Bloomberg — As mais recentes tarifas impostas pelo presidente Donald Trump a dezenas de países, incluindo o Brasil, têm gerado indignação entre os parceiros comerciais e os eleitores dos EUA, mas a vantagem na negociação e a receita que elas proporcionam podem tornar difícil para futuros presidentes abandoná-las completamente.
Defensor de longa data de uma agenda comercial mais protecionista, Trump argumenta que suas políticas desencadearam um boom econômico nos EUA e, quando isso não ocorre, ele afirma que as tarifas são ferramentas úteis nas negociações com os parceiros comerciais. Ele continua a ameaçar com mais tarifas contra aliados como o Canadá, embora as pesquisas mostrem consistentemente que as tarifas são impopulares entre os eleitores, que já estão frustrados com a inflação alta.
Mas, embora as críticas aumentem tanto globalmente quanto internamente, isso não significa que um futuro presidente reverteria totalmente a agenda de Trump, afirmaram especialistas ouvidos pela Bloomberg News, o que sugere que um democrata poderia buscar fazer mudanças para amenizar as relações com os aliados e atenuar o impacto econômico, sem descartá-las por completo.
Por exemplo, o ex-presidente Joe Biden manteve — e, em alguns casos, ampliou — as tarifas que Trump implementou contra a China durante seu primeiro mandato.
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“Acredito que, em geral, as tarifas serão mais difíceis de eliminar do que muitas pessoas imaginam”, afirmou Josh Lipsky, vice-presidente e presidente da área de economia internacional do Atlantic Council, que observou que as tarifas fazem parte de acordos comerciais mais amplos e geram receita. “Acho que será difícil escapar dessa influência.”
A mais recente medida tarifária, uma alíquota de 10% ou 12,5% sobre as importações da maioria dos parceiros comerciais, entrou em vigor na sexta-feira (24). Ela se baseia em alegações do governo Trump de que os países e economias visados não conseguiram impedir o trabalho forçado em suas cadeias de suprimentos, o que vários deles afirmaram ser infundado.
Os parceiros comerciais consideram improvável que as tarifas relacionadas ao trabalho forçado sejam revogadas em breve, segundo um representante de um país membro da União Europeia ouvido pela Bloomberg News.
Também é duvidoso que haja um retorno aos níveis mais baixos de tarifas que vigoravam antes de Trump, já que a postura dos EUA em relação às tarifas não muda muito entre os governos, afirmou o representante, que falou sob condição de anonimato.
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Aumento da arrecadação
O Tax Policy Center estima que as tarifas gerarão cerca de US$ 1,7 trilhão nos próximos 10 anos, com US$ 179 bilhões arrecadados em 2026.
A receita diminuirá com o tempo, de acordo com a projeção do TPC, à medida que os compradores norte-americanos forem gradualmente deixando de lado as importações com altas tarifas. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, chamou isso de teoria do “cubo de gelo derretendo” em relação às tarifas.
Mas as tarifas representam um dilema sem saída no que diz respeito ao déficit.
A receita gerada por elas em 2025 e no início de 2026 ajudou a reduzir o déficit orçamentário dos EUA antes que as tarifas de “emergência” de Trump fossem invalidadas pela Suprema Corte. No entanto, as tarifas também podem ser um entrave ao crescimento econômico, dificultando a redução da relação déficit/PIB.

A iniciativa mais recente também não é tão lucrativa quanto as tarifas abrangentes que foram revogadas e cujo reembolso o governo está atualmente processando.
Uma nova análise do Comitê para um Orçamento Federal Responsável afirma que as tarifas atuais, incluindo as anunciadas nesta semana, substituirão menos de 60% da receita perdida com a decisão judicial.
Mesmo quando Trump reconhece que elas não funcionam, ele tem proposto ajustes em suas tarifas, em vez de desistir delas por completo.
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Apesar das tarifas, “o alumínio primário, que é fundamental para a economia dos EUA e para a base industrial de defesa, ainda apresenta oferta insuficiente”, afirmou Trump em uma proclamação que assinou na segunda-feira.
A mudança na política reduziria pela metade os impostos sobre algumas importações de alumínio, em um esforço para incentivar mais fundição nos EUA.
Teste das urnas
Às vésperas das eleições de meio de mandato, a agenda tarifária de Trump tem sido um dos principais temas de discussão dos democratas, à medida que os eleitores expressam sua indignação com o custo de vida.
Uma pesquisa da YouGov realizada esta semana com quase 9.700 adultos norte-americanos revelou que 72% acreditam que as tarifas impostas pelo presidente aumentaram os preços que pagam pelos produtos.
Os republicanos estão se preparando para perdas nas eleições de meio de mandato de novembro, dada a frustração dos eleitores com a economia e a liderança de Trump.
O Partido Republicano defende sua maioria no Congresso, com a Câmara dos Deputados — dividida por uma margem estreita — particularmente vulnerável.

O custo de vida continua sendo uma das principais fontes de frustração para os americanos. Embora dados divulgados no início deste mês tenham mostrado que os preços ao consumidor caíram em junho, em meio à queda nos preços da gasolina, o custo do combustível voltou a subir desde então e a inflação permanece elevada.
É provável que esse foco econômico se mantenha nas primárias presidenciais de 2028.
Diante disso, um futuro presidente democrata provavelmente enfrentará pressão para fazer alterações nas tarifas, afirmou Matt Bennett, cofundador do think tank democrata moderado Third Way.
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“Quem quer que se torne presidente terá passado dois anos argumentando que Trump elevou os preços intencionalmente, e isso será bastante difícil de reverter”, disse ele, observando que haverá pressão para “suspender uma tarifa e reduzir os preços”.
Contestação jurídica
Trump já enfrenta resistência jurídica em seu próprio país. Pequenas empresas entraram com duas ações judiciais na Corte de Comércio Internacional dos EUA na sexta-feira, acusando o presidente e autoridades americanas de utilizarem ilegalmente a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 para tentar substituir as rodadas anteriores de tarifas.
De modo geral, as tarifas da Seção 301 “têm fundamentos jurídicos mais sólidos”, apesar do contestação judicial, afirmou o historiador comercial e professor de economia da Dartmouth, Douglas Irwin, à Bloomberg TV. “Não está claro se os tribunais irão anulá-las; portanto, essas tarifas provavelmente permanecerão em vigor por algum tempo.”
Wendy Cutler, vice-presidente sênior do Asia Society Policy Institute, afirmou que um novo presidente que deseje trabalhar com aliados estrangeiros pode ser “mais receptivo a tentar encontrar saídas em conjunto com nossos aliados e parceiros”. No entanto, ela observou que o desafio é que “estamos nos acostumando com essa receita”.
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