Bloomberg Línea — Iván Cepeda e Gustavo Petro, líderes da esquerda colombiana, não reconheceram os resultados eleitorais que deram ao candidato de direita Abelardo De la Espriella a vitória na votação de 31 de maio: mesmo assim, o mercado interpretaria isso como uma vitória para o clima de investimento.
“A declaração de Gustavo Petro é muito grave”, porque “viola a ordem institucional e constitucional” e “fala em minar as instituições”, afirmou Carlos Arias, analista político e diretor da Estrategia & Poder.
Apesar das declarações do presidente Petro e de seu candidato, Cepeda, o mercado espera que os ativos colombianos se valorizem.
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Felipe Campos, gerente de Estratégia e Investimento da Alianza Valores, afirma que “imagino que os ativos estarão em alta. Ou seja, as ações subirão, principalmente as da Ecopetrol, com alta de cerca de 5% na Colômbia, o dólar cairá para COP$ 3.600, e resta saber se, nesta semana, o dólar conseguirá cair para COP$ 3.500”.
Além disso, Campos prevê uma queda nas taxas entre 30 e 40 pontos-base, mas esclarece que “há mais certeza aqui, mas, obviamente, não há certeza absoluta”.
O presidente da ANDI, Bruce Mac Master, afirmou que “o ataque sistemático do presidente da República ao sistema eleitoral colombiano e ao processo democrático justifica a intervenção de garantes internacionais que permitam aos cidadãos realizar uma eleição em paz”.
Para o líder da associação, que reúne as empresas mais importantes do país, “na Colômbia, daremos nossa luta institucional para evitar tantos abusos e irregularidades, mas já há algum tempo chegou o momento em que precisamos pedir aos organismos internacionais que nos acompanhem nessa defesa , para a qual enfrentamos enormes limitações em termos de eficácia local”.
Segundo Arias, da Estrategia & Poder, a gravidade de ignorar os resultados reside no fato de que “dado o grau de polarização que se observa nos resultados eleitorais, isso poderia gerar atos violentos”.
A surpresa do resultado em relação às pesquisas deve provocar uma reação inicial favorável dos mercados, afirmou Daniel Velandia, diretor de Pesquisas Econômicas da Credicorp Capital.
O que esperar do segundo turno?
O tom do debate não parece prestes a se acalmar. Em seu discurso de vitória, De la Espriella atacou o presidente Petro e seu candidato.
“Petro quer se manter no poder, ignorando a vontade do povo”, afirmou ele em Barranquilla. Além disso, acrescentou: “É por isso que faz campanha pelo seu candidato, amigo de narcoterroristas como os do ELN e das FARC”, referindo-se a Iván Cepeda.
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A esse respeito, Arias afirmou: “O que está por vir nestes 21 dias, a partir dessas declarações, não é apenas a incerteza manipulada pela mídia estatal, que está a serviço de Petro e de sua campanha, mas, certamente, a participação na política de vários de seus ministros, entre os quais se destaca, como um dos casos mais graves, o de Armando Benedetti”.
Além disso, Arias destacou que o agora ex-candidato à presidência Roy Barreras “já anunciou que é preciso, entre aspas, aproximar-se dos votos do centro”.
Ao analisar o que está por vir, Arias afirmou que “a votação de Abelardo de la Espriella confirma o declínio do uribismo como a força mais poderosa da direita na Colômbia”.
“Os resultados, em sua opinião, confirmam que De la Espriella já tem muito mais força do que se esperava, até mesmo pela própria esquerda colombiana”.
Por sua vez, Sergio Guzmán, diretor da Colombia Risk, previu um segundo turno bastante disputado, ao considerar que nenhum dos dois candidatos conseguiu se impor apenas com sua base eleitoral mais fiel. Segundo o analista, De la Espriella chega ao segundo turno com impulso político, enquanto Cepeda conta com as vantagens de um candidato do partido no poder, apoiado pelo governo de Gustavo Petro.
Além disso, ele alertou que a campanha poderia agravar a polarização. “O que se desenha agora é um esforço real para apresentar isso como uma batalha existencial, tanto de um lado quanto do outro”, observou.
