Bloomberg Línea — O advogado de direita Abelardo de la Espriella assume nesta sexta-feira (7) a Presidência da Colômbia.
Ele receberá um país endividado, com dificuldades para expandir sua economia, com uma sociedade polarizada e com um ex-presidente que se gaba das conquistas de seu mandato, como a redução da pobreza e a melhora na taxa de desemprego.
Gustavo Petro entregará a ele um país com desafios fiscais decorrentes do aumento do custo da dívida pública e da necessidade de ajustar as contas do Estado, segundo analistas econômicos e membros de sua equipe de governo.
O vice-presidente eleito, José Manuel Restrepo, questionou a gestão das finanças públicas durante o governo Petro e afirmou que o novo governo buscará corrigir esse rumo por meio de uma estratégia voltada para o controle dos gastos e o crescimento econômico.
“O governo de Petro conseguiu fazer a dívida pública da Colômbia disparar por meio do desperdício fiscal e da irresponsabilidade na gestão da regra fiscal”, afirmou Restrepo.
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Ele acrescentou que “o resultado é que, hoje, a Colômbia tem mais dívida pública do que durante a pandemia”. E lembrou que “a Colômbia havia reduzido a dívida em 2022, após a pandemia, e o governo de Petro nos deixou superendividados e aumentou o déficit em mais de 10 vezes”.
O vice-presidente eleito acrescentou que “com Abelardo De la Espriella, vamos corrigir essa desordem com menos gastos públicos, combatendo a corrupção e a evasão fiscal e promovendo mais crescimento”.
Petro defende sua gestão econômica e culpa Restrepo (ex-ministro da Fazenda de Iván Duque) pela dívida que o país tinha com o Fundo de Estabilização de Preços dos Combustíveis.
Segundo o presidente que deixa o cargo, Restrepo deixou “COP$70 bilhões (cerca de US$ 22,17 milhões) em dívida”, um valor que foi refutado pelo próprio ex-ministro e atual vice-presidente, que lembra que “Petro gerou quase COP$50 trilhões de déficit por sua decisão de não aumentar o preço do ACPM desde o início de seu mandato”.
Dívida mais cara
A esse panorama soma-se o diagnóstico apresentado por Camilo Pérez, diretor de Pesquisas Econômicas do Banco de Bogotá, que alertou que o custo de financiamento do governo atingiu níveis máximos em quase duas décadas.
Segundo o economista, “em junho, a taxa média de juros da dívida pública, que nada mais é do que a taxa de juros que o governo paga por seu financiamento, atingiu seu nível mais alto em 17 anos”.
Ele precisou que a taxa chegou a 8,74%, “em meio às graves fragilidades fiscais que o país enfrenta e às operações de gestão da dívida implementadas pelo governo que está deixando o cargo”.
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Pérez explicou que o aumento do custo da dívida se consolidou a partir de meados de 2025. “Desde junho de 2025, a taxa média de juros da dívida pública apresentou uma tendência de alta. A ruptura coincidiu com o momento em que o governo suspendeu a Regra Fiscal e acelerou significativamente a emissão de dívida local para atender às pressões de liquidez que enfrentava”, destacou.
O diretor de Pesquisas Econômicas do Banco de Bogotá indicou que o aumento na emissão de dívida interna, a deterioração do prêmio de risco-país, as operações de gestão da dívida e a deterioração das expectativas de inflação também influenciaram o aumento do custo do financiamento.
“Como consequência dessas medidas, o novo governo herda o custo do financiamento público no nível mais alto desde 2009”, afirmou ele.
Nesse contexto, ele afirmou que “o ajuste fiscal não deve se basear apenas em aumentos de receita e/ou reduções de despesas, mas também em uma estratégia que permita reduzir o custo do financiamento”.
Entre as alternativas apresentadas, Pérez destacou que “com um cupom mais baixo para a dívida externa, o governo deveria reativar o financiamento externo junto a organismos multilaterais, créditos diretos junto a bancos comerciais e/ou a emissão de títulos externos que permitam reduzir o cupom total da dívida pública”.
Ele também indicou que “um aumento técnico e coordenado do salário mínimo, aliado à consolidação fiscal, ajudaria a reduzir simultaneamente as expectativas de inflação e o prêmio de risco-país, o que levaria a um custo menor de financiamento”.
Por fim, ele concluiu que “mais uma vez fica evidente que é necessário um ajuste fiscal abrangente, que, além disso, seja acompanhado de políticas macroprudenciais. Caso isso não ocorra, as taxas de juros internas continuarão sob pressão de alta, afetando as decisões de consumo e investimento do país”.
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Daniel Velandia, diretor de Pesquisas Econômicas da Credicorp Capital, concordou que o principal desafio econômico do novo governo será a área fiscal.
“Sem dúvida alguma, o maior desafio econômico que o governo de Abelardo De la Espriella enfrentará é o equilíbrio das contas públicas”, afirmou ele.
