrário das empresas ligadas às matérias-primas, seu desempenho refletiu a estabilidade de um negócio com receitas recorrentes e melhorias operacionais.

A pressão sobre as empresas em crescimento

A queda das ações da Mercado Livre e da Nu Holdings não se deve a uma deterioração estrutural de seus negócios. Os relatórios do Citi (C) mostram que ambas as empresas continuam aumentando suas receitas e sua base de clientes, mas enfrentam um mercado muito mais exigente no que diz respeito à rentabilidade futura.

João Pedro Soares, analista do banco, explica que o Mercado Livre mantém “uma estratégia de longo prazo e fundamentos sólidos”, mas acrescenta que, no caso deles, preferem ficar “à margem até que haja maior confiança de que as margens operacionais tenham atingido o nível mais baixo”.

O Citi reduziu sua recomendação sobre a ação, pois considera que o ciclo de investimentos em logística, crédito e comércio eletrônico será mais prolongado do que o previsto, atrasando a recuperação das margens.

O banco chegou a reduzir entre 17% e 22% suas estimativas de lucros para 2026-2028, apesar de ter elevado as projeções de crescimento da receita. Essa combinação ilustra a mudança nas prioridades do mercado: o crescimento continua elevado, mas a rentabilidade ganha maior peso na avaliação.

A Nu Holdings enfrenta um desafio diferente. A preocupação gira em torno da evolução do negócio de crédito.

Sepúlveda afirma que a correção no setor de fintech corresponde a uma reajuste dos múltiplos e não a uma deterioração de suas operações.

O Citi complementa essa visão ao alertar que a expansão do crédito com desconto na folha de pagamento no Brasil poderia reduzir a capacidade de pagamento dos clientes em relação a cartões de crédito e empréstimos pessoais, segmentos nos quais a Nu concentra a maior parte de sua carteira.

A empresa também reduziu suas projeções de lucro para 2026 e 2027 e rebaixou a recomendação da ação para “neutra”, refletindo um mercado que agora atribui maior peso ao risco de crédito e à sustentabilidade da rentabilidade.

O contraste com a Petrobras ou o Itaú ajuda a explicar a mudança no ranking. Enquanto as empresas tradicionais apresentavam uma combinação de dividendos, fluxo de caixa e avaliações mais moderadas, as empresas em crescimento continuavam imersas em ciclos intensivos de investimento.

As empresas do setor de bens de consumo apresentaram um quadro diferente. O Walmart do México continuou enfrentando um consumo fraco e pressão sobre as margens decorrente de investimentos operacionais e digitais, segundo o Bradesco BBI, enquanto a Ambev começou a mostrar sinais de recuperação.

Renata Cabral, do Citi, destaca que o setor de cerveja no Brasil registrou “a virada que todos estavam esperando”, com um crescimento inesperado nos volumes e uma melhora nas margens, apesar do alto custo das matérias-primas.

Mais abaixo no ranking, a Fomento Económico Mexicano (FMX) manteve sua posição entre as maiores empresas latino-americanas de Wall Street, enquanto o Bradesco (BBD) e a Axia Energia (AXIA) também permaneceram entre as empresas com maior capitalização de mercado da região, refletindo que a reordenação favoreceu principalmente empresas com exposição a setores tradicionais, embora sem alterar de forma generalizada a composição da lista.

O que o mercado monitora

A evolução do ranking durante o segundo semestre do ano dependerá de se as variáveis que impulsionaram essa rotação continuarão em vigor.

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Sepúlveda considera que a liderança das empresas tradicionais poderia se manter se as taxas de juros continuarem altas e os investidores continuarem priorizando o caixa e os dividendos, embora alerte que parte do impulso da Petrobras foi resultado do conflito entre os Estados Unidos e o Irã e poderia se moderar após a estabilização do preço do petróleo.

Santos concorda que ainda há espaço para a rotação, mas acrescenta que “é mais provável que haja uma rotação seletiva do que um retorno linear a todos os setores tradicionais”.

Na opinião dele, empresas como a Petrobras e o Itaú poderão manter suas posições se preservarem lucros, dividendos e disciplina de capital, enquanto a Mercado Livre e a Nu Holdings precisarão recuperar a confiança em relação à evolução de suas margens e à qualidade de suas carteiras de crédito para voltarem a disputar a liderança regional.

Essa mudança também não significa que as empresas em crescimento tenham perdido definitivamente seu apelo. Santos acredita que uma eventual moderação nas expectativas em relação às taxas poderia reavivar o interesse por esse segmento.

Nesse caso, o mercado voltaria a concentrar sua atenção na capacidade de expansão da receita, embora com uma exigência maior em relação à rentabilidade e à execução operacional do que a observada nos últimos anos.