Além dos gramados: as ações que Wall Street vê como possíveis vencedoras da Copa

Bancos como Deutsche Bank e Citi e analistas da Bloomberg Intelligence identificam ações de empresas de hotelaria, restaurantes, mídia, tecnologia, apostas e bebidas que podem se beneficiar do aumento do turismo e do consumo durante o torneio

A display of Adidas AG World Cup 2026 footballs in their flagship store in Herzogenaurach, Germany, on Wednesday, March 4, 2026. Adidas forecast higher profits this year and market share gains through 2028 as the German brand looks to maintain its momentum with retro sneakers and new running and football products. Photographer: Alex Kraus/Bloomberg

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Bloomberg Línea — A Copa do Mundo de 2026 começa hoje, com 48 seleções e 104 partidas.

Para os mercados, o interesse não está nos efeitos macroeconômicos do evento, mas na capacidade do torneio de impulsionar as receitas de hotéis, restaurantes, meios de comunicação, plataformas digitais e casas de apostas.

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Bancos e empresas de análise como Deutsche Bank, Bloomberg Intelligence e Citi identificaram companhias que podem se beneficiar do aumento do turismo, do consumo relacionado aos jogos, da publicidade e da venda de produtos associados ao campeonato.

O Deutsche Bank estima que o torneio atrairá cerca de 1,2 milhão de torcedores internacionais e lembra que a FIFA calcula uma contribuição de até US$ 17,2 bilhões para o PIB dos Estados Unidos.

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Mesmo que esse valor seja alcançado, porém, o banco avalia que a contribuição representaria um impulso temporário de apenas 0,05% do PIB dos Estados Unidos, uma magnitude reduzida em comparação com outros fatores que atualmente dominam a economia global.

Esse efeito macroeconômico limitado contrasta com o potencial de ganhos para determinados setores. Os analistas do Deutsche Bank destacam que esta será a maior Copa do Mundo da história, com 16 seleções a mais do que no Catar 2022, 40 partidas adicionais e duração de 39 dias — fatores que ampliam as oportunidades comerciais para empresas expostas ao evento.

De acordo com a equipe do banco alemão, “a Copa do Mundo será uma oportunidade para que os setores e empresas mais expostos registrem um impulso temporário”, especialmente nas áreas de lazer, alimentação, bebidas, mídia, tecnologia e apostas esportivas.

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As ações no radar de Wall Street

O turismo é o principal canal por meio do qual o torneio pode movimentar receitas. O Deutsche Bank incorporou às suas projeções para os REITs hoteleiros uma melhora de 50 a 75 pontos-base na receita por quarto disponível, diante do aumento esperado na ocupação e nas tarifas nas cidades-sede.

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A entidade considera que os hotéis com serviço completo podem atrair uma parcela significativa dessa demanda, pois “muitas delegações pagarão mais para ocupar andares inteiros, além de utilizar espaços para reuniões e serviços de alimentação”.

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Entre as empresas mais expostas, o banco cita DiamondRock Hospitality (DRH), Host Hotels & Resorts (HST), Park Hotels & Resorts (PK) e Ryman Hospitality Properties (RHP). No segmento hoteleiro tradicional, identifica Hyatt Hotels (H), Hilton Worldwide (HLT) e Marriott International (MAR) como companhias com potencial para se beneficiar do aumento no número de viajantes.

O movimento dos torcedores também beneficia empresas ligadas à mobilidade e à hospedagem alternativa. Uber Technologies (UBER), Lyft (LYFT) e Airbnb (ABNB) figuram entre as ações monitoradas pelo Deutsche Bank diante da expectativa de aumento da demanda por transporte e acomodações nas proximidades dos jogos.

O setor de restaurantes é outro ponto de interesse. O banco acredita que o aumento do turismo e a proliferação de encontros para acompanhar as partidas podem impulsionar as vendas tanto em estabelecimentos físicos quanto em plataformas de entrega.

O relatório identifica Shake Shack (SHAK), The Cheesecake Factory (CAKE), Chipotle Mexican Grill (CMG), Starbucks (SBUX), Wingstop (WING) e Dunkin’, marca integrada à Inspire Brands e não listada na bolsa, entre as redes com presença significativa nas proximidades dos estádios.

O banco também destaca a Domino’s Pizza (DPZ), devido ao peso das entregas em seus negócios nos Estados Unidos. A companhia obtém cerca de 55% de suas vendas no país por meio desse canal e já lançou campanhas promocionais relacionadas ao torneio.

A oportunidade não se limita aos torcedores que forem aos estádios. O Deutsche Bank destaca que bares esportivos e restaurantes que transmitirem as partidas podem registrar um aumento no número de clientes, já que os jogos serão disputados em horários convenientes para o público norte-americano.

Buffalo Wild Wings, rede integrada à Inspire Brands e não listada na bolsa; Yard House, de propriedade da Darden Restaurants (DRI); BJ’s Restaurant & Brewhouse (BJRI); Applebee’s, pertencente à Dine Brands Global (DIN); e Chili’s, operada pela Brinker International (EAT), estão entre os estabelecimentos mencionados pelos analistas.

A Copa do Mundo também representa uma importante fonte de receita publicitária. O Deutsche Bank destaca que as estimativas históricas indicavam que a publicidade associada ao torneio nos Estados Unidos ficaria entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões, enquanto o Sportico projeta cerca de US$ 850 milhões para a edição de 2026.

