Bloomberg — O México está tentando descobrir como reativar o crescimento em seus destinos de praia, outrora em franca expansão, onde as visitas de turistas com alto poder aquisitivo diminuíram.
O tráfego aéreo de passageiros vem diminuindo há dois anos consecutivos em Cancún, Los Cabos e Puerto Vallarta, destinos globais de lazer que servem como um farol para o turismo mexicano. Até o momento, neste ano, as chegadas de passageiros internacionais caíram 6% em Cancún, 8% em Los Cabos e impressionantes 20% em Puerto Vallarta, deixando praias e hotéis com pouca movimentação.
Essas quedas destacam a fragilidade subjacente do enorme setor de turismo do México, mesmo com o crescimento do número total de visitantes estrangeiros, e de uma economia que depende fortemente de sua capacidade de atraí-los.
A indústria do turismo do país, avaliada em US$ 150 bilhões, representa cerca de 9% da atividade econômica anual — mais do que qualquer outro setor — e serve como uma fonte estável de divisas estrangeiras, amplamente protegida contra choques comerciais.
A economia mexicana tem permanecido praticamente estagnada há anos, com o crescimento deste ano previsto em cerca de 1%. As autoridades se esforçam para atrair mais investimentos privados, apesar das dúvidas sobre as futuras relações comerciais com os EUA.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A queda no número de turistas que mais gastam decorre de uma combinação de tarifas aéreas mais altas, menor demanda dos EUA, forte concorrência do Caribe e de outros destinos rivais. A moeda também está mais forte, o que tornou o México mais caro, afirmou a ministra do Turismo, Josefina Rodríguez, em entrevista recente.
“O combustível de aviação é o primeiro fator a afetar os voos e as frequências entre os EUA e o México”, disse Rodríguez. “Em segundo lugar, a inflação nos EUA, o que faz com que as pessoas não viajem tanto”, acrescentou ela, referindo-se ao principal mercado turístico do país vizinho.
Os surtos recorrentes de violência entre gangues representam outro fator dissuasivo, assim como o aumento das proliferações de algas sargaço, que se acumulam em grandes trechos do litoral caribenho do México.
Leia também: De São Paulo a Cidade do México: os mercados de escritórios que se destacam em LatAm
A presidente Claudia Sheinbaum frequentemente destaca o crescimento no número de “visitantes internacionais”, com aumento de 14% no ano passado. É um salto que ela atribui ao encanto das riquezas naturais e culturais do México. “O México está na moda”, argumenta.
Mas esse número — de visitantes estrangeiros que não pernoitam no país — inclui milhões que mal abrem a carteira. Por exemplo, aqueles que desembarcam no México vindos de navios de cruzeiro gastam, em média, US$ 84 por escala, enquanto aqueles que cruzam a fronteira com os EUA, muitos para visitar parentes no México, gastam US$ 59 por visita, segundo dados oficiais.
Em contrapartida, os turistas estrangeiros que chegam de avião geram cerca de quatro quintos dos gastos. Eles desembolsaram mais de US$ 1.200 por viagem no ano passado.
Até mesmo o ímpeto dos “visitantes internacionais” esfriou. Durante o primeiro semestre deste ano, o crescimento desacelerou para menos de 8%.
No início do verão, justamente quando a Copa do Mundo deu início, o quadro ficou especialmente evidente. Nos aeroportos administrados pelo Grupo Aeroportuario del Sureste (ASUR) — sendo Cancún, de longe, o mais movimentado —, registrou-se uma queda de 12% no número de viajantes internacionais em junho.
Em agosto, o número de passageiros que chegaram a Cancún caiu 15%. A queda no mês passado chegou a 17% em Los Cabos e a 26% em Puerto Vallarta.
O mais preocupante é que o número de turistas com maior poder aquisitivo que chegam de avião diminuiu neste ano até junho, com uma queda de mais de 4%, mesmo com o aumento de seus gastos médios para cerca de US$ 1.300 por viagem.
Leia também: Shakira volta à Espanha entre shows milionários e acerto de contas fiscal na Justiça
Apostando na China
À medida que o número de turistas que chegam de avião aos tradicionais destinos de sol e praia do México diminui, as autoridades do turismo estão de olho em um gigantesco mercado inexplorado para contrariar a tendência.
Rodríguez explicou que está mirando a China como uma nova fonte de demanda. Sua aposta é que os viajantes chineses de longa distância, menos interessados nos principais resorts de praia do México, possam, em vez disso, ser atraídos pela gastronomia, pelos festivais e pelos locais históricos.
Cerca de 150 milhões de turistas chineses viajam para o exterior todos os anos, observou Rodríguez. “O México recebe 200 mil, o que não é nada.”
O seu ministério estima que um turista chinês gasta mais do que o dobro do que o turista internacional médio, ou cerca de US$ 3.000 por viagem. “O turista chinês que visita o México, antes de tudo, não está em busca de sol”, disse Rodríguez. “Trata-se mais de um segmento cultural. Eles adoram o Dia dos Mortos, e o foco está mais na gastronomia e na cultura.”
O México conta com cerca de 13.000 guias turísticos, e as autoridades pretendem capacitar um número maior deles para falar mandarim. De acordo com os planos, hotéis e atrações turísticas traduziriam as placas, além de adaptarem as opções de pagamento de forma mais adequada aos hóspedes chineses.
Rodríguez afirmou que deseja ampliar a presença do México nas principais plataformas de mídia social, como o WeChat e o Weibo. Ela também pretende organizar melhor tanto os criadores de conteúdo mexicanos que vivem na China quanto os residentes chineses no México, transformando-os em uma rede de embaixadores do turismo.

A atual campanha do governo para impulsionar o setor está focada na Cidade do México, Baixa Califórnia, Michoacán, Guanajuato e Quintana Roo.
A combinação é deliberada: a capital e os quatro estados-alvo oferecem atrações culturais e históricas significativas. Tijuana, a maior cidade da Baixa Califórnia, também oferece voos diretos para a China, e Cancún, o principal destino turístico do país, localizado em Quintana Roo, serve como porta de entrada para os impressionantes sítios arqueológicos maias.
Leia também: Turismo religioso na América Latina: os destinos que recebem milhões de peregrinos
Os planos de crescimento do setor podem ser limitados pelos recursos relativamente escassos do governo. Além de uma queda de vários anos no financiamento destinado a sítios culturais, o governo destinou apenas 43 milhões de pesos, ou cerca de US$ 2,5 milhões, este ano para o seu principal órgão de promoção turística.
Rodríguez afirmou que o ministério obteve mais 100 milhões de pesos para uma campanha no segundo semestre de 2026 e espera um financiamento semelhante no orçamento do próximo ano, que está atualmente em análise pelos legisladores.
Mesmo assim, o México está competindo com destinos ensolarados relativamente próximos, como a República Dominicana, mas também com locais de férias muito mais distantes, como a Turquia, segundo Rodríguez.
A secretária de Turismo reconheceu que esses locais gastam mais com publicidade, mas, mesmo assim, mostra-se otimista em relação ao que considera ser o principal ponto forte do México: sua riqueza de oportunidades a serem promovidas.
“Temos muito mais opções das quais realmente precisamos tirar proveito”, afirmou ela.
Veja mais em bloomberg.com
©2026 Bloomberg L.P.








