Com CazéTV, Copa consolida avanço do streaming no esporte em meio a críticas sobre bets

Canal online da LiveMode supera a Globo em número de partidas exibidas nesta Copa e registrou recorde histórico de audiência no YouTube; modelo gratuito, sustentado por publicidade de apostas, no entanto, é alvo de recomendação de suspensão pelo Conar

Brasil e Noruega na Copa do Mundo de 2026
Por Alexandre Salvador
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Bloomberg Línea — A Copa do Mundo de 2026 chegou ao fim para a Seleção Brasileira com a derrota por 2x1 para a Noruega nas oitavas de final no domingo (5), em um desfecho melancólico para a equipe pentacampeã.

Nas telas de TVs, computadores e celulares Brasil afora, porém, a grande marca do torneio deste ano é uma mudança nos hábitos de consumo de transmissões esportivas.

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Com fragmentação dos direitos esportivos em todo o mundo, as plataformas de streaming, apoiadas por big techs, se consolidaram como uma nova força no mercado de mídia, alterando um cenário que por décadas foi dominado pela televisão tradicional.


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A CazéTV, um canal ancorado exclusivamente na internet, principalmente no YouTube, do Google, superou a Globo no número de partidas que transmitidas nesta Copa do Mundo: 104 a 55 da emissora carioca. Mesmo nos jogos do Brasil, nos quais há concorrência entre os dois canais (e também do SBT), a larga vantagem da Globo sobre os rivais diminuiu.

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No jogo do Brasil contra o Japão, a CazéTV registrou pico de 21 milhões de dispositivos conectados, o maior de uma transmissão ao vivo na história do YouTube. Do outro lado, a Globo segue líder na TV aberta, com a estreia da seleção cravando 33 pontos e 55% de “share”, a fatia de todos os televisores ligados.

“Em 2022, quando começamos essa jornada de transmissões da Copa no YouTube, nosso pico foi de 6,9 milhões de dispositivos simultâneos. Agora, chegamos a 21 milhões de aparelhos conectados ao mesmo tempo”, afirma Sergio Lopes, cofundador da LiveMode, empresa por trás da CazéTV.

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A facilidade de assistir aos jogos em qualquer dispositivo atrai espectadores e é uma vantagem para o modelo da CazéTV. O crescimento, porém, tem um lado menos celebrado: parte da receita que sustenta a transmissão gratuita vem da publicidade de apostas — um modelo que já rendeu à CazéTV uma recomendação de suspensão por parte do órgão de autorregulação publicitária do país.

Noite de abertura da Casa CazeTV São Paulo para convidados

Oportunidade na pandemia

Essa mudança de hábito de consumo teve como pontapé inicial a pandemia do coronavírus. Diante de incerteza global e da explosão da variação cambial, a Globo abriu mão da exclusividade dos direitos de transmissão dos eventos da Fifa no segmento digital.

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Embora tenha emprestado seu apelido ao canal que tenta desbancar a Globo, não saiu da cabeça (muito menos do bolso) do streamer carioca Casimiro Miguel a ideia de rivalizar com a principal emissora de TV do Brasil.

Por trás da CazéTV há uma empresa composta por executivos experientes do mercado de TV, alguns deles egressos da própria Globo. A Live Mode, fundada pelos mesmos empreendedores do Esporte Interativo — o canal vendido à Turner em 2015 e hoje opera como TNT Sports — abraçou seu antigo estagiário.

Casimiro chegou ao Esporte Interativo ainda na faculdade, para trabalhar nas redes sociais da marca. Durante a pandemia, seu canal na Twitch e YouTube explodiu em visualizações e a Live Mode viu aí uma oportunidade de usar um rosto carismático e conhecido para executar seu plano de expansão.

Hoje Live Mode e YouTube atuam em simbiose: as duas pagam pelos direitos, dividem custos e repartem a receita. A vitória da CazéTV pelos direitos digitais da Copa, aliás, nasceu da prospecção de patrocinadores para o evento máximo do futebol mundial.

Meses antes do Mundial do Catar, em 2022, a Fifa não havia encontrado uma empresa disposta a transmitir a competição pela internet. A Live Mode, que vendia cotas de patrocínio em nome da federação internacional, levantou a mão e conquistou os direitos por um valor bem acessível.

Depois da Copa vieram os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de Paris, dos campeonatos alemão, francês e brasileiro de futebol. Agora, durante o Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá, a CazéTV anunciou que transmitirá a próxima edição da Eurocopa, o torneio de seleções europeias, em 2028.

Para o YouTube, o Brasil virou uma vitrine mundial. “Foi no Brasil que nasceu esse modelo”, diz Victor Machado, gerente de Parcerias de TV, Filmes e Esportes do YouTube. “Se você procura na mídia especializada internacional, todo mundo fala do case da CazéTV. O Brasil virou o epicentro dessa transformação da transmissão ao vivo no mundo.”

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Os aprendizados obtidos nas transmissões do Campeonato Paulista ajudaram a plataforma a estruturar, nos Estados Unidos, a forma como o YouTube negociou e organizou seu modelo de negócio com a NFL, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos.

World Cup

As 11 cotas de patrocínio da Live Mode para a Copa de 2026 foram vendidas em agosto do ano passado, antes mesmo de a Globo levar seu pacote ao mercado — invertendo uma hierarquia que vigorava havia décadas.

Globo busca se adaptar

O incumbente reagiu. A Globo criou a geTV, canal digital com narração, elenco e formato próprios para o YouTube — uma resposta em linguagem informal que o mercado leu, sem meias-palavras, como uma adaptação do estilo consagrado por Casimiro em suas lives pela internet: recortes dos principais memes, chat ao vivo, rostos de narradores na tela e a sensação de assistir ao jogo em companhia. São 32 partidas no ambiente digital, com transmissão distinta da que vai ao ar na TV.

Para analistas de mídia, a reação tardia expõe uma vulnerabilidade do líder. Anos de domínio quase absoluto teriam levado a Globo a navegar sozinha, deixando de disputar o público jovem que migrava para o streaming — justamente a faixa que a CazéTV capturou primeiro.

A própria plataforma prefere a leitura da complementaridade: colocar o jogo no YouTube, argumenta o YouTube, não derruba a audiência da TV aberta, mas abre uma nova janela de receita e de público. As duas visões convivem — e a segunda Copa consecutiva de perdas de terreno dirá qual prevalecerá.

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No momento, é difícil falar em um vencedor de acordo com as medições atuais. A audiência de TV é uma projeção estatística feita pela Kantar Ibope a partir de um painel de domicílios; o número da CazéTV é uma contagem direta de aparelhos que abriram a transmissão no YouTube.

Uma régua mede pessoas; a outra, dispositivos — embora se saiba que a maioria deles é de telas grandes, como uma Smart TV, e não de smartphones.

Ainda assim, há uma métrica em que os dois mundos passaram a se tocar: o alcance, o total de pessoas que passaram pela transmissão, e a moeda que o mercado publicitário de fato negocia.

Nesta Copa, o alcance da CazéTV no YouTube se aproximou do da Globo — a emissora fala em mais de 100 milhões de pessoas na TV aberta, e o canal já contabilizava dezenas de milhões nas primeiras rodadas. Mas entre o jogo da Escócia, o último da primeira fase, e o do Japão, o primeiro eliminatório, a Globo perdeu 3 pontos e meio de audiência segundo o Ibope.

O incômodo das bets

O modelo gratuito tem um custo — e um bom pedaço dele é coberto pelo setor de apostas. A enxurrada de anúncios de bets virou caso de autorregulação em plena Copa. No fim de junho, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) concedeu liminar recomendando a suspensão de três peças de merchandising ao vivo veiculadas na CazéTV.

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O problema, segundo o conselho, não era o anúncio em si, mas o formato: narradores, apresentadores e comentaristas ofereciam “odds” para lances específicos em tempo real, durante a transmissão — algo que, na avaliação do órgão, “pode estimular apostas impulsivas e induzir o público a uma percepção equivocada sobre as chances reais de ganho”, omitindo os riscos.

A CazéTV afirma ter ajustado a forma de exibir a publicidade de apostas após críticas do público, mas o Conar entendeu haver elementos suficientes para a medida cautelar; o mérito ainda será julgado pelo Conselho de Ética.

O episódio expõe a contrapartida incômoda de um negócio que se sustenta na venda de atenção a uma audiência majoritariamente jovem — a mesma que a CazéTV capturou primeiro — num ambiente regulatório de apostas ainda em construção no Brasil.

Não é um problema exclusivo do canal da Live Mode: é o efeito colateral de todo o ecossistema de esporte no streaming, onde o dinheiro das bets tornou-se combustível central da conta que torna o modelo viável.

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