A Fox Corporation (FOX), detentora dos direitos de transmissão em inglês, e a Telemundo, pertencente à Comcast (CMCSA) e responsável pelos direitos em espanhol, figuram entre as principais beneficiárias. O banco acrescenta que o YouTube, plataforma da Alphabet (GOOGL), pode reforçar seu crescimento publicitário após se tornar parceiro de distribuição digital de resumos e de determinados jogos.

Outro segmento acompanhado de perto é o de apostas esportivas. O Deutsche Bank estima que o volume total apostado durante o campeonato possa chegar a cerca de US$ 3,3 bilhões, com uma projeção otimista de US$ 4,1 bilhões.

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O banco prevê que a FanDuel, de propriedade da Flutter Entertainment (FLUT), registre cerca de US$ 1,3 bilhão em apostas, e a DraftKings (DKNG), aproximadamente US$ 1,1 bilhão. Os analistas consideram que “nossa previsão básica está modestamente acima das expectativas dos investidores”, uma diferença que pode servir de catalisador para algumas empresas do setor durante o torneio.

As marcas esportivas também ocupam posição de destaque entre as possíveis vencedoras. Nike (NKE) e Adidas partem com vantagem graças aos acordos de patrocínio, à visibilidade das seleções nacionais e ao lançamento de novos produtos relacionados ao campeonato, segundo Poonam Goyal e Sydney Goodman, analistas da Bloomberg Intelligence.

As duas empresas dominam a disputa pelo fornecimento de material esportivo das seleções. A Adidas vestirá 14 equipes, e a Nike, 12. Goyal e Goodman lembram que a Adidas já comercializa a bola oficial Trionda e afirmam que “a oportunidade relacionada à Copa do Mundo pode chegar a 1,2 bilhão de euros, ou 20% a mais, se as recentes vitórias em maratonas prolongarem o impulso da marca”.

A audiência global é outro fator relevante. A Bloomberg Intelligence destaca que a final do Catar 2022 reuniu cerca de 1,5 bilhão de espectadores, acima dos aproximadamente 1,1 bilhão registrados em 2018, uma escala que amplia a exposição comercial de fabricantes de equipamentos esportivos e patrocinadores.

América Latina também busca seu espaço

A realização conjunta do torneio nos Estados Unidos, no México e no Canadá coloca várias empresas latino-americanas entre as potenciais beneficiárias do evento, especialmente aquelas com presença nas cidades-sede ou ligadas a patrocinadores oficiais.

Tiago Harduim, da Bloomberg Intelligence, identifica a Arca Continental (AC*) como uma das empresas mais bem posicionadas. O analista destaca que sua área de atuação abrange Monterrey, Guadalajara, Dallas e Houston, uma combinação que expõe a companhia tanto ao mercado mexicano quanto ao norte-americano.

Segundo o analista, a empresa possui uma vantagem operacional difícil de reproduzir, pois “isso proporciona à Arca uma combinação de capacidade de execução local, disponibilidade de bebidas geladas e ativações patrocinadas nas proximidades dos estádios, nas áreas de torcida e no consumo doméstico”.

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A exposição geográfica é um dos critérios utilizados pela Bloomberg Intelligence para avaliar os possíveis beneficiários.

A Arca Continental (AC*) obtém cerca de 80% de sua receita nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Gruma (GRUMAB), Grupo Bimbo (BIMBOA), Coca-Cola Femsa (KOFUBL) e Femsa (FEMSAUBD) também figuram entre as empresas com exposição relevante aos mercados anfitriões.

A análise considera um segundo fator: a participação das seleções nacionais no torneio.

A Bloomberg Intelligence avalia que empresas com forte presença no Brasil, na Argentina ou no México podem se beneficiar de campanhas promocionais mais prolongadas, encontros para acompanhar os jogos e aumento do consumo associado ao desempenho de suas seleções.

A Ambev (ABEV3) se destaca nessa análise devido à importância do Brasil em seus negócios.

A Arcos Dorados (ARCO), operadora do McDonald’s (MCD) em grande parte da América Latina, também figura entre as empresas avaliadas, diante de sua elevada exposição ao Brasil e à Argentina e da condição do McDonald’s como patrocinador oficial do campeonato.

A Bloomberg Intelligence avalia que as campanhas comerciais terão um papel importante.

Entre os exemplos, cita promoções relacionadas à Coca-Cola, ativações digitais, turnês do troféu e ações de marcas como Budweiser, Michelob Ultra e McDonald’s para aproveitar o aumento da visibilidade gerado pelo evento.

O potencial de ganhos, no entanto, varia entre as empresas.

A Bloomberg Intelligence destaca que companhias muito dependentes de mercados ausentes da competição podem capturar uma parcela menor do impulso associado à Copa do Mundo.

O Chile, por exemplo, ficou fora do torneio, fator que limita o potencial de algumas empresas com elevada concentração de receitas no país.

A análise do Citi coincide em vários desses nomes.

A equipe liderada por Filippo Falorni aponta Ambev, Coca-Cola Femsa e Arca Continental como as principais beneficiárias na América Latina. Nos Estados Unidos, destaca empresas como Coca-Cola, PepsiCo (PEP), McDonald’s, Domino’s Pizza, Marriott International, Uber Technologies, Alphabet (GOOGL), Meta Platforms (META), DraftKings e Nike.

Nas próximas semanas, a atenção do mercado se concentrará em verificar até que ponto o aumento do turismo, da publicidade, das vendas de produtos esportivos e do volume de apostas se refletirá nos resultados das empresas.

A evolução da audiência televisiva, a ocupação hoteleira, o consumo em restaurantes e os números de merchandising serão algumas das variáveis usadas para avaliar o verdadeiro impacto econômico da maior Copa do Mundo da história.