Guzmán também manifestou preocupação com as contestações de Petro e Cepeda aos resultados preliminares, ao considerar que o país se encontra “à beira de um não reconhecimento do resultado eleitoral”, uma situação que, segundo ele, poderia resultar em protestos e em um aumento da tensão política e social.
Transferência de votos
Quanto à possível transferência de votos, se considerarmos um cenário relativamente conservador no qual: 60% dos votos de Valencia, 20% dos votos de Fajardo e nenhum voto de López fossem para de la Espriella e, portanto, a porcentagem restante fosse para Cepeda, de la Espriella continuaria tendo a maior chance de chegar à presidência, afirma Velandia.
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“É preciso reconhecer que a transferência de votos de Valência pode ser fundamental, sendo que a principal dúvida decorre do fato de que uma parcela nada desprezível de sua intenção de voto poderia ter vindo de seu candidato a vice-presidente, Juan Daniel Oviedo, uma figura política de centro”, explicou Velandia.
Para Juan Carranza, analista de risco político da Aurora Macro Strategies, o ponto-chave dos próximos 21 dias reside no fato de “o governo de Petro não reconhecer os resultados”.
E acrescenta: “Embora tentem lançar uma campanha do medo em relação ao que De la Espriella pode vir a representar, essas posições de não reconhecer esses resultados eleitorais podem neutralizar essa campanha e colocam Abelardo de la Espriella como favorito para ser o próximo presidente da Colômbia”.
Mas, independentemente de isso acontecer ou não, ele afirma que o próximo presidente, seja quem for, herdará um país onde terá muita dificuldade para governar, pois o Congresso está fragmentado.
“Vai ser muito mais difícil para um Abelardo de la Espriella, que tem uma minoria no Congresso, onde terá de fazer alianças com muitos setores políticos”.
Segundo turno
Campos, da Alianza Valores, afirma que uma projeção para o segundo turno das eleições presidenciais, baseada em um modelo de transferência de votos atribuído ao site La Silla Vacía, indica que a vitória poderia ser de Abelardo de la Espriella.
No primeiro turno, Abelardo de la Espriella obteve 10.367.171 votos (44,5% do total), enquanto Iván Cepeda Castro alcançou 9.699.788 votos (41,6%).
Os demais candidatos somaram cerca de 3,2 milhões de votos adicionais, liderados por Paloma Valencia e Sergio Fajardo.
A análise parte da ideia de que os votos desses candidatos seriam redistribuídos entre os dois finalistas ou se transformariam em votos em branco e indecisos.
Segundo as estimativas, Abelardo de la Espriella receberia a maior parte dos votos transferidos, especialmente dos eleitores de Paloma Valencia e uma parte significativa dos de Sergio Fajardo, Claudia López e outros candidatos.
Com essa redistribuição, ele alcançaria 11.994.046 votos (51,5%), enquanto Iván Cepeda alcançaria 10.376.696 votos (44,5%).
O modelo também estima 922.816 votos em branco ou indecisos (4,0 %), o que deixaria De la Espriella com uma vantagem projetada de 1.617.350 votos, o equivalente a 6,9 pontos percentuais.
Esclareça que essa projeção não inclui novos eleitores e apenas redistribui o eleitorado que participou do primeiro turno.
Participação
Velandia, da Credicorp Capital, considera que um possível aumento da participação eleitoral no segundo turno poderia ser um fator decisivo.
“Vale ressaltar que, nesta ocasião, votaram quase 24 milhões de pessoas (participação: 57,9%), o que se compara à participação de 54,9% no primeiro turno de 2022 (21,4 milhões)”, disse Velandia.
Por sua vez, em 2022, quase 1,2 milhão de pessoas a mais votaram no segundo turno, elevando a participação para 58,2%.
No entanto, a semelhança entre a participação atual e a do segundo turno de 2022 (57,8% contra 58,2%) poderia sugerir um menor potencial de aumento no número de eleitores no próximo dia 21 de junho.
“Nosso cenário base continua partindo do pressuposto de uma vitória de um candidato favorável ao investimento (representado agora por Abelardo de la Espriella)”, diz Velandia.









