Egito aposta em shows e lutas nas pirâmides de Gizé para impulsionar turismo

Luta entre Oleksandr Usyk e Rico Verhoeven em Gizé integra estratégia para transformar sítio histórico em palco global de entretenimento

Os boxeadores Oleksandr Usyk e Rico Verhoeven se encaram antes da luta “Glory in Giza”, no Cairo, em 19 de maio
Por Sherif Tarek

Bloomberg News — Quando o campeão mundial de boxe Oleksandr Usyk enfrentou Rico Verhoeven em uma luta cercada de expectativa no Egito, todos concordaram em uma coisa: o cenário foi um nocaute.

As antigas pirâmides serviram de pano de fundo para o duelo entre o peso-pesado ucraniano e o kickboxer holandês, em uma arena temporária ao ar livre no planalto de Gizé, na madrugada de domingo. Verhoeven fez uma luta aguerrida, mas acabou derrotado por nocaute técnico no 11º round.

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Parte de uma série de lutas batizada de “Glory in Giza”, o combate à sombra dos monumentos de mais de 4 mil anos marcou a mais recente tentativa de transformar as tumbas faraônicas em um palco privilegiado para entretenimento ao vivo.

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Shows nas pirâmides não são novidade — artistas como Frank Sinatra e Grateful Dead se apresentaram no local no fim da década de 1970, e o Red Hot Chili Peppers em 2019.

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Mas há um esforço renovado para atrair grandes nomes do esporte e da música, enquanto o Egito busca receber 30 milhões de turistas por ano na próxima década e a Orascom Pyramids Entertainment, do bilionário Naguib Sawiris, tenta tornar mais organizada a visita ao local, antes conhecido pelo caos.

“As pirâmides são o cenário mais importante e valioso do mundo”, disse Amr Gazarin, presidente-executivo da OPE, que possui concessão para alugar cinco áreas do platô a promotores de eventos.

“Qualquer artista, atleta ou político espera se apresentar com as pirâmides ao fundo.”

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A realização de grandes eventos representa a mais recente flexibilização promovida pela nação mais populosa do Oriente Médio, onde os visitantes de sítios arqueológicos e resorts costeiros são uma importante fonte de divisas.

O Egito registrou um recorde de 19 milhões de turistas no ano passado, e o setor mostrou resiliência mesmo com a guerra em outras partes da região.

Ainda assim, durante décadas, a falta de infraestrutura, problemas logísticos e o marketing limitado sob gestão estatal fizeram com que as pirâmides recebessem relativamente poucos grandes eventos, segundo Gazarin.

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A OPE apresentou no ano passado uma reforma de US$ 30 milhões no local, com a implementação de serviços regulares de ônibus e repressão aos vendedores ambulantes.

A renovação coincidiu com a inauguração do aguardado Grand Egyptian Museum, nas proximidades, projeto de US$ 1 bilhão onde o roqueiro canadense Bryan Adams fez um show ao ar livre em fevereiro.

“Estudamos todos os grandes locais do mundo”, incluindo o Taj Mahal e as Cataratas do Niágara, “e aprendemos algo com cada um deles”, disse Gazarin sobre os planos da OPE.

A maior área administrada pela empresa comporta até 15 mil pessoas; o DJ Anyma se apresentou ali em outubro.

Oleksandr Usyk x Rico Verhoeven, pelo título mundial dos pesos-pesados do WBC, durante o evento Glory in Giza – Fight Night nas Pirâmides de Gizé, em 23 de maio

Atualmente, a empresa depende dos organizadores para atrair celebridades, mas planeja começar a investir recursos próprios para trazer mais grandes nomes, possivelmente já no próximo ano, afirmou Gazarin.

A guerra entre EUA e Israel contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro, afetou parcialmente os planos, embora o Egito não tenha sido atingido pela violência.

Um show da cantora colombiana Shakira, previsto para abril como parte de uma turnê pelo Oriente Médio, foi adiado para novembro. Outros seis eventos corporativos e jantares de gala acabaram cancelados.

A OPE espera que sua receita com eventos nas pirâmides alcance 150 milhões de libras egípcias (US$ 2,8 milhões) neste ano. Isso representaria um crescimento anual de quase 20%, embora abaixo do inicialmente projetado por causa da guerra envolvendo o Irã.

O Egito, um país apaixonado por futebol, raramente recebe grandes lutas de boxe. A última tentativa relevante ocorreu há três décadas, quando o pugilista inglês e ex-campeão dos supermédios da Organização Mundial de Boxe Chris Eubank Sr. enfrentou o argentino Luis Barrera em uma luta pouco lembrada, promovida como “Style on the Nile”.

Nos últimos anos, porém, a Arábia Saudita assumiu a liderança na organização de grandes lutas, como parte dos esforços para transformar o reino, antes austero, em um polo de entretenimento. A Sela, controlada pelo Fundo de Investimento Público saudita, esteve entre os organizadores da luta de Usyk em Gizé.

Outros destinos da região também ampliam sua infraestrutura de entretenimento, incluindo Abu Dhabi, que planeja construir uma versão da Sphere de Las Vegas.

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Oleksandr Usyk comemora após derrotar Rico Verhoeven

Invicto, Usyk, de 39 anos, consolidou seu nome como um dos maiores boxeadores de todos os tempos. Nos últimos anos, o ucraniano derrotou duas vezes cada um dos pesos-pesados Daniel Dubois, Tyson Fury e Anthony Joshua.

Embora seja uma lenda do kickboxing, Verhoeven, de 37 anos, entrou no ringue como azarão. Ele resistiu até ser derrubado por Usyk, que forçou a interrupção da luta após uma sequência de golpes.

“Estamos nas pirâmides, pessoal”, disse Verhoeven em entrevista após a luta, enquanto o público aplaudia. “Esta noite, todos nós fizemos história.”

--Com a ajuda de Chris Miller.

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