O economista acrescentou que esse desafio deverá ser enfrentado “em um contexto em que são necessários ainda mais recursos públicos para recuperar e reestruturar setores estratégicos que sofreram uma acentuada deterioração nos últimos anos, como o setor de saúde e o setor de energia”.
Além disso, a grave deterioração que temos observado na área de segurança, que certamente exigirá mais recursos também".
Velandia destacou que o anúncio de dar início ao ajuste no lado dos gastos públicos representa um sinal positivo.
“O governo já anunciou que a primeira medida será por meio dos gastos públicos, o que é muito bem-vindo”, afirmou.
Ele acrescentou que “a maioria dos economistas, inclusive eu, espera que haja um grande esforço no lado das despesas, sobretudo após o forte aumento que temos observado nos últimos anos nas contratações, na folha de pagamento do governo e na proliferação de subsídios. É preciso moderar, regular e reorientar isso”.
Segundo o economista, um maior compromisso com a disciplina fiscal também teria efeitos sobre o custo do endividamento.
“A maior confiança que se pode gerar nos mercados e entre os investidores deveria permitir, em nossa opinião e de acordo com nossas estimativas, que o país economize quase um ponto do PIB em pagamentos de juros, simplesmente por meio da demonstração de maior responsabilidade fiscal por parte do governo”.
Velandia acrescentou que “tudo isso certamente implicará também um esforço no lado da receita” e considerou que “uma reforma tributária no lado da receita terá que ocorrer em algum momento, dada a quantidade de necessidades que o país tem”.
Na opinião dele, “o grande desafio será equilibrar a necessidade de um ajuste nas contas públicas com a necessidade de o país crescer a taxas mais elevadas, de o PIB crescer significativamente nos próximos anos e de podermos fortalecer o investimento e, acima de tudo, alcançar um crescimento econômico mais sustentável”.
Avanços sociais
Enquanto analistas e a equipe do novo governo concentram sua atenção na situação fiscal, os números oficiais mostram uma evolução favorável em alguns indicadores sociais.
De acordo com o DANE, a pobreza caiu para 28,0% em 2025, em comparação com os 31,8% registrados em 2024, o que representa uma redução de 3,8 pontos percentuais. Isso significou que 1,98 milhão de pessoas saíram da situação de pobreza monetária entre um ano e outro. É importante ressaltar que parte dessa redução é atribuída ao efeito rebote após a pandemia da Covid-19.
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A pobreza extrema também diminuiu, passando de 11,7% em 2024 para 9,6% em 2025, o que equivale a uma redução de 2,1 pontos percentuais e a cerca de 1,13 milhão de pessoas que saíram dessa situação.
O DANE informou ainda que o coeficiente de Gini diminuiu de 0,551 para 0,531, refletindo uma melhora na distribuição de renda.
A instituição destacou que a redução da pobreza esteve associada ao crescimento da renda real das famílias.
A renda per capita das pessoas pobres aumentou 13,6% em termos reais, enquanto a da população em extrema pobreza cresceu 14,6%.
Os maiores aumentos corresponderam aos rendimentos do trabalho, seguidos pelas transferências monetárias e outros rendimentos correntes.
A instituição também informou que, em 2025, a linha de pobreza monetária nacional ficou em COP$482.041 por mês por pessoa e a linha de pobreza monetária extrema em COP$238.498 por mês por pessoa.
Desemprego
No que diz respeito ao mercado de trabalho, o DANE informou que a taxa de desemprego ficou em 8,0% em junho de 2026, contra os 8,6% registrados no mesmo mês do ano anterior.
Com esse resultado, a Colômbia atingiu a menor taxa de desemprego para o mês de junho desde o início da série comparável do DANE, em 2001. Os críticos alertam que a redução do desemprego é artificial, pois decorre de um elevado nível de contratações no setor público e não no setor privado.
“Isso é o que se chama de ‘emprego militante’”, disse Mauricio Cárdenas, ex-ministro da Fazenda do governo de Juan Manuel Santos, que afirmou que essa foi uma estratégia do presidente cessante para inclinar a balança a seu favor durante as eleições.
A geração de empregos foi impulsionada principalmente pelas atividades de Administração pública, educação e saúde, seguidas por Comércio e reparo de veículos e Hospedagem e serviços de alimentação, que foram os setores econômicos que mais contribuíram para o aumento da população ocupada em relação a junho de 2025.
Em contrapartida, os setores de Atividades financeiras e de seguros e de Fornecimento de eletricidade, gás, água e gestão de resíduos registraram reduções no número de ocupados.
Após a divulgação dos dados sobre o emprego, o presidente cessante Gustavo Petro destacou o resultado. “Trata-se de uma das maiores conquistas da história econômica da Colômbia.”
“Em meio à estagnação econômica mundial e às guerras, a Colômbia é o terceiro país da OCDE que mais reduziu sua taxa de desemprego”, afirmou ele.









