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Por que o monopólio da China em terras raras tende a perder força

Há 15 anos, a China era responsável pela quase totalidade da produção de terras raras; agora, cerca de um terço dessa produção vem de outros países, o que força a China a focar em elementos ainda mais raros, como samário, disprósio e térbio

No Brasil, a empresa Denham Capital investiu em um depósito de argila em Goiás, que começou a produzir em 2024. (Foto: CFOTO)
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — Sempre que a China reforça seu controle sobre as terras raras, o resto do mundo melhora um pouco suas habilidades para encontrá-las.

Os ímãs permanentes de terras raras — que ajudam a fixar cabos de carregamento em laptops, prender celulares a suportes e encaixar fones de ouvido em seus estojos — tornaram-se um campo de batalha central nas guerras comerciais da China com seus rivais.

Pequim utilizou controles de exportação sobre esses dispositivos para forçar o presidente americano, Donald Trump, a uma retirada humilhante em relação às tarifas do chamado Dia da Libertação no ano passado. A mesma tática é empregada contra o Japão, após uma disputa diplomática com Tóquio.

No entanto, o país tem sido forçado a restringir seu foco, pois o mundo está respondendo da mesma forma. Há cerca de 15 anos, quase todos os elementos de terras raras eram extraídos e refinados na China, mas anos de ameaças semelhantes mudaram significativamente esse quadro.

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Quase um terço da produção total ocorre agora em outros países, de modo que Pequim teve que se concentrar nos elementos mais raros entre as terras raras. O neodímio e o praseodímio, os elementos que conferem a força de atração à maioria dos dispositivos magnéticos que você encontra em sua casa, têm se tornado abundantes demais para serem ameaçados de forma significativa.

Como resultado, o foco mudou para três elementos mais escassos: samário, disprósio e térbio. Os ímãs convencionais de terras raras perdem sua eficácia em temperaturas mais altas; portanto, em aplicações de alto desempenho, como motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, mísseis guiados e aeronáutica, é necessário complementá-los ou substituí-los por essas chamadas terras raras pesadas, ou HRE, na sigla em inglês.

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Se voltássemos 10 anos no tempo, a maioria dos geólogos diria que essa mudança significava um xeque-mate para a China. As HRE são uma raridade geológica. Assim como o vibranium, o elemento raro do universo Marvel encontrado apenas no território africano fictício de Wakanda, as formações úteis pareciam ocorrer em apenas um único local do planeta: Longnan, um ponto isolado no sul da China, onde geólogos, no auge da Revolução Cultural em 1969, se depararam com um desses depósitos.

Atualmente, essa suposição parece muito menos certa. Os cientistas são infinitamente inovadores na busca por maneiras de resolver problemas aparentemente intratáveis.

Químicos industriais resolvem a escassez usando materiais alternativos, como fizeram nos últimos anos com o cobalto nas baterias de íons de lítio para carros, agora substituído em grande parte pelo fosfato, mais abundante.

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Geólogos vasculham o mundo e demonstram que o que pensávamos ser escasso não era tão raro assim. É esse último processo que vemos agora no caso das HRE.

O tipo de formação encontrado em Longnan é certamente raro, mas não é único. Conhecida como argila de absorção iônica, ela geralmente se forma quando chuvas tropicais intensas erodem montanhas de granito ao longo de milhões de anos, levando as HRE até o fundo do vale, onde a rocha intemperizada as retém como uma peneira geológica.

Diante das restrições governamentais à sua produção em meados da década de 2010, as próprias mineradoras chinesas foram algumas das primeiras a buscar alternativas em outros lugares, descobrir e explorar formações ricas do outro lado da fronteira, no estado de Kachin, em Mianmar, devastado pela guerra.

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Essas minas podem já estar fornecendo mais HRE do que as minas chinesas, com todos os problemas ambientais inerentes à natureza de pequena escala do setor.

Em outros lugares, trabalhos mais bem regulamentados estão em andamento. No Brasil, a empresa de private equity Denham Capital Management, com sede em Boston, passou grande parte da década de 2010 comprovando a viabilidade de um depósito de argila no centro do estado de Goiás.

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Após receber investimento do ex-CEO da Xstrata, Mick Davis, e iniciar a produção em 2024, a mina será adquirida pela produtora de ímãs USA Rare Earth por meio de um acordo de US$ 2,8 bilhões anunciado em abril.

Isso pode ser apenas a ponta do iceberg. Um estudo realizado no ano passado confirmou a existência de depósitos iônicos em quatro continentes — de Madagascar, Malaui e Uganda até o Chile e a Austrália — além dos locais já conhecidos. Também há evidências desses depósitos na Malásia, Tailândia, Vietnã e até mesmo na Finlândia.

Empresas fora da China com expertise no processamento desses minérios trabalham na construção de circuitos de separação para isolar o disprósio, o térbio e o samário. A Lynas Rare Earths e a Neo Performance Materials já alcançaram a produção comercial. A MP Materials e a Carester, parceira da USA Rare Earth, esperam estar em operação dentro de alguns meses.

Isso representa um voto de confiança significativo nas minas de extração. O principal argumento de investimento para essas empresas de processamento é sua independência da cadeia de suprimentos de terras raras da China. Não faz sentido gastar dinheiro com tais equipamentos se elas vão depender da China e de seus parceiros em Mianmar para obter suas matérias-primas.

Toda essa atividade representa um alerta para aqueles que buscariam impedir o fluxo de minerais ao redor do mundo para obter ganhos geopolíticos. Ao tentar privar seus rivais de ímãs de terras raras, a China, sem querer, tem cultivado uma indústria global que tornará esses materiais mais abundantes do que nunca.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

David Fickling é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre mudança climática e energia. Já trabalhou para a Bloomberg News, o Wall Street Journal e o Financial Times.

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