Bloomberg — Quando o Brasil enfrentar o Japão na Copa do Mundo às 14h desta segunda-feira, os operadores do sistema elétrico do país terão outra preocupação em mente: manter o sistema estável enquanto milhões de brasileiros deixam fábricas, escritórios e lojas para assistir à partida.
Grandes eventos, como a Copa do Mundo, e até hábitos cotidianos, como o banho no início da noite, há muito tempo colocam à prova a rede elétrica brasileira. Tradicionalmente, o país depende das hidrelétricas, apoiadas por termelétricas que podem ser acionadas ou desligadas conforme a demanda varia.
Desta vez, porém, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) enfrenta um desafio novo e mais imprevisível: milhões de painéis solares instalados nos telhados de residências e empresas em todo o país.
Construída ao longo dos últimos 15 anos com apoio do governo, a chamada geração distribuída já representa quase 20% da capacidade instalada de energia no país — pouco menos da metade da capacidade das hidrelétricas. A maior parte dessa produção está fora do controle direto do ONS.
Enquanto os operadores podem desligar um parque eólico ou solar de grande porte, ou decidir quando acionar uma usina termelétrica para equilibrar oferta e demanda, a produção dos sistemas solares em telhados é determinada, em grande medida, pela incidência do sol.
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Isso significa que a primeira partida diurna do Brasil nesta Copa do Mundo poderá servir como um teste da capacidade da rede de absorver oscilações bruscas.
Espera-se que a demanda por eletricidade caia à medida que fábricas desacelerem, escritórios esvaziem e lojas fechem para que os trabalhadores possam assistir à seleção.
Durante a Copa do Mundo de 2022, o consumo de energia ficou cerca de 15% abaixo da média enquanto o Brasil jogava, segundo dados do ONS.
Se o desequilíbrio entre oferta e demanda não for corrigido rapidamente, a rede pode se tornar instável, aumentando o risco de um apagão — com potenciais repercussões políticas significativas em um ano eleitoral.
O risco não é apenas teórico. O grande apagão que atingiu Espanha e Portugal em 2025 mostrou como uma perda repentina de estabilidade da rede pode interromper a vida cotidiana e rapidamente se transformar em um tema político.
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Embora os investigadores tenham concluído que o apagão na Península Ibérica foi causado por uma sequência de eventos complexos — e não apenas pela geração distribuída — o episódio serve de alerta para o Brasil sobre a pressão que a rápida expansão desse tipo de energias renováveis exerce sobre redes elétricas ainda em processo de adaptação.
A rápida expansão das fontes renováveis de geração variável “impõe desafios operativos, especialmente em períodos de baixo consumo combinados com alta geração, como ocorre em domingos e feriados”, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica.
“Nessas condições, pode haver excesso de geração em relação à carga, exigindo a adoção do curtailment, que é a redução controlada da geração determinada pelo ONS.”
Sem conseguir controlar diretamente a geração distribuída dos telhados, o ONS passou a ordenar cortes nas fontes sobre as quais tem controle, começando pelas grandes usinas renováveis.
Isso gerou um efeito colateral na transição energética brasileira: a política criada para incentivar a energia limpa também enfraqueceu a atratividade econômica de novos investimentos privados em grandes projetos de geração renovável.
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No ano passado, o ONS reduziu aproximadamente 20% da geração renovável do país, aumentando a preocupação dos investidores e levando alguns desenvolvedores a reconsiderar seus planos de expansão. Segundo a consultoria Volt Robotics, esses cortes obrigatórios custaram aos operadores de parques eólicos e solares cerca de R$ 6,5 bilhões em 2025.
No início deste mês, a Atlas Renewable Energy suspendeu planos de investir US$ 1 bilhão em novos projetos, afirmando que a decisão refletia uma falta de clareza e de soluções estruturais para desafios como o curtailment.

“Quem mais esta sofrendo com o curtailment é a própria indústria que contratou estes projetos anos atrás com incentivos do governo”, afirmou Victor Iocca, diretor de energia elétrica da ABRACE, associação que reúne grandes consumidores de energia, incluindo indústrias.
A Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) estima que existam cerca de 4 milhões de unidades de geração distribuída em operação, sendo aproximadamente 90% compostas por painéis solares instalados em telhados de residências e empresas. Segundo a entidade, esses sistemas fornecem energia para cerca de 21 milhões de pessoas.
A ABGD afirma que o armazenamento por baterias é a forma mais eficiente de reduzir a pressão sobre a rede elétrica. As baterias permitiriam armazenar o excedente de energia para vendê-lo posteriormente, quando os preços da eletricidade fossem mais altos.
Esse modelo poderia, no futuro, substituir os subsídios atuais, preservando ao mesmo tempo a viabilidade econômica da energia solar em telhados e de outras formas de geração distribuída.
O armazenamento em baterias está entre as alternativas avaliadas pelas autoridades, juntamente com propostas para ampliar a exportação de eletricidade aos países vizinhos. O tema está em discussão tanto na Aneel quanto no Ministério de Minas e Energia.
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Em maio, o ministro Alexandre Silveira afirmou que ainda são necessários avanços no arcabouço técnico e jurídico que possa dar segurança às soluções propostas para enfrentar o problema.
“Precisamos apresentar uma solução para o sistema elétrico para que essa expansão possa, em algum momento, se equilibrar”, disse Christino Áureo, diretor de Relações Governamentais e Institucionais da ABGD. “É muito claro para mim que a solução passa pelas baterias.”
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