Do Brasil à Turquia, países emergentes voltam a emitir títulos globais em abril

Emissões títulos denominados em dólares e euros por mercados emergentes já somam US$ 46 bilhões no mês e superam em cerca de 200% os volumes registrados em abril do ano passado

Brazil Fights Cratering Real With Two Dollar Auctions In A Day
Por Selcuk Gokoluk

Bloomberg — As emissões de títulos de mercados emergentes voltam a ganhar força após a estagnação do mês passado, à medida que emissores do Brasil à Turquia aproveitam a recuperação dos mercados para captar novos recursos.

As vendas de títulos denominados em dólares e euros de países em desenvolvimento neste mês já superam em cerca de 200% os volumes registrados em abril do ano passado, mostram dados compilados pela Bloomberg.

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Um total de US$ 46 bilhões foi captado até sexta-feira, enquanto governos e empresas correm para aproveitar a melhora no sentimento do mercado em meio às esperanças de um acordo de paz entre EUA e Irã.


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A retomada ocorre após uma queda nas emissões no mês passado, quando a guerra reduziu o apetite por ativos de maior risco.

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Agora, porém, com os mercados novamente em atividade intensa e as bolsas às vésperas de recuperar as perdas anteriores à guerra, os mercados emergentes voltam a ser o investimento favorito de quem busca rendimento.

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“O mercado de títulos de mercados emergentes parece ter superado amplamente o risco da guerra por ora”, disse Laura Reardon, gestora de portfólio da MFS Investment Management.

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“Negócios que estavam no pipeline antes do conflito e foram suspensos agora chegam ao mercado, e os investidores têm caixa para alocar após a recente estabilização dos mercados.”

Reardon destacou o histórico recente de resiliência das economias emergentes — que se recuperaram rapidamente de crises como a pandemia e a guerra na Ucrânia, por exemplo.

Embora muitos países tenham sido duramente atingidos pela alta do petróleo no mês passado, um grande conjunto de nações produtoras de energia na África e na América Latina se beneficia dos preços elevados.

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Além disso, o boom de investimentos em inteligência artificial é visto como um fator favorável para o mundo em desenvolvimento.

Investidores absorveram títulos dos exportadores de energia Brasil e Qatar, enquanto emissões da Turquia e da Polônia também foram bem recebidas, já que novos títulos geralmente oferecem rendimentos ligeiramente superiores aos das emissões existentes.

Entre as empresas, nomes conhecidos como o Banco do Brasil voltaram ao mercado, ao lado de companhias menores como o Eldik Bank, do Quirguistão, que aproveitou o cenário mais favorável para estrear no mercado de dólares.

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Todos foram encorajados pela queda nos custos de captação desde que Irã e EUA concordaram com um cessar-fogo de duas semanas.

O prêmio médio de rendimento exigido pelos investidores para carregar títulos soberanos de mercados emergentes em dólar em relação aos Treasuries recuou para cerca de 245 pontos-base — abaixo dos níveis observados pouco antes do início da guerra.

“Com os spreads onde estão, faz sentido emitir”, disse Carmen Altenkirch, analista de soberanos de mercados emergentes da Aviva Investors. “Soberanos costumam esperar por períodos de relativa calmaria para emitir, especialmente os emissores regulares, como a Turquia.”

O total de emissões de abril inclui quase US$ 19 bilhões de empresas de mercados emergentes, alta de 88% em relação ao mesmo período do ano anterior, mostram os dados.

Os mercados permaneceram abertos na segunda-feira, ignorando o recrudescimento das tensões na guerra, enquanto a operadora ferroviária do Cazaquistão contratava bancos para uma emissão em duas tranches.

A operação seguiu a da Korea Ocean Business Corp e do grupo chinês Shuifa, que iniciaram a comercialização de títulos em dólar no início do dia.

Caixa em espera

A retomada das emissões faz com que o volume acumulado no ano já supere em quase 20% os níveis do mesmo período do ano anterior, chegando a US$ 281 bilhões.

A recuperação é semelhante ao aumento de atividade observado nos mercados desenvolvidos. Soberanos como Itália e Reino Unido registraram demanda recorde por seus novos títulos, mas as emissões de dívida subordinada — geralmente considerada de maior risco — também avançaram com força neste mês.

Um dos motivos é que muitos investidores querem usar o caixa acumulado durante a liquidação de março, já que qualquer acordo para encerrar a guerra tende a desencadear uma recuperação ainda maior nos mercados globais.

“Os mercados emergentes estão longe de ser os únicos onde as condições parecem relativamente imunes à geopolítica”, disse Kieran Curtis, chefe de dívida local de mercados emergentes da Aberdeen Group .

“Tenho a impressão de que os gestores de portfólio levantaram muito caixa no mês passado. As saídas de recursos, na prática, foram muito limitadas, então agora os investidores precisam alocar e os emissores aproveitam a oportunidade.”

O Brasil aproveitou o momento para realizar sua maior emissão de títulos da história, captando 5 bilhões de euros em sua primeira emissão denominada em euros em mais de uma década.

Os gestores de fundos também toparam emprestar à Turquia, apesar de sua vulnerabilidade aos preços mais altos de energia, e absorveram sua emissão de US$ 2 bilhões com ordens três vezes superiores ao montante ofertado.

Ainda assim, os compradores extraíram da Turquia um prêmio de emissão de cerca de 15 a 20 pontos-base, bem acima dos cinco pontos-base obtidos em emissões anteriores, estima Nimrod Mevorach, estrategista do UBS Group.

A Polônia, outro importador de energia, pagou um prêmio de 12 a 15 pontos-base ao captar US$ 6 bilhões no início de abril, disse ele, em contraste com praticamente nenhum prêmio em sua emissão anterior.

Um indicador ainda mais notável da demanda foi a estreia da República Democrática do Congo com uma emissão de US$ 1,25 bilhão. Os investidores fizeram ordens quatro vezes superiores ao montante, possivelmente atraídos pelos rendimentos de 8,75% e 9,5% nas duas tranches da operação.

Manuel Mondia, gestor de portfólio da Aquila Asset Management, disse que a RDC, embora frágil, tem baixo nível de endividamento e exporta grandes volumes de cobre, insumo essencial para os investimentos ligados à IA.

“Foi um bom negócio para os detentores de títulos, em um momento em que esses spreads se tornam cada vez mais raros”, disse Mondia, que comprou o papel. “A busca por rendimento supera o medo do conflito e do contágio.”

-- Com a colaboração de Ray Ndlovu e Mpho Hlakudi